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O compromisso estatal de manutenção do input

3. AS PROMESSAS E FRUSTRAÇÕES DA PRIVATIZAÇÃO CARCERÁRIA

3.3 Escopo da Pena: ressocialização, direitos humanos e distorções

3.5.2 O compromisso estatal de manutenção do input

No final de 2015 houve grande repercussão na mídia norte-americana acerca da ameaça de interpelação judicial pelos consórcios gestores de presídios privados em face do Estado. O motivo: o não cumprimento, por parte do Estado, da cláusula contratual que prevê a manutenção de um mínimo (nada baixo) de população carcerária. Aproximadamente dois terços do presídios privados dos EUA possuem esse tipo de cláusula, cuja garantia varia entre 80% e 100% da lotação221.

As cotas mínimas funcionam da seguinte maneira: o Estado repassa um valor “X” por preso e se obriga a manter “Y”% da capacidade do estabelecimento em troca do serviço.

A despeito do dever de compromisso com políticas de diminuição dos índices de criminalidade (criminalização), o Estado se compromete com o lucro da iniciativa privada, obrigando-se a continuar encarcerando. Caso contrário, é o dinheiro público quem paga pelas vagas não preenchidas e comprometidas contratualmente.222

219 BRASIL. Constituição Federal da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF, Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm>. Acesso em: 02 maio 2016

220 A Pastoral Carcerária, em suas recomendações às prisões privatizadas indica: “Os serviços de assistência tais como o social, de saúde e jurídico devem ser organizados e oferecidos por sistemas públicos universais já existentes como os SUAS, o SUS e as defensorias públicas, visto que esses entes estão mais bem qualificados e equipados para prestar esses serviços aos presos que a administração penitenciária púbica e em menor custo que as empresas privadas. Quando apropriado, esses serviços devem ser prestados em parceria com organizações comunitárias ou entidades sem fins lucrativos, a fim de aproximar a comunidade na reintegração social do preso e reduzir os custos com essas assistências” (Pastoral Carcerária (Org.). Prisões privatizadas no Brasil em debate. São Paulo: Asaac, 2014. Disponível em: <http://carceraria.org.br/wp-content/uploads/2014/09/Relatório-sobre- privatizações.pdf . Acesso em: 04 jun. 2016).

221 IN THE PUBLIC IINTEREST. Criminal: How Lockup Quotas and “Low-Crime Taxes” Guarantee Profits for Private Prison Corporations. 2013. Disponível em: <http://www.inthepublicinterest.org/article/criminal- how-lockup-quotas-and-low-crime-taxes-guarantee-profits-private-prison-corporations>. Acesso em: 30 ago. 2015.

222 THIESEN, Anthony. Prisões Privadas norte-americanas ameaçam processar o Estado por falta de presos. 2015. Disponível em: <http://emporiododireito.com.br/prisoes-privadas-norte-americanas-ameacam- processar-o-estado-por-falta-de-presos-por-anthony-thiesen/>. Acesso em: 07 set. 2015.

81 A cláusula de garantia atribui ao estado os “riscos do negócio”, comprometendo a própria livre iniciativa pregada pelos cânones do capitalismo.

As garantias não são apenas de lotação. É frequente que o “parceiro” privado aceite apenas detentos mais novos e saudáveis, de forma a manter os custos baixos e garantir melhor mão de obra.

Prisioneiros mais velhos tendem a ser brancos, e os mais novos tendem a ser minorias, um fato constatado por um estudo recente baseado no “Bureau of Justice Statistics” publicado no jornal “Radical Criminology” pelo doutorando da University of California-Berkeley Christopher Petrella.223

O site Washington Post publicou artigo em que traz trecho do relatório do anual de 2014 da CCA, uma das maiores empresas especializada em prisões privadas nos Estados Unidos. Retira-se que o interesse da companhia é diametralmente oposto aos da sociedade e, consequentemente, das políticas públicas descriminalizantes que devem ser realizadas pelo Estado224:

A demanda por nossas instalações e serviços pode ser prejudicada pelo relaxamento de esforços pela aplicação da lei, excessiva tolerância em padrões de condenações, práticas de sentença ou para concessão de liberdade condicional, bem pela descriminalização de certas atividades que são atualmente tipificadas em nossas leis criminais. Por exemplo, qualquer mudança em relação às drogas e substâncias de uso controlado ou em relação à imigração ilegal pode afetar o número de pessoas presas, condenadas, e sentenciadas, desse modo potencialmente reduzindo a demanda por estabelecimentos prisionais para abriga-los. […] Legislação foi proposta em várias jurisdições no sentido da possibilidade de

223

PERSON, David. Halt private prison quotas: State contracts guarantee younger, healthier prisoners, who tend

to be mostly minorities.. 2014. Tradução livre. Disponível em:

<http://www.usatoday.com/story/opinion/2014/03/18/private-prisons-holder-minorities-inmates- column/6580077/>. Acesso em: 25 ago. 2015.

224 “O site ‘countercurrentnews.com’ questiona se realmente houve abolição da escravatura nos Estados Unidos e afirma que aparentemente a liberdade é ruim para o negócio das prisões privadas. ‘Pode ser surpresa para muitos americanos, mas a escravidão nunca foi realmente abolida nos Estados Unidos. Isso não é uma metáfora, é uma questão de leitura atenciosa à 13ª Emenda Constitucional’. Essa emenda – geralmente louvada como abolição da escravatura – na realidade faz uma exceção para prisões. Escravidão ainda é completamente legal como ‘punição para o crime’. A 13ª Emenda Constitucional dos Estados Unidos da América traz: ‘Não haverá, nos Estados Unidos ou em qualquer lugar sujeito a sua jurisdição, nem escravidão, nem trabalhos forçados, salvo como punição de um crime pelo qual o réu tenha sido devidamente condenado’. Tal excepcionalidade vem da crença de que o trabalho é essencial à reabilitação moral dos prisioneiros, sobrepondo um político à própria liberdade. Considerando que existem mais negros por trás das grades hoje do que escravizados em qualquer outro tempo na história americana, notório o ‘jeitinho’ para se manter a escravidão totalmente legal, vigente e rendendo lucros aos brancos. Perplexidade maior é o Estado e, portanto, a sociedade, ser cobrado por não manter o ‘fornecimento’ dessa mão de obra escrava.” (THIESEN, Anthony. Prisões Privadas norte-americanas ameaçam processar o Estado por falta de presos. 2015. Disponível em: <http://emporiododireito.com.br/prisoes-privadas- norte-americanas-ameacam-processar-o-estado-por-falta-de-presos-por-anthony-thiesen/>. Acesso em: 07 set. 2015).

82 diminuir a pena mínima para alguns crimes não violentos e tornar mais presos elegíveis para liberação antecipada baseada em bom comportamento.225

A fim de manter boa relação com a indústria e evitar esse tipo de processo judicial, muitos acreditam que o Estado elevará o número de sentenças máximas e longas. Trata-se de sinalização intensa do que está por vir no Brasil.

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