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Capítulo 3 A crítica à economia política A sociedade burguesa em si (a sociedade de

3.3 Carência humana: fetiche, natureza, socialismo e emancipação

3.3.1 O comunismo como espraiamento do estranhamento

A emancipação em relação ao trabalho estranhado aparece no debate com o movimento comunista e na contraposição do comunismo com o socialismo. O mesmo procedimento que Marx realiza na sua crítica à economia política, por meio da apreensão do conteúdo para criticá- lo em suas leis internas, é realizado na crítica ao comunismo. O comunismo é apresentado, deste modo, como uma primeira etapa de crítica da sociedade burguesa, mas que conserva o trabalho estranhado e o capital. Similar ao entendimento dos fisiocratas como um elemento de transição a partir do feudalismo e da economia política como um elemento de universalização de categorias da sociedade burguesa. Se, por um lado, a defesa aos trabalhadores que os comunistas realizam é elogiada, em especial as de Fourier, que defende o trabalhador agrícola, Saint-Simon, que defende o trabalhador industrial, e Proudhon, defensor do trabalhador em geral, por outro lado, na defesa dos trabalhadores, as reivindicações aparece como propriedade privada para todos em um regime ainda submetido ao estranhamento do trabalho, no qual se universaliza e nivela a inveja e a cobiça196.

A crítica que Marx realiza se contrapõe a uma visão positiva de emancipação, pois Marx defende a individualidade, isto é, a personalidade de cada ser humano. O comunismo político partiria da homogeneização, da manutenção do trabalho estranhado e da coisificação do homem. Para Marx, esses pontos são expressos na defesa das relações não-monogâmicas, que seriam a coisificação da mulher, transformação da mesma em uma propriedade comunal e não vista em sua individualidade197.

Portanto, no conceito colocado por Marx neste momento, as relações mercantis no comunismo, ao contrário de serem abolidas, são espraiadas ao máximo. Os indivíduos são igualitarizados pela redistribuição proposta pelo comunismo, mas nos marcos das relações mercantis, mantendo-os como homens separados de outros homens e mediados pelo dinheiro.

196 “A comunidade é apenas uma comunidade do trabalho e da igualdade do salário que o capital comunitário, a comunidade enquanto o capitalista universal, paga. Ambos os lados da relação estão elevados a uma universalidade representada, o trabalho como a determinação na qual cada um está posto, o capital enquanto a universalidade reconhecida e [como]poder da comunidade”. Idem p.104

197 As relações de “amor livre” são colocadas como exemplo central, cujo espectro da igualdade, ao contrário de levar à emancipação, leva ao intercâmbio infinito e ao espraiamento da lógica mercantil à esfera das relações amorosas. Contudo, é discutível se a proposta de Fourier e de outros socialistas franceses estreitavam as relações apenas nos moldes mercantis, tal qual colocado por Marx.

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Perde-se a arbitrariedade das relações hierárquicas entre os homens, mas as relações de oposição mediadas pelo dinheiro, pela troca universal, continuam postas. As relações que coisificam o homem mantêm-se e, inclusive, radicalizam-se pelo espraiamento promovido via ação política, que contém tanto elementos negativos quanto positivos na relação com a emancipação humana198.

O socialismo como apropriação efetiva da essência humana seria a unidade do homem consigo mesmo e com a natureza199. O socialismo aparece como um estágio avançado, além

do comunismo, pois apresentaria a unidade entre os indivíduos e a sociedade, isto é, uniria o metabolismo da individualidade com as relações sociais. Ainda que a atividade social e a fruição social não existem unicamente e imediatamente de modo comunitário, a existência do homem é social. O exemplo que Marx apresenta na relação é da língua, na qual o ser humano pensa e age com algo que é necessariamente social200. Markus aponta como a história nos MEF está portanto direcionada a um fim cognoscível de antemão, isto é, o socialismo, na qual a mediação do comunismo é posta como elemento meramente transitório201.

Um dos elementos centrais da crítica à especulação hegeliana é a defesa da vida social efetiva, contraposta à consciência universal. Nesse sentido, Marx opõe a totalidade ideal (pensada) hegeliana à totalidade efetiva dos elementos centrais como a intuição e fruição da sociedade em movimento. Retomando a questão da negatividade antropológica em Marx, a definição, portanto, de emancipação concentra-se em um dado que é ao mesmo tempo negativo e não-utópico, funde-se na crítica do existente, sendo a ideação apenas um momento do metabolismo social.

A ação política conserva elementos positivos e negativos202. A ação positiva se dá entre meios e fins na luta política. Marx vê no proletariado não apenas o elemento negativo dessa

198 O debate refere-se, portanto, a questão da política na obra de Marx. Apresentamos uma breve introdução do debate na introdução, a respeito da relação com a política, a partir da constatação da importância da sociedade civil.

199 “Dissolução do antagonismo do homem com a natureza e com o homem; a verdadeira resolução do conflito entre existência e essência, entre objetivação e auto-confirmação, entre liberdade e necessidade, entre indivíduo e gênero” Ibidem p.105

200 “Não apenas o material da minha atividade - como a própria língua na qual o pensador é ativo - me é dado como produto social, a minha própria existência é atividade social; por isso, o que faço a partir de mim, faço a partir de mim para a sociedade, e com a consciência de mim como um ser social” Ibidem p.107

201 MARKUS, Gyorg. A teoria do conhecimento no jovem Marx. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1974.

202 Cabe ressaltar que a primazia marxiana não se encontra na defesa da politicidade, mas da ação política que, contudo, não se resume à vida política. A emancipação política é limitada e aquém da emancipação humana. A diferença reside justamente na superação de uma esfera autonomizada (política) que é contraparte de um estranhamento nas relações materiais. Em sentidos opostos, tanto Chasin, quanto Rosanvallon ressaltam a crítica marxiana a política. CHASIN, José. Marx - A determinação ontonegativa da politicidade, in Ensaios Ad Hominem - Tomo III - Política, Santo André, Ad Hominem, 2000. ROSANVALLON, Pierre. Liberalismo econômico:

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dissolução, mas também a ação comunista prática que contém os elementos positivos da luta. A relação entre os meios e fins ocorre pelo deslocamento da relação entre os homens, que deixa de ser um meio nas relações mercantis para ser meio e fim da formação da comunidade política dos proletários comunistas – que também é a própria auto-abolição da condição proletária. Ou seja, o próprio meio - a sociabilização é também o fim desejado - emancipação. Em suma, é suprimida a separação entre meios e fins na luta política e a luta política já é o próprio fim em si:

Quando os artesãos comunistas se unem, vale para eles, antes de mais nada, como finalidade a doutrina, propaganda etc. Mas ao mesmo tempo eles se apropriam, dessa maneira, de uma nova carência, a carência de sociedade, e o que aparece como meio, tornou-se fim. Este movimento prático pode-se intuir nos seus mais brilhantes resultados quando se vê operários (ouvriers) socialistas franceses reunidos. Nessas circunstâncias, fumar, beber, comer etc., não existem mais como meios de união ou como meios que unem. A sociedade, a associação, o entretenimento, que novamente têm a sociedade como fim, basta a eles; a fraternidade dos homens não é nenhuma frase, mas sim verdade para eles, e a nobreza da humanidade nos ilumina a partir d[ess]as figuras endurecidas pelo trabalho”203.

Marx opõe-se à unilateralização da apropriação do indivíduo pela sociedade na forma de ter. Contudo, Marx encontra na língua ou na apropriação individual da arte (sem necessariamente ter a propriedade) elementos de apropriação da riqueza em que a relação de indivíduo e sociedade não são opostas. A riqueza humana aparece como apropriação do indivíduo da produção humana como um todo, pelo olho modificado como da produção das artes visuais humanas A abolição da propriedade privada aparece como emancipação de todas as qualidades e das próprias coisas produzidas pelo homem.