3 O DFAD NA ARQUITETURA
3.3 FUTUROS ADAPTÁVEIS: UMA METODOLOGIA DO DFAD
3.3.1 O Adaptable Futures Group
Tendo como preocupação a extensão de vida do ambiente construído, o AF se consolidou como uma das referências globais no estudo da Adaptabilidade. Para uma melhor compreensão das atividades do grupo desde seu surgimento, foi produzida uma linha do tempo reduzida com os principais marcos que revelam não apenas a atuação, mas também o principal enfoque geográfico. Foram definidas assim, três fases principais: fase 1, o surgimento; fase 2, a expansão; fase 3, a reestruturação (Figura 34).
O Adaptable Futures Group da Loughborough University desvenda a adaptabilidade em detalhes, analisando a complexa rede de dependências que induzem, impedem e acomodam mudanças. O trabalho inclui projetar para adaptabilidade, flexibilidade e reutilização adaptativa do nosso estoque de edifícios e espaços urbanos (ADAPTABLE FUTURES, [s.d.], tradução nossa).111
Figura 34 - Linha do Tempo do AF Group.
Fonte: O autor (2022).
111 Tradução nossa de “The adaptable futures research group at Loughborough University unpacks adaptability in detail looking at the complex web of dependencies that induce, hinder, and accommodate change. The work includes designing for adaptability, flexibility and the adaptive reuse of our building stock and urban spaces” (ADAPTABLE FUTURES, [s.d.]).
3.3.1.1 Fase 1: o surgimento
Segundo Gibb et al. (2007) o AF foi lançado como uma iniciativa resultante de um projeto piloto chamado “Building the Brand”, fundado em 2007 pela Loughborough Innovative Manufacturing and Construction Research Centre em colaboração com a Laing O’Rourke, BuroHappold e Reid Architecture, e através do interesse em pesquisas acerca da Adaptabilidade no ambiente construído. No geral, o grupo tomou como base uma simples premissa que foi a responsável pelo início da investigação:
O projeto AF surgiu com uma premissa simples de que a adaptabilidade poderia ocorrer antes do edifício ser ocupado através da pré-configuração das escolhas iniciais de projeto por meio de sistemas construtivos industrializados ou após o edifício ser ocupado através da reconfiguração do edifício para mudanças subsequentes de uso (SCHMIDT III, 2014, p. 158, grifo nosso, tradução nossa).112
Dentre os principais objetivos da pesquisa em seus anos iniciais, Beadle et al.
(2008, p.4, tradução nossa) pontua:
(1) identificar cenários futuros e critérios de projeto aos quais a construção adaptável deve responder;
(2) compreender as causas do sucesso ou fracasso de tentativas anteriores, tanto tecnológicas quanto humanas;
(3) criar novos modelos de arquitetura de produto e métodos associados de análise para otimizar a configuração de componentes e sistemas de acordo com as necessidades do cliente;
(4) inventar tecnologias e sistemas de construção econômicos mais adequados para fornecer os níveis exigidos de adaptabilidade ao longo de seu ciclo de vida completo.113
Com uma metodologia qualitativa e quantitativa, o projeto englobava revisão de literatura, realização de workshops, entrevistas com profissionais e estudos de caso. Em 2007 foi realizado o workshop inaugural do grupo, contanto com 12 especialistas e membros internos; enquanto em 2008, mais dois workshops foram
112 Tradução nossa de “The AF project research burgeoned on a simple premise that adaptability could take place before the building was occupied through the preconfiguration of initial design choices by way of industrialised building systems or after the building is occupied through the reconfiguration of the building for subsequent changes in use” (SCHMIDT III, 2014, p. 158).
113 Tradução nossa de “(1) identify future scenarios and design criteria to which adaptable building should respond; (2) understand the causes of success or failure of past attempts, both technological and human; (3) create novel product architecture models and associated methods of analysis to optimise the configuration of components and systems against customer needs; (4) invent cost-effective building systems and technologies best suited to provide the require levels of adaptability over their full life cycle” (BEADLE et al., 2008, p.4).
desenvolvidos, no qual o primeiro discutiu parâmetros frente à capacidade adaptativa, e o segundo buscou compreender as motivações das partes envolvidas frente à adaptação; e em 2009, um quarto, apenas com membros internos, para definir as estratégias da Adaptabilidade (SCHMIDT III, 2014).
Assim, a primeira fase caracterizou-se pelo surgimento do grupo como um projeto de pesquisa multidisciplinar na Loughborough University, com foco nas discussões acerca da Adaptabilidade para o contexto inglês – DfAD no Reino Unido114 (BEADLE et al., 2008).
O Adaptable Futures é um projeto de pesquisa multidisciplinar [...] que visa facilitar o desenvolvimento de edifícios adaptáveis no Reino Unido por meio de pesquisas acadêmicas e exemplos da indústria. O projeto envolve acadêmicos e pesquisadores dos seguintes setores: construção, arquitetura, levantamento quantitativo, negócios, gerenciamento de projetos e engenharia (BEADLE et al., 2008, p.1, tradução nossa)115.
3.3.1.2 Fase 2: a expansão
A segunda fase, apesar de continuar com o foco no Reino Unido, teve um caráter de discussão mais expansivo, ou seja, mais global. Foi um momento em que o AF ampliou o número de pesquisadores envolvidos com as investigações - DfAD no Reino Unido e Global.
A criação de um website (www.adaptablefutures.com, Figura 35) foi uma ação chave para ampliar a disseminação das pesquisas, divulgar os eventos e permitir um contato mais acessível. A plataforma foi ainda interligada à um blog, em que eram feitas postagens acerca do tema em questão, além do uso do Twitter (@adaptablefuture) como rede social de apoio.
114 O Japão e a Holanda foram citados por Beadle et al (2008) como os líderes nas pesquisas sobre a temática.
115 Tradução nossa de “The Adaptable Futures project is a […] multi-disciplinary research project that aims to that aims to facilitate the development of adaptable buildings in the UK through academic research and examples from industry. The project involves academics and researchers from the following sectors: construction, architecture, quantity surveying, business, project management and engineering” (BEADLE et al., 2008, p.1).
Figura 35 - O website do AF Group no ano de 2012.
Fonte: Acervo do Adaptable Futures Group.
Nessa perspectiva de ampliação, o grupo passou a lançar competições. Em 2011, realizou-se uma competição com escritórios de design para projetar uma edificação adaptável não-doméstica; já em 2012, uma competição estudantil internacional chamada de “DFA (Designing Adaptable Futures)” (Figura 36), que recebeu submissões de vinte e seis países (aproximadamente 150 submissões). O objetivo era instigar propostas que trouxessem uma abordagem particular acerca da Adaptabilidade: “nós buscamos propostas de design inovadoras que desafiem as ortodoxias existentes sobre adaptabilidade no ambiente construído” (ADAPTABLE FUTURES, [s.d.], tradução nossa)116.
116 Tradução nossa de “We seek innovative design proposals that challenge existing orthodoxies about adaptability in the built environment (ADAPTABLE FUTURES, [s.d.]).
Figura 36 - (a) Poster da competição DfA e (b) resultados anunciados no website Archdaily.
Fonte: (a) Acervo do Adaptable Futures Group; (b) Archdaily.
Ainda em 2012, realizou-se o workshop “Challenging Time(s): activities to untangle change” em um formato experimental dividido em três sessões, de forma a
proporcionar aos envolvidos um contato com a temática da Adaptabilidade (Figura 37).
Pensar - três exercícios para desafiar a compreensão dos participantes sobre a adaptabilidade de um semântica, construção e perspectiva das partes interessadas.
Fazer - um resumo de design para desafiar a capacidade dos participantes de responder à necessidade de adaptabilidade no contexto de um problema de projeto.
Refletir - orientação para desafiar a solução proposta pelos participantes e como eles podem considerar soluções alternativas (SCHMIDT III, 2014, p.152, grifo nosso, tradução nossa).117
Figura 37 - O workshop Challenging Time(s).
Fonte: Schmidt III (2014).
117 Tradução nossa de “Think - three exercises to challenge participants’ understanding of adaptability from a semantic, building and stakeholder perspective; Do - a design brief to challenge participants’
capacity to respond to the need for adaptability in the context of a design problem; Reflect - guidance to challenge participants’ proposed solution and how they might consider alternative solutions”
(SCHMIDT III, 2014, p.152, grifo nosso).
Em 2016, o livro “Adaptable Architecture: Theory and Practice”118 foi publicado e representou um marco para o grupo. Ele condensou uma fundamentação teórica sobre a Adaptabilidade além de grande parte das discussões, experiência e trabalhos desenvolvidos pelo AF desde seu surgimento até sua publicação (Figura 38).
Figura 38 - O livro “Adaptable Architecture: Theory and Practice”.
Fonte: Acervo do Adaptable Futures Group.
3.3.1.3 Fase 3: a reestruturação
No ano de 2020, o AF passou por uma reestruturação interna com a entrada de novos pesquisadores, sendo dois deles brasileiros (incluindo o autor dessa dissertação). No contexto pandêmico e diante da facilidade de reuniões virtuais, gerou-se um desejo de investigação da temática da Adaptabilidade no Brasil – DfAD no Brasil. No geral, as atividades se dividiram em:
(1) disseminação, com atualização do site, criação de uma conta na rede social Instagram (@adaptablefutures, Figura 39) e articulações estratégicas;
118 O livro foi resultado ainda da tese de Doutorado de Robert Schmidt III na Loughborough University (co-orientador dessa dissertação).
Figura 39 - Instagram do AF Group.
Fonte: Acervo do Adaptable Futures Group.
(2) pesquisa, com atualização da literatura acerca do tema, novos estudos de caso, assim como contato com arquitetos de escritório brasileiros (Figura 40).
Figura 40 - Primeiros estudos de caso no Brasil.
Fonte: Acervo do Adaptable Futures Group.