CAPÍTULO III. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA CONCEITUAL
3.1 ABORDAGEM SISTÊMICA
3.1.2 O conceito de autorreferencialidade de Niklas Luhmann
A Teoria dos Sistemas Sociais, a luz de Luhmann (2009), surge em um ambiente complexo no qual o futuro deixa de ser previsível e passa a uma mera possibilidade. Origina- se como uma disciplina que possui como problemática central em sua teoria a extrema complexidade do mundo em que vivemos (NEVES; NEVES, 2006). Para Luhmann, diferenciação social e formação de sistema são características básicas da sociedade moderna e o mundo é expresso através de uma rede de distinções e rótulos contingentes que sempre devem ser entendidos dentro do contexto.
Em sua teoria Lumann observa que o esquema de inputs/ outputs é configurado como modelo formal, no qual se tem que os inputs com funções iguais correspondem a outputs iguais, concluindo-se que a transformação sofrida no interior do sistema é decidida estruturalmente. Logo, a partir dessa análise surgem as críticas ao referido esquema, que é caracterizado como um modelo de máquina ou de fábrica, levando a Teoria dos Sistemas a ser vista como um modelo tecnocrático, “que não é capaz de dar conta da complexidade multifacetada das realidades sociais”, já que em condições determinadas os resultados podem ser previstos. (LUHMANN, 2009, p. 64).
Então Luhmann (2009), recusando a simplificação matemática do esquema inputs/outputs e voltando sua atenção para a complexidade do sistema, traz integralmente o conceito de sistema autopoiético, criado por dois biólogos chamados Humberto Maturana e Francisco Varela (1980), no qual afirmam que um sistema pode ser caracterizado como vários eventos ou operações que se interacionam. Diante disto podem-se ter três tipos de sistemas: o dos seres vivos, que possuem processos fisiológicos; os sistemas psíquicos, onde os processos são ideias; e os em termos de relações sociais, como processos possuem as comunicações. A formação dos sistemas acontece quando estes se distinguem do ambiente no qual esses eventos e operações ocorrem, e que não pode ser integrado a suas estruturas internas. Parsons (1951) definia sistemas como normas e padrões de valores partilhados coletivamente, já a noção de Luhmann assenta-se na ideia de que:
O sistema é formado de maneira estritamente relacional. Possui a ideia de uma fronteira constitutiva que permite a distinção entre dentro e fora, onde cada operação de um sistema (re)produz essa fronteira encaixando-se numa rede de futuras operações, na qual, simultaneamente ele ganha sua própria unidade/ identidade (BECHMANN; STEHR, p. 190, 2001).
O sistema que contém em si sua diferença criando suas próprias estruturas independentemente do entorno, é caracterizado pelos biólogos como um sistema autopoiético,
autorreferente e operacionalmente fechado e que se constitui como tal, diminuindo a complexidade do entorno e construindo sua própria complexidade por meio da produção dos seus próprios elementos, sendo neste processo que ocorre a evolução (NEVES; NEVES, 2006).
O conceito de sistema fechado foi o grande diferencial desta nova abordagem teórica dos sistemas sociais, visto que este fechamento não se refere a sistemas isolados, incomunicáveis, insensíveis ou imutáveis, mas sim por que para que um sistema se torne um sistema é necessário que suas partes ou seus elementos interajam uns com os outros e somente entre si, ou seja, um fechamento puramente operacional. Quanto ao conceito de autorreferência está relacionado à ideia de os elementos que constituem o sistema se relacionarem de forma retroalimentada uns com os outros. E por fim, a autopoiésis que representa a própria identidade que os sistemas fechados e autorreferidos possuem de, a partir de seus próprios elementos constituírem sua identidade diferenciada. É importante ressalvar que o conceito de autopoiésis não pode ser confundido com de auto-organização, pois este é a “capacidade que alguns sistemas possuem em (auto)- produzirem um estado de ordem a partir da desordem” e a autopoiésis, entretanto, é:
A capacidade de determinados sistemas em produzirem–se como estado de ordem, mantê-lo e, por vezes redirecioná-lo numa ou noutra direção, visando a estabilidade dos sistemas como tal, a partir de interpretações feitas com relação às mudanças do entorno (RODRIGUES, 2008, p.113).
O sistema autopoiético, então, pode ser definido por meio de alguns princípios trazidos por Rodrigues (2008, p.117) como:
Um sistema que opera a partir de e através de suas próprias estruturas (elementos); Por não operar além de suas estruturas, caracteriza-se como uma unidade autônoma em seu operar;
Existe, portanto um fechamento operacional que se refere especificamente às operações estabelecidas “internamente”; isto é, são os processos relativos ao sistema como unidade que interagem entre si, estabelecendo os limites de interação e os limites do sistema;
Um sistema deve ser visto como numa unidade dinâmica, operativa e que designa este operar consigo mesmo;
Um sistema se autoproduz, produz a si como unidade, além disso, se auto repara, se auto reestrutura, se autotransforma e se auto- adapta.
Essas características passam a fazer parte do sistema autopoiético a partir do momento em que este se constitui como tal, e isto decorre de eventos de individualização de elementos/processos já existente em um determinado meio favorável para tanto. E esta individualização se origina da diferença existente entre sistema e meio.
Nesta pesquisa as prefeituras de Bragança, Barcarena, Augusto Corrêa e Abaetetuba que formam o sistema aberto terão como característica do sistema autorreferencial: a capacidade de operar a partir de suas próprias estruturas, considerando que a gestão ambiental nessas instituições acorre de forma mais complexa permitindo a criação de estruturas próprias dentro do sistema garantindo certa autonomia em relação ao seu entorno. Todavia, partindo do pressuposto de que nenhum sistema pode evoluir a partir de si mesmo, considera-se a comunicação deste sistema aberto com o entorno como sendo por meio de input e output que são conceitos trazidos da Teoria Geral dos Sistemas (Figura 3).
Na Figura 3 é possível evidenciar de forma macro como foi delineado o sistema da gestão pública ambiental nas prefeituras dos municípios em questão. No ambiente externo existem diversas demandas (inputs) relacionadas às questões ambientais, como: degradação do meio ambiente, diretrizes direcionadas pelo governo federal e estadual, assim como demandas da sociedade local como, por exemplo, maiores incentivos financeiros para a agricultura. A administração pública municipal, que é o centro do sistema, possui características como auto-organização e autorreferencia conforme explicado no capítulo anterior, pois em seu interior existem diversas secretarias que se comunicam e possuem estruturas inter-relacionadas com capacidade para gerar novas estruturas. É importante frisar que o limite deste sistema se configura no conjunto de secretarias normativamente e juridicamente vinculadas à administração pública municipal. Como oferta ao ambiente, tem- se as políticas públicas ambientais, onde o PMV se enquadra, assim como outras ações e programas de cada localidade voltados para as questões ambientais como, por exemplo, o projeto veraneio realizado na praia do Caripi em Barcarena para diminuição de poluição da localidade.
Figura 3. Modelo Sistêmico aplicado ao Programa “Municípios Verdes”.
Fonte: Elaborado pela autora (2014).
Por fim, como esta pesquisa, a partir de uma análise sistêmica, se delimitou como processo de gestão os aspectos relacionados à tomada de decisão, comunicação e entreves, a seguir desenvolvem-se estes assuntos de forma mais aprofundada para o entendimento teórico da pesquisa.