3. A GESTÃO DO DESIGN E O BRANDING
3.1. O conceito de branding
Inicialmente vamos partir da definição de branding, procurando traduções e
definições que apresentem seu significado, já que utilizamos uma nomenclatura em
língua estrangeira, que ainda não conta com seu “aportuguesamento”.
A palavra brand, do vocabulário inglês, pode ser traduzida como marca, do
verbo marcar (ACCIOLY, 2003). Além disso, podemos ver que o termo brand possui
em sua etimologia ligação com o verbo to burn, que significa queimar (ibid). Isto
ressalta o fato de que, o surgimento do uso das marcas tem sua origem a milhares
de anos, quando criadores de gado começaram a marcar à ferro quente o seu gado,
com uma marca que pudesse formalizar sua posse (Fig 07). Além disso, este ato,
indiretamente, representava que o dono tinha responsabilidade de alimentá-lo, de
cuidar dele, criando uma relação direta entre propriedade e responsabilidade
(ACCIOLY, 2003). Ainda hoje o gado é marcado com esta finalidade.
Fig 7. Gado marcado
Fonte: http://www.amarillo.com/images, acesso em janeiro de 2006
Outras formas de Branding, encontradas na história passada, podem ser
exemplificadas quando observamos os nomes de fabricantes que passaram a ser
aplicados em outros produtos. Por exemplo, no ano 4000 aC, peças cerâmicas
possuíam marcas feitas ainda nas peças cruas, que identificavam os artesãos que
as executaram (Fig 08). Tijolos e telhas da Mesopotâmia e no Egíto eram também
marcados como o símbolo e nome do monarca do reino em que foram produzidos,
bem como indicavam a que se destinavam (ACCIOLY, 2003).
Fig 08. Lamparina a óleo romana com marca gravada século II d.C Fonte: Revista ABCDesign –2002
Mais tarde, no período de navegação mercantilista com exportação e
importação de especiarias, todos as caixas ou barris, recebiam uma marca que tinha
um atributo principal de identificar sua procedência (ACCIOLY, 2003).
Com a revolução industrial, de onde surgiram grandes empresas
tradicionais que permanecem até hoje, a marca ou o brand, veio com o objetivo de
dar nome aos fabricantes assim como identificar o país de origem (Fig 09). Daí
surgiu o termo made in (KISTMANN, 2001).
Fig 09. Made in Brazil Fonte: Revista ABCDesign –2002
Atualmente, o termo branding vem sendo disseminado tanto nas empresas
por seus gerentes, como na literatura do campo da administração e do design. Neste
novo contexto, do termo brand surge o termo branding, que hoje representa a ação
de atribuição do brand. Branding, portanto, neste contexto é o processo de
construção, aplicação e fomento de uma marca (MARTINS, 2000).
Vários autores conceituam este novo campo, relacionado à área da
administração de empresas. Destacamos aqui os conceitos de Rodrigues (2004) e
Martins (2000), que consideramos relevantes pelo fato de incorporar conceitos que
vemos como importantes para este trabalho. Rodrigues define branding como
“Selecionar e combinar atributos tangíveis e intangíveis para diferenciar o produto, o
serviço ou a corporação de uma mesma maneira atrativa, significativa e
convincente”. Já para Martins branding é o termo em inglês para descrever todas as
ações relacionadas aos projetos de criação ou gestão das marcas.
O branding está, portanto, associado a uma atividade de planejamento, que
considera uma marca como um capital intangível das empresas, importante para o
seu posicionamento estratégico (AAKER, 2000).
No Brasil, o conceito de branding inclui em sua definição, com o seu
aportuguesamento, os aspectos de administração do nome do produto ou da
empresa, da sua configuração gráfica, dos processos de comunicação em geral, do
posicionamento da marca no mercado e na empresa (MARTINS, 2000). O branding
é, desta forma, considerado um ramo evolutivo do marketing. A ele estão
relacionados os anteriormente denominados programas de identidade corporativos
(ibid), do qual os designers se ocupam no aspecto operacional.
Ressalta-se ainda o fato de que o termo branding deve ser considerado
como muito mais do que planejamento estratégico da marca, estando ligado
diretamente à relação de afetividade que determinada marca tem com seu
consumidor (KAPFERER, 2004). Trata-se, na verdade, de um processo de
construção e gerenciamento de marca, apoiado em uma definição estratégica, a
qual orienta o posicionamento do produto ou da empresa em relação a uma série de
aspectos, que serão a alma desta marca, durante a formação de sua identidade.
O objetivo do branding é conseguir que uma determinada marca ocupe um
determinado lugar na mente dos consumidores, diferenciando-a dos concorrentes.
Para isso a marca deve retratar o conceito da empresa ou do produto, propiciando
aos consumidores uma fácil identificação com a imagem da empresa (MARTINS,
2000).
Na atualidade, portanto, o conceito de marca evoluiu consideravelmente em
relação ao uso que se dava no passado. Ele passou a incorporar uma série de
novos conceitos, que levaram ao termo brand equity.
Brand equity, segundo Martin (2004), “é tudo aquilo que uma marca possui,
de tangível e intangível, e que contribui para o crescimento sustentado dos seus
lucros. É o somatório dos valores e atributos das marcas, que devem se transformar
em lucros para os seus proprietários e acionistas”.
O termo brand equity é utilizado na literatura preservando a grafia inglesa
porque, assim como com a palavra marketing, não dispomos em língua portuguesa
de um termo equivalente, ficando igualmente difícil encontrarmos uma tradução do
termo em poucas palavras, sem apresentar uma série de definições e aplicações,
que venham a explicar a sua real representação operacional.
O uso do termo em língua estrangeira provoca uma dificuldade no sentido
da sua apropriação do significado do termo. Na prática, o termo branding, apesar de
muito utilizado pelos profissionais de marketing e design, é aplicado na maioria das
vezes de modo errôneo, dificultando a sua aplicação como uma ferramenta de
gestão eficaz, na medida em que ele foi apropriado em muitos casos de modo
superficial.
Em pleno estágio do processo de globalização, no qual a tecnologia e as
matérias-primas estão disponíveis a todos, bem como com o processo de
mundialização, decorrente do acesso amplo à informação, se diferenciar num
mercado tão repleto de produtos similares passa a demandar a introdução de
atributos aos produtos e serviços que visem, acima de tudo, corresponder às
expectativas nos usuários, provocando mudanças nas estratégias das empresas
(KAPFERER, 2004). Desta forma, estes atributos passam a se apoiar nas marcas,
pois elas representam conceitos intangíveis que influenciarão no momento da
compra. Assim, ao adquirir um produto, o consumidor não compra apenas um bem
ou serviço, mas todo o conjunto de valores e atributos da marca (KAPFERER, 2004).
No documento
AÇÕES DO LÍDER NA GESTÃO DO DESIGN COMO AUXÍLIO NA FORMAÇÃO DO BRANDING: UM ESTUDO DE CASO EM UMA
(páginas 53-56)