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CAPÍTULO II – MARCO TEÓRICO 32

2.2. O CONCEITO DE CAMPO EM PIERRE BOURDIEU 36

A escolha do conceito de campo de Pierre Bourdieu está vinculada a sua capacidade analítica e compreensiva de articular campos relativamente autônomos com suas próprias regras e ritos típicos de cada campo.

Pensadores como Saviani atribuem a Bourdieu o rótulo de fomentar a teoria reprodutivista por ressaltar que a escola é uma instância privilegiada da violência simbólica, um espaço e uma ferramenta para reforçar a dominação e manter a estrutura social.

Na contramão do pensamento de Saviani, Almeida (2010) alerta para a possibilidade de mudança no pensamento de Bourdieu, defendendo que, se a princípio o sistema de reprodução traz um pessimismo sobre suas possibilidades de mudança, por outro lado a compreensão do sistema de reprodução social via escola e outras instituições sociais abre as portas para a emancipação do sistema de reprodução social, pois desmascara essa dominação velada no âmbito da sociedade em geral. Segundo o autor:

À primeira vista, a teoria de Bourdieu traz certo pessimismo em relação ao papel da escola, ou seja, como instituição fundamental na formação do habitus do indivíduo, pode ser apreendida apenas sob o ângulo da reprodução, à medida que utiliza sua legitimidade e pseudoneutralidade para inculcar-lhe o arbitrário cultural dominante, contribuindo eficazmente para a manutenção da ordem social. Não só em relação a escola, mas, na teoria de Bourdieu, é possível perceber a trama da reprodução das sociedades que tende a conduzir aqueles que procuram conhece-la a um pessimismo que retira a possibilidade de mudança e transformação no contexto da sociedade capitalista (ALMEIDA, 2010, p. 148).

Mas o sistema fundamentado na teoria da reprodução deixa algumas facetas abertas, permitindo o processo da transformação, ou seja, pensar o ensino para além da reprodução. E é nesse sentido que Bourdieu soube explorar as entrelinhas e nos alertar para pensarmos as alternativas viáveis.

O pensamento de Bourdieu será utilizado como instrumento conceitual que facilita na compreensão das relações de poder e reprodução social, apontando para suas possibilidades

de transformação social. No entanto, nessa pesquisa vou me ater à definição de campo6 em Bourdieu.

A teoria geral da economia dos campos permite descrever e definir a forma especifica de que se revestem, em cada campo, os mecanismos e os conceitos mais gerais (capital, investimento, ganho), evitando assim todas as espécies de reducionismo, a começar pelo economicismo, que nada mais conhece além do interesse material e a busca da maximização do lucro monetário. Compreender a gênese social de um campo, e apreender aquilo que se faz a necessidade especifica da crença que o sustentar, do jogo de linguagem que nele se geram, é explicar, tornar necessário, subtrair ao absurdo do arbitrário e do não-motivado os actos dos produtores e as obras por eles produzidas e não como geralmente se julga, reduzir ou destruir (BOURDIEU, 1998.p.69).

Esse conceito é de suma importância, pois possibilita compreender a gênese social de um campo e apreender a estruturar as crenças que sustentam esse campo. Dessa forma, essa teoria é de grande valia na análise do campo sindical docente.

Essa pesquisa utiliza o conceito de campo como estruturador das relações sociais, que segundo Sousa (2013):

Bourdieu (1983) pensa a estrutura e o sujeito numa relação dialética, elaborando um modelo conceitual que busca compreender como efetivamente são produzidas as praticas dos agentes sociais. O seu debate teórico nega concepções sociológicas que pensem o individuo e a sociedade como dimensões distintas e não como conceitos indissociáveis (Sousa, 2013.p78).

Essa perspectiva de Pierre Bourdieu, que pensa a estrutura e o sujeito ou a sociedade e o individuo como dimensões indissociáveis ou inseparáveis, tem relação com o pensamento de Mills (1969), pois esse também compreende a imaginação sociológica como um esforço para relacionar a história e a biografia dentro de um contexto maior instituído socialmente.

É importante compreender a origem social das crenças dos sujeitos da pesquisa, pois torna possível a compreensão de suas visões. Dessa forma o conceito de campo em Bourdieu contribuiu com o procedimento de pesquisa Análise de Discurso Crítica (ADC), na análise documental dos congressos analisados e na compreensão da estruturação das concepções sobre EAD nesse campo.

6 O conceito de campo é retomado em várias obras de Pierre Bourdieu, utilizo aqui a definição presente no livro __. O poder simbólico. 2. Ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil; Lisboa: Difel, 1998.

Com vistas a relacionar e entender as concepções de cada sujeito da pesquisa entrevistado, considerou-se que sua visão pessoal de mundo é indissociável de suas condições objetivas de trabalho e de suas posições institucionais. É possível portanto pensar esse campo de Bourdieu como um espaço social de lutas e contradições, e nesse sentido, cada campo especifico possui suas próprias regras.

Em relação às visões conflitantes dentro de um determinado campo, Sousa (2013) nos diz que : “Na construção da realidade social, os autores se envolvem em lutas e transações, visando impor sua visão, partindo sempre de pontos de vista, interesses e princípios que determinam disposições e sua posição no espaço social.” (SOUSA, 2013. p.164).

Dialogando com Bourdieu, Sousa (2013) afirma:

A noção de espaço permite pensar a realidade como um conjunto de relações, no qual os agentes e grupos de agentes existem e subsistem na e pela diferença, ocupando nele posições relativas. Enquanto espaços de relações em movimento, os Campos apresentarem aos seus agentes a possibilidade de travarem uma luta, por meio da qual constroem processos visando à disputa pelo poder em seu interior (SOUSA, 2013, p.80).

As relações de poder dentro dos campos podem ser de cooperação/concorrência, aliança/conflito e, independentes das características dos agentes que as ocupam, a estrutura do campo é, segundo Bourdieu (1983): “um estado de relação de força entre agentes ou as instituições engajadas na luta ou, se preferimos, da distribuição do capital especifico que, acumulado no curso das lutas anteriores, orienta as estratégias ulteriores.” (BOURDIEU, 1983, p.90)

As relações entre os campos são mais complexas quanto maior for a complexidade da sociedade em questão; nesse sentido, os múltiplos campos podem ser diversos: político, científico, cultural, educacional, filosófico, artístico etc.

Os vários campos segundo Sousa (2013) são “dotados de uma dinâmica própria e uma especificidade, e estruturam a ação dos agentes” (SOUSA, 2013, p.80).

Segundo Sousa:

Mesmo possuindo características especificas, os campos não se comportam de forma estanque, propriedade que permite aos agentes certa mobilidade de transitar entre os vários recortes da realidade social. Nesse sentido, o campo é dinâmico e continuo, ainda que isso varie, de acordo com os momentos de uma mesma configuração social e de sociedade para sociedade, quando contrastadas umas com as outras (SOUSA, 2013, p.81).

Dado o que foi exposto, pode-se definir a noção de campo de Bourdieu como um espaço social dotado de estrutura própria, com certa autonomia em relação a outros campos sociais, possuindo objetivos específicos que lhe garantem uma lógica própria e um funcionamento da mesma natureza.

Buscar a gênese de formação histórica do ANDES-SN facilita a compreensão de sua posição recente no que se refere ao trabalho docente na educação a distância. Torna mais nítido o entendimento de sua visão no que concerne a quase ausência do tema da educação a distância em seus documentos de 2005 a 2013.

Desse modo, as outras reivindicações dentro da estrutura do sindicato são temas que aparecem de forma mais recorrente, ficando o debate sobre EAD relegado a um segundo plano.

O ano de 2012 merece um destaque por ter sido o ano da greve nacional dos docentes das universidades públicas federais; o conceito de campo de Pierre Bourdieu facilita a compreensão da posição hierárquica nas pautas do sindicato no que se refere ao trabalho docente no ensino público superior no campo da educação a distância. Nessas pautas, essa modalidade de educação aparecia e ainda aparece como algo a ser combatido pelo sindicato. No entanto, no último Congresso do ANDES-SN de número 34º realizado em 2015, houve uma mudança no tom do discurso sobre EAD no sentido de uma maior atenção e uma abertura ao diálogo sobre essa modalidade de educação7, pois uma EAD crítica pode ser um caminho para a democratização do acesso à educação em universidades públicas brasileiras.

7 Ver o artigo: Habitus Professoral na sala de aula virtual, de Alexandre Marinho Pimenta e Carlos Lopes, que contribui para compreensão dos conceitos de Bourdieu, a noção de Ideologia e Educação a Distância.