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EDUCAÇÃO E ESCRITA CRIATIVA

2.7 O conceito de catarse

A catarse que se busca aqui elucidar trata-se de um momento de apropriação, pela consciência, de algo que se buscava objetivamente. Nas palavras de Rollo May (1992, p. 125) “uma sensação de regozijo – ou talvez seja melhor dizer de êxtase brando – ao encontrar a forma exigida pela obra criada”. No caso da escrita, a catarse seria o momento da transformação das idéias da vivência do adolescente, em um texto próprio, que lhe permita sentir um salto de qualidade na apresentação dessas idéias por meio da escrita.

Para Duarte, (1996, p. 70) “O que caracteriza o momento catártico é justamente o fato de se instaurar uma diferença qualitativa entre o antes e o depois”. Para o autor, a catarse apresenta intensidade e conteúdo distintos, na medida em que são distintas as relações entre o indivíduo e as objetivações do gênero humano.

O autor considera que “é raro que a catarse seja tão intensa que modifique toda a vida do indivíduo. É mais comum que ela seja apenas um pequeno e específico salto em algum processo de relacionamento entre o indivíduo e alguma objetivação” (Ibidem, p. 70). Para o autor, é necessário

[...] destacar dois aspectos interessantes dessa acepção do momento catártico. Em primeiro lugar, trata-se de um momento de apropriação, pela consciência, de uma força existente objetivamente. Esta força transforma-se, de uma força externa e estranha ao homem, numa força do homem, numa força que ele emprega na modificação da própria realidade objetiva. Em segundo lugar, trata-se de um processo no qual o homem deixa de se relacionar espontânea e passivamente com essa força objetiva e passa a se relacionar conscientemente com ela, isto é, estabelece uma relação intencional com essa força [...] (DUARTE, 1996, p. 71).

A catarse é, portanto, um momento do processo educativo escolar e caracteriza-se como o momento no qual ocorre “a efetiva incorporação dos instrumentos culturais, transformados agora em elementos ativos de transformação social” (SAVIANI, apud DUARTE, 1996, p. 71).

Para o autor, não é um momento isolado, mas parte do processo educativo e se, por um lado, tem um componente afetivo bastante acentuado, “por outro lado é preciso ter clareza que não é a presença de forte emotividade que caracteriza necessariamente a existência do momento catártico” (DUARTE, 1996, p. 72). Além disso, no processo educativo, para o autor, o aspecto afetivo está intimamente dependente do processo intelectual. “[...] a verdadeira e consistente vivência emocional no processo educativo depende da efetiva apropriação dos instrumentos culturais[...]” (Ibidem, p. 72). Aponta para a catarse no processo educativo como um momento de apropriação de objetivações, um salto qualitativo na consciência do educando,

[...] um aspecto importante da catarse no processo educativo é o fato de que a relação do indivíduo com a prática social altera-se pela mediação da apropriação das objetivações genéricas [...] sem a compreensão dessas mediações, o educador não consegue conduzir a apropriação do conhecimento de forma que ela se constitua em verdadeiro salto qualitativo da consciência do indivíduo educando. (DUARTE, 1996, p. 73)

Como se pode ver, o autor considera imprescindível que os professores possuam a compreensão da importância de sua mediação, já que cabe à educação escolar o papel mediador que se constitui em um dos momentos decisivos na formação do aluno.

Em seu livro “Psicologia da Arte”, Vigotski analisa a emoção estética como um processo catártico inconsciente. Entretanto, antes de ser apresentada a concepção de catarse para esse autor, esse conceito será explorado em outras fontes. O dicionário de filosofia de Abbagnano destaca que Aristóteles usou o termo “no seu significado médico, nos escritos de história natural, como purificação ou purgação, mas foi o primeiro que o entendeu para designar também um fenômeno estético” (ABBAGNANO, 1982, p. 113). O autor afirma que, na cultura moderna, o termo tem sido usado quase que exclusivamente na sua referência à função libertadora da arte.

Versão semelhante é apontada pelos autores do Vocabulário da Psicanálise, quando explicam que “o termo catharsis é uma palavra grega que significa purificação, purgação. Foi utilizado por Aristóteles para designar o efeito produzido no espectador pela tragédia”. Os autores acentuam que a tragédia é a imitação de uma “ação virtuosa e realizada que, por meio

do temor e da piedade, suscita a purificação de certas paixões”. (LAPLANCHE; PONTALIS, 1977, p. 95).

Em Vigotski são encontrados apontamentos que citam a opinião de Sócrates, reproduzida por Platão que a meta de um mesmo homem deve ser escrever tragédias e comédias já que a contraposição dos sentimentos parece própria da impressão estética. Para ele,

[...] toda obra de arte – fábula, novela, tragédia – encerra forçosamente uma contradição emocional, suscita séries de sentimentos opostos entre si e provoca seu curto-circuito e destruição. A isto podemos chamar o verdadeiro efeito da obra de arte, e com isto nos aproximamos em cheio do conceito de catarse. (VIGOTSKY, 1998 a, p. 269).

Qualquer que seja a interpretação dessa enigmática palavra catarse, afirma, nunca se saberá se ela corresponde ao conteúdo que lhe atribuía Aristóteles. Entende a catarse como o efeito moral da tragédia, como a conversão das paixões em inclinações virtuosas, como passagem do desprazer para o prazer, como cura e purificação no sentido médico ou, ainda, como uma tranquilização da emoção. Acima de tudo, supõe que “nenhum outro termo dentre os empregados até agora na psicologia, traduz com tanta plenitude e clareza o fato, central para a reação estética, de que as emoções angustiantes e desagradáveis são submetidas à certa descarga, à sua destruição e transformação em contrários, e de que a reação estética como tal se reduz, no fundo, a essa catarse, ou seja, à complexa transformação dos sentimentos”. (Ibidem, p. 270).

Para Vigotski, portanto, quando a reação estética se reduz à catarse, experimenta-se uma complexa transmutação de sentimentos e, ao invés de emoções angustiantes, tem-se a sensação elevada de alento. Para ele, toda obra de arte implica uma divergência interior entre a forma e o conteúdo e, por meio da forma, o artista consegue o efeito de apagar o conteúdo. O autor, assim, resume as suas considerações:

[...] a base da reação estética são as emoções suscitadas pela arte e por nós vivenciadas com toda realidade e força, mas encontram a sua descarga naquela atividade da fantasia que sempre requer de nós a percepção da arte[...´] Sua peculiaridade imediata consiste em que, ao nos suscitar emoções voltadas para sentidos opostos, só pelo princípio da antítese retém a expressão motora das emoções e, ao pôr em choque impulsos contrários, destrói as emoções do conteúdo, as emoções da forma, acarretando a explosão e a descarga da energia nervosa. (Ibidem, p. 272).

Essa reação estética, que surge das emoções suscitadas pela arte, compreendida pelo conceito de catarse acima descrito nas citações de Vigotski, deve ser aplicada aqui ao presente objeto de estudo, que é a escrita criativa, especialmente nesse período denominado adolescência. Entende-se que a escrita criativa realizada pelo aluno é o produto do conhecimento sobre as relações sociais que se manifestam na linguagem, como o momento de organização que revela o pensamento e a consciência e essa

[...] linguagem, praticada socialmente, numa atividade pedagógica na qual participam alunos e professor envolve a interação entre os sujeitos e o objeto do conhecimento como ponto de partida, constituindo-se na produção do texto da criança como momento catártico de apropriação do saber (AFONSO, 1996, p. 71).

A produção dos textos escritos pelo aluno constitui-se, portanto, em uma ferramenta cultural, um instrumento que lhe tornará possível apropriar-se do conhecimento cultural e socialmente desenvolvido pela humanidade, não somente o reproduzindo, mas também o criando a partir de sua compreensão. O adolescente Ele criará seu próprio texto, imprimindo a ele as suas apropriações, a forma como apreendeu aquelas idéias, aqueles conhecimentos. Isso representa um salto de qualidade em sua consciência, como já foi dito anteriormente, citando Duarte, o momento em que se instaura uma diferença qualitativa entre a sua escrita de antes e de depois.