O conceito de commons tem sido discutido em várias áreas como a do Direito, Economia, Sociologia, Artes e das Tecnologias da Informação e Comunicação – TICs, por representar uma nova forma de produção cultural e científica embasada em um viés sócio- econômico. É o que defende Benkler e Nissenbaum (2006, p.394) ao definir a produção em pares baseada em commons como sendo um “sistema sócio-econômico de produção que está emergindo no ambiente de rede digital”52.
De forma simples, Silveira (2007, p.1) traduz e esclarece o significado do termo
commons, tão utilizado em se tratando de colaboração e também da produção no ciberespaço:
52 Original: “COMMONS-BASED peer production […] socio-economic system of production that is emerging
Commons pode ser traduzido como comum, produção comum ou como espaço
comum. Seu significado também comporta a noção de público em oposição ao que é privado. Seu uso evoca ainda a idéia de algo que é feito por todos ou por coletivos e comunidades. Os commons pretendem expressar recursos que são comuns. Bens públicos são commons.
Também com o intuito de apresentar um termo em português para o que se tem discutido e estudado sobre commons, Simon e Vieira (2008) apresentam o termo rossio, que teria o mesmo sentido daquele termo em inglês, visto que é relativo a grandes espaços de uso
comum, como relatam sobre o que se fez uso chamar de commons ao decorrer da história,
principalmente na Inglaterra:
Tratava-se, em suma, de um tipo de propriedade coletiva ou compartilhada — muito distinta da propriedade privada. Ao contrário do que ocorre na propriedade privada da terra, não havia um indivíduo com a prerrogativa de comercializar as terras de um
rossio, ou de autorizar ou impedir seu uso por um terceiro da comunidade. O uso
estava sujeito a regras ligadas à equidade, à transparência e à garantia da sustentabilidade. No fim da Idade Média, as terras comuns inglesas foram progressivamente privatizadas, no fenômeno que veio a ser chamado de enclosure (cercamento ou apropriação). Após esse período, no entanto, o termo commons continuou em uso para referir-se a outros bens comuns, tais como: ruas, estradas, ar, oceanos, e o meio ambiente em geral. […] afirmamos que um rossio é um conjunto de recursos utilizados em comum e equitativamente por uma determinada comunidade. Não existem direitos individuais de exclusão no rossio (SIMON e VIEIRA, 2008, p.2).
A interpretação oferecida pelo conceito de rossio leva à compreensão do commons como um local que guarda um conjunto de recursos de uso comum, embora não consista propriamente em um lugar físico, pois o que interessa nesse caso são os recursos compartilhados nesse “lugar”. Adiante, serão apresentados os diferentes tipos de recursos que podem estar contidos no commons e que ajudarão a classificá-los e então traçar uma separação do commons de uma natureza exclusivamente física e tangível.
Decorrente da natureza dos recursos que o compõe, pode-se considerar atrelado ao conceito de rossio ou ao commons, o conceito de bens rivais e não-rivais. Sendo os recursos
rivais aqueles que estão envolvidos em competições para o seu uso. Dessa forma, recursos rivais, normalmente, se referem a recursos físicos e formam o commons clássico. Já os bens não-rivais, em contraponto, seriam aqueles que podem ser utilizados sem que haja uma
competição ou quaisquer tipos de bloqueios ou impedimentos para o uso dos mesmos. Logo, se pode associar a ideia de recursos não-rivais ao que é imaterial ou intangível. Levando-se em conta estes bens não-rivais, pode-se, portanto, admitir a existência do commons de
conhecimento ou intelectual (SIMON e VIEIRA, 2007; 2008).
Como exemplo de commons de conhecimento ou intelectual, Simon e Viera (2008) citam a língua portuguesa, que apresenta recursos que são usados por todos os habitantes do Brasil e com os quais se podem fazer uso mútuo e personalizado. Outro exemplo apresentado por Simon e Viera (2007) são as obras em domínio público. Nesse rossio, pode-se encontrar diversos tipos de produção cultural que podem ser utilizados livremente. De fato, o uso livre de recursos é uma característica marcante para se considerar estes 'acervos' como o que se entende por commons, o qual é marcado pela autogestão e pela presença, em alguns casos, de algumas normas e regulamentações, que são necessárias para a boa utilização de seus recursos.
Já no âmbito das tecnologias da comunicação e da informação, tais tecnologias digitais ajudam no armazenamento, no processamento e na distribuição em rede dos bens
não-rivais, formando assim, a partir da reconfiguração do commons intelectual, um commons digital. Este também é caracterizado por ter um maior potencial político no que se refere ao
discurso sobre sua governança (autogestão) e no modo de utilizar o seu conteúdo para debates pela esfera pública (SIMON e VIEIRA, 2008).
Para Silveira (2008), o principal aspecto da interconexão sofrida pela esfera pública frente a digitalização dos meios de comunicação é o aumento da sua democratização e da criação de fluxos multidirecionais, ao contrário do que apresentava a mídia de massa e seu controle sobre o agendamento dos conteúdos e mesmo a formação de oligopólios. As TICs e os rossios digitais que estas tecnologias manipulam podem assim fornecer embasamento e outros recursos (mediação, propagação, etc.) para os debates de repercussão social e generalizada no ciberespaço, além de recursos para a produção de obras derivadas.
Um diferencial do commons digital em relação a outros também intelectuais é ser fomentado por tecnologias que tendem a incentivar o seu crescimento com a colaboração dos usuários, bem como o seu largo alcance decorrente da conectividade. Tudo isso facilitado pela digitalização das mídias, por sua interconexão e, atualmente, pelas tecnologias da Web 2.0, que ajudam a formar o que Simon e Vieira (2007) apresentaram como bens anti-rivais. Ou seja, produtos do commons que incentivam a sua utilização e contribuição pelo usuário, tornando-se assim mais sustentável e emergente.
Portanto, atualmente, é possível ter rossios onde os bens não são apenas não-rivais, mas também anti-rivais, pois são utilizados por todos os usuários das redes digitais, mesmo
que possuam termos de uso estabelecendo, previamente normas e práticas para o ambiente de compartilhamento que gerencia tais rossios. A disponibilização, salvo algumas questões de autoria e consentimento de uso de produtos culturais e intelectuais em uma aplicação web, gera um commons intelectual digital que garante acesso e uso desses bens (informações, conhecimentos, obras científicas, culturais, etc.), que podem ser consumidos por qualquer usuário da aplicação.
Trabalhando principalmente com o senso de propriedade e liberdade, Benkler (2006, p.60) apresenta uma divisão do commons em quatro tipos, agrupados aos pares dicotômicos por dois parâmetros (abertura e regulação), que resumem alguns dos pontos apresentados até aqui, como o mostrado na Tabela 01:
TABELA 01: Divisão do commons e alguns exemplos Divisão do Commons
Parâmetro Tipo Exemplos
Abertura Abertos Oceanos, estradas e o ar.
Abertos apenas para um grupo de
pessoas – acesso limitado Alguns pastos e sistemas de irrigação na Europa.
Regulação Regulamentado Commons de acesso limitado,
estradas, etc.
Não regulamentado Alguns commons abertos como os oceanos e o ar.
Fonte: BENKLER, 2006
O sentido de conjunto de recursos de uso comum também foi adotado como entendimento do que seria um commons, que pode ser interpretado também como um acervo de bens intangíveis e não-rivais no contexto da cibercultura. Logo, o que este trabalho sugere é que a união de esforços para criação de acervos pessoais que se interligam, sendo geridos por aplicações Web 2.0, pode ser interpretada como a formação colaborativa de um rossio mediado por tecnologias digitais da comunicação e informação.
Logo, percebe-se que o termo commons não precisa ser traduzido, pois é dotado de significados, inclusive históricos, que ajudam na sua compreensão e que implicam em uma discussão totalmente conveniente aos aspectos comunicacionais e culturais da cibercultura. Um conjunto de conceitos estão atrelados ao de commons, que o ajudam a compor a ideia que o termo transmite. Ciente disso, adotou-se, neste trabalho, como sinônimos os termos 'commons', 'rossio', 'bens comuns' e 'comum' e seu emprego nas expressões 'produção baseada
em commons', 'produção baseado em bens comuns' ou ainda 'produção baseada em colaboração', em certos casos. Tal produção será ainda explorada na próxima seção.