Na enfermagem, o uso do conceito de conforto foi encontrado no histórico livro de Florence Nightingale “Notas de Enfermagem” (1859), evidenciando que esta autora já reconhecia o conforto como essencial para os clientes. Naquela época, o diagnóstico de enfermagem tinha foco no “conforto alterado”, considerando especificamente: dor, náusea e vômito e coceira32
No início do século 20, o termo foi utilizado de forma geral. Em 1908, por exemplo, Aikens apud Kolcaba destacou que nada relacionado ao conforto do paciente é pequeno o suficiente para ser ignorado. Uma boa enfermeira é aquela que torna os pacientes confortáveis, sendo a promoção do conforto o fator principal para determinar a habilidade da enfermeira.
Percebe-se que, naquela época, o conforto do cliente já era altamente valorizado pelas enfermeiras, que consideravam isto como a sua principal missão. Isso porque o mesmo ampliava a possibilidade de cura, sendo resultado de intervenções de ordem física, emocional e ambiental, além de outras específicas realizadas sob autoridade do médico, como uso de cataplasmas, aplicação de calor e posicionamento no leito32.
O significado e a importância do conforto passaram por mudanças consideráveis, tendo em vista a evolução dos cuidados com a saúde. Do seu significado geral, o conforto tinha um valor significativo para a enfermagem no início do século, passando para um valor menos importante e com uma conotação mais específica ao sentido físico. Para exemplificar, em 1950, com a maior popularidade dos analgésicos para controle da dor, poucos tratamentos para a promoção do conforto foram descritos. Naquela época, apesar de as enfermeiras ainda não poderem falar com os seus pacientes sobre suas condições, tomaram para si maior responsabilidade em relação aos sentimentos dos mesmos32.
Na década de 70, as enfermeiras adquiriram maior autonomia e puderam implementar medidas de conforto sem as ordens médicas. No entanto, a motivação para melhorar o conforto diminuiu. Com a intensificação da tecnologia dura, muitas medidas de conforto tradicionais foram consideradas simples e relegados a menor importância, sendo então implementados por pessoal de apoio. O conforto não era mais considerado um foco da enfermagem especializada, nem incluído nas definições de cuidados especializados. Assim, qualquer pessoa poderia proporcionar conforto. O termo ainda estava indefinido na disciplina e semânticamente diversificado, com interpretação restrita, escrito raramente, e, claro, não mensurado32.
Na década de 80, ocorreram muitos avanços na medicina e a cura tornou-se mais provável através da cirurgia, dos antibióticos, da radiação e da quimioterapia. Narcóticos passaram a ser usados para a dor severa. Assim, o conforto tornou-se uma estratégia secundária em relação ao propósito de cura. Descrições de conforto em enfermagem eram limitadas, referindo-se principalmente ao estado físico do indivíduo. Nessa época, a importância do conforto da família começou a surgir, sendo esta considerada como legítima destinatária dos cuidados e medidas de conforto32.
Destaca-se que nessa década a promoção do autocuidado e do conforto era considerada uma meta menor. O conforto era o principal objetivo de enfermagem apenas quando os clientes estavam em fase terminal, havendo reversão da meta da enfermagem para conforto quando não havia mais a possibilidade de cura32.
A conexão na literatura de enfermagem entre o conforto da pessoa e do seu bem-estar para a reabilitação foi sutil, mas constante ao longo da história da enfermagem32.
De acordo com Kolcaba, as sementes da Teoria do conforto foram plantadas no início da década de 80 em isolamento aparente, mas coletivamente permitiu uma compreensão mais profunda, além de crescimento teórico. Segundo ela, dez anos depois tal conceito na área de enfermagem foi ampliado e promovido em novas formas32.
A revisão que mais tarde apoiou e influenciou o trabalho de Kolcaba começa em 1982, quando Janet Morse despertou a atenção da enfermagem contemporânea em relação ao conforto, e termina com 1992, quando Kolcaba operacionaliza o conceito. Além de Janet Morse, Kocalba refere que contou com a contribuição de Benner; Rankin-Box; Donahue; Arrington and Walborn; Andrews and Chrzanowki; Hamilton; Gopper; a enfermeira brasileira Neves-Arruda, Larson, and Afaf Meleis32.
Conceituando o conforto
A existência de necessidades de conforto não atendidas pressupõe a necessidade de intervenção para maximizar o conforto, ratificando a relação entre conforto e cuidado, e a preocupação em estabelecer medidas de conforto como sinônimo de intervenção de enfermagem10.
A tecnologia para o atendimento ao cliente com dermatoses imunobolhosas proposta neste estudo visa o seu conforto/bem-estar, o que traduz sua qualidade de vida no seu próprio conceito. Neste sentido, ressalte-se a análise conceptual do termo conforto, realizado por Kolcaba10,32-33.
Para Kolcaba, conforto e cuidados de conforto são conceitos complexos, individuais e holísticos, trata-se de um estado desejável para nossos clientes, representando uma condição individual, relaxada, saudável e pacífica32.
Para analisar o conceito de conforto, seu marido, especializado em epistemologia aconselhou que Kolcaba realizasse uma busca para encontrar as diferentes maneiras que o conceito de conforto é utilizado, não somente na enfermagem, como também em outras disciplinas. Em
relação à enfermagem, esta autora queria descobrir a época em que o conceito de conforto começou a ser utilizado e se o era de forma holística32.
O conforto pode ser considerado uma sensação de relaxamento experimentado no corpo seguido de bem-estar físico, psicoespiritual e social – proporcionado pelo cuidado de enfermagem34:109.
Kolcaba define conforto como uma experiência imediata de ter atendidas as necessidades humanas básicas, possuindo três sentidos técnicos: relief - alívio (o estado de ter um desconforto específico aliviado), Easy - calma (estado de tranqüilidade), e transcendence - transcendência (o estado no qual alguém está acima dos problemas ou dor)10,32,33. Para ela, as necessidades de conforto podem ser experenciadas em quatro contextos: físico, psicoespiritual; ambiental e sociocultural, conforme se descreve a seguir 10,32,33.
Conforto físico
Relacionado às sensações do corpo, Kolcaba sabia que a dimensão fisiológica inerente aos fatores que afetam o estado físico do cliente, como descanso e relaxamento, nível de nutrição e hidratação e eliminação de resíduos era o contexto mais óbvio e consensual de conforto32.
Esta autora cita que esta dimensão ampla do conforto físico foi reforçado pela introspecção de seu próprio conforto físico, além dos achados de enfermeiras escritoras como Joan Hamilton, Patricia Benner, e Donahue Marilyn. O trabalho destes estudiosos e de outros que desenvolvem a estrutura taxonomica, indicaram para ela que estava no caminho certo. O primeiro tema relacionava-se as necessidades de conforto no que diz respeito a doença, sendo o detrator mais prevalente o alívio da dor, entre outros fatores que contribuem para o conforto físico como a função intestinal regular, a prevenção ou tratamento de desconfortos relacionados com problemas médicos, entre outros32.
Os resultados de pesquisas desenvolvidas por Joan Hamington, apoioaram a visão de Kolcaba de que o conforto físico engloba todas as ramificações fisiológicas de problemas médicos, o que pode ou não resultar em sensações físicas imediatas. Exemplos de condições necessárias para o conforto físico, neste sentido amplo, são mecanismos hemostáticos tais como o equilíbrio hídrico e eletrolititico e bioquímica do sangue normal, saturação de oxigênio adequada, e outros indicadores metabólicos de saúde. Anormalidades em qualquer um desses mecanismos fisiológicos devem ser tratados (alívio) ou mantidos à distância (calma), a fim de manter o conforto físico32.
Uma visão adicional sobre o conforto físico veio da pesquisadora citada sobre posicionamento. Pois os sujeitos de pesquisa declararam que, sentar corretamente, ter liberdade para se movimentar, de forma independente, em suas cadeiras e ser capaz de voltar para a cama são condições fundamentais para o seu conforto. A definição de conforto físico a partir de Hamilton e posteriomente de outros escritores está relacionada "às sensações corporais e aos mecanismos homeostáticos que podem ou não estar relacionados a diagnósticos específicos"10,32-33.
Conforto psicoespiritual
O segundo tema de Hamilton sobre conforto foi relacionado a autoestima, incluindo a fé em Deus, ser independente, sentir-se relaxado, informado e útil, havendo uma mistura de conforto espiritual e psicológico - um dilema que Kolcaba encontrou em sua revisão de literatura sobre holismo, a partir da qual foi impossível diferenciar as experiências da mente daquelas do espírito e das emoções. As definições sobre espiritualidade eram amplas. Além disso, não haviam indicadores específicos para a transcendência. Por estas razões, Kolcaba combinou os contextos de conforto psicológico e espiritual, formando o contexto psicoespiritual, agregando os componentes mental, emocional e espiritual. A definição de conforto psicoespiritual refere-se à conscientização interna do eu, incluindo autoestima, autoconceito, sexualidade e significado na vida do indivíduo e ao seu relacionamento com uma ordem superior de ser10,32-33.
Conforto ambiental
Um ambiente adequado foi considerado importante para promoção da saúde e da cura pelos enfermeiros interessados em cuidar do cliente de forma holística. O conforto ambiental, atualmente é um aspecto-chave. A definição de conforto ambiental relaciona-se as condições e influências externas, ou seja, dizem respeito a fatores como ruído, cor, luz, temperatura, vista de janelas, acesso à natureza e aos elementos natural versus sintético10,32,33.
O conceito de conforto sociocultural refere-se as relações interpessoais, familiares e sociais, incluindo relações financeiras, educacionais e de apoio. A idéia de cultura foi adicionada, para incluir histórias familiares, tradições, língua, uso de roupas e costumes, aspectos considerados importantes e facilitadores para a equipe de saúde durante a internação hospitalar para aumentar o conforto social10,32,33.
A partir da compreensão do conforto como resultado dos cuidados de enfermagem têm-se as proposições da teoria que podem ser divididas em três momentos32.
No primeiro momento, o enfermeiro avalia o cliente de forma holística, integral, identificando às necessidades de conforto a partir dos quatro contextos. Paralelamente, implementa intervenções, avaliando o conforto proporcionado pelas mesmas32.
No segundo momento, as atividades que promovem conforto são intensificadas e o cliente é estimulado a desenvolver comportamentos para promoção do seu bem-estar e conforto. Esses comportamentos podem ser internos (cura, função imune...), externas (atividades de saúde), ou morte tranquila32.
O terceiro momento corresponde à integridade institucional, quando instituição e equipe de cuidados são preparadas para aperfeiçoar a qualidade dos serviços, o que resulta na satisfação do cliente, na redução de custos e de morbidade e reinternações, assim como melhores políticas e práticas de saúde32.