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2. VIVER COM UMA DOENÇA ONCOLÓGICA

2.2. O Processo adaptativo

2.2.1. O conceito de coping

Ao longo da sua vida o indivíduo é confrontado com múltiplos acontecimentos, problemas e situações mais ou menos difíceis, para as quais precisa de encontrar “estratégias de confronto” e “formas de lidar”.

Coping segundo Lazarus & Folkman (1984), tem como significado, esforços de lidar com as situações de dano [situações desagradáveis, como doença, morte, perda de status social, entre outros], ameaça [refere-se à antecipação daquilo que poderá acontecer], e desafio [quando o indivíduo confia na possibilidade de ultrapassar as dificuldades] (citados por Lisboa, Koller, Ribas et al, 2002).

No entanto coping são processos que as pessoas utilizam para lidar com situações, externas ou internas, que avaliam como excedendo os seus recursos. É um esforço de controlo ao stress, visando minimizar os aspectos adversos.

Coping, segundo o ICN (2002):

“…é um tipo de Adaptação com as seguintes características específicas: disposição para gerir o stress, que constitui um desafio aos recursos que o indivíduo tem para satisfazer as exigências da vida e padrões de papel auto protectores que o defendam contra ameaças subjacentes que são apercebidas como ameaçadoras de uma auto-estima positiva; acompanhado por um sentimento de controlo, diminuição do stress, verbalização da aceitação da situação, aumento do conforto psicológico”(p.54).

Lazarus e Folkman (1984) definem Coping como os esforços cognitivos e comportamentais, constantemente alteráveis que servem para controlar (vencer, tolerar ou reduzir) factores internos ou externos específicos e são avaliados como excedendo ou fatigando os recursos do indivíduo. O termo Coping não tem tradução para Português, pois não existem palavras equivalentes para definir este conceito (ex. “lidamento” ou “lidação”). A tradução por “enfrentamento” provoca confusão pois esta palavra implica uma acção direccionada a algum alvo, enquanto que a inacção pode ser apontada como uma estratégia de Coping comum em crianças.

Coping é concebido como o conjunto de estratégias utilizadas pelas pessoas para se adaptarem a circunstâncias adversas. Os esforços dispendidos pelos indivíduos para lidar com situações de stress crónicas ou agudas, têm constituído um objecto de estudo da psicologia social, clínica e da personalidade, encontrando-se ligados ao estudo das diferenças individuais.

Os desenvolvimentos recentes no campo do stress são em grande parte devidos ao trabalho pioneiro de cientistas como Hans Seyle, Thomas Holmes, Richard Rahe e Richard Lazarus.

O modelo de Seyle realça os componentes fisiológicos do stress, particularmente as tentativas do organismo para lidar com as fontes de stress, através das hormonas de adaptação. Os estudos de Rahe e Holmes concentram-se nos efeitos das alterações da vida durante a saúde e a doença. Lazarus centrou-se no papel do conhecimento e da avaliação do stress (Bolander, 1998).

Lazarus e Folkman (1984) desenvolvem um modelo que caracterizam como sendo cognitivo, motivacional e relacional (citado em Mendes, 2002):

ƒ Cognitivo – refere-se ao conhecimento e à avaliação acerca do que está a acontecer num meio em adaptação. O conhecimento constitui um leque de crenças, tanto situacionais como gerais. São crenças acerca de como o mundo funciona. A avaliação respeita o significado do que está a acontecer ao seu próprio bem-estar. Esta avaliação é essencial na produção das emoções porque relaciona aquilo que é próprio de cada indivíduo com um meio em mudança.

ƒ Motivacional – refere-se à hierarquização da importância dos objectivos do que fazemos em qualquer circunstância, à sua activação numa dada situação particular, transformando-os em comportamentos e gerando novos objectivos. O princípio motivacional indica-nos que as emoções são reacções avaliativas dos objectivos a toda a hora, em todos os aspectos da nossa vida.

ƒ Relacional – refere-se à aceitação metateórica de que as emoções são sempre acerca das relações da pessoa com o meio. Constitui o âmago deste modelo.

Lazarus e Folkman (1984) dois autores que se interessaram pela teorização e elaboração de escalas de coping, definiram o conceito de coping como o conjunto de esforços cognitivos e comportamentais destinados a controlar, reduzir ou tolerar as exigências internas ou externas que ameaçam ou excedem os recursos adaptativos de um indivíduo (citado por Odete Nunes, 1999).

Todavia, Lazarus e Folkman (1984) avaliam as funções de coping para as pessoas, e as formas pelas quais elas o utilizam. Ressaltam a diferença entre função e consequência do coping. A função diz respeito a propósito do que a estratégia serve; as consequências dizem respeito ao efeito produzido pela estratégia. Uma estratégia pode ter a função, por exemplo, de impedimento, mas a utilização dessa estratégia não resulta, necessariamente, que a situação ameaçadora seja evitada. Noutras palavras, as funções não são definidas em termos de consequências ainda que se possa esperar que determinadas funções venham a ter consequências determinadas (Savoia, 1999).

Na mesma linha de pensamento, segundo Savoia (1999), o coping tem duas funções, segundo a análise de Folkman e Lazarus (1985):

ƒ Modificar a relação entre a pessoa e o ambiente, controlando ou alterando o problema causador de “distress” (coping centrado no problema);

ƒ Adequar a resposta emocional ao problema (coping centrado na emoção).

Em geral, as formas de coping centradas na emoção são mais passíveis de ocorrer quando já houve uma avaliação de que nada pode ser feito para modificar as condições de dano, ameaça ou desafio ambientais. Formas de coping centrados no problema, por outro lado, são mais prováveis quando tais condições são avaliadas como fáceis de mudar (Savoia, 1999).

O coping centrado no problema e na emoção influenciam-se mutuamente em todas as situações de stress. As pessoas utilizam ambas as formas de coping, o que pode impedir ou facilitar a manifestação de uma ou outra forma. A forma pela qual uma pessoa usa o coping está determinada, em parte, por seus recursos, os quais incluem saúde e energia, crenças existenciais, habilidades de solução de problemas, habilidades sociais, suporte social e recursos materiais. O coping é também

determinado por variáveis que diminuem o uso dos recursos pessoais. Podem ser de natureza pessoal, incluindo valores e crenças culturais que prescrevem certas formas de deficits de comportamentos. Podem ser ambientais, incluindo demandas que competem com os recursos pessoais e/ou agências como instituições que impedem os esforços de coping (Savoia, 1999).

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