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CAPÍTULO 1. MÍDIA E IDENTIDADES

1.1 Comunicação e cultura

1.1.4 O conceito de hegemonia nos estudos culturais

O termo hegemonia deriva do grego eghestai e significa conduzir, guiar, liderar. Ou ainda, vem do verbo eghemoneu, que quer dizer estar à frente, comandar, ser o senhor. Por eghemonia os antigos gregos entendiam a "direção suprema do exército", ou seja, era um termo militar que denominava o chefe do exército. Ainda nas guerras do Peloponeso, a cidade que detinha a supremacia sobre as demais recebia o título de hegemônica (PAIVA, 2003, p. 10).

O conceito entrou na modernidade significando dominação através do consenso do dominado. Foi no início da revolução russa, em 1905, que Lênin usa o termo pela primeira vez: "(...) é quando se determina a função ativa do sujeito revolucionário, do partido, que então se compreende o fundamento da hegemonia" (WILLIAMS, 1979, p. 173). Da maneira como utilizava o conceito, a hegemonia vinha à tona quando, em uma situação de debilidade e de incapacidade dos dirigentes da burguesia, o proletariado, comandado por seu partido, poderia realizar sua função hegemônica.

Mas o argumento do pensador marxista Antônio Gramsci é o que propicia a compreensão do que significa a soberania de uma forma social. Sua idéia de hegemonia não apenas contempla o aspecto político, mas, também, e em igual medida, o caráter formativo da cultura. Esse conceito inclui o de cultura, o de ideologia e o de direção moral. Refere-se à sociedade como totalidade e não só ao seu plano político (Ibid., p. 174).

No entender de Gramsci (GRUPPI, 1978), a tarefa de toda a cultura, enquanto concepção de mundo, consiste em conservar a unidade ideológica de todo bloco social que é cimentado e unificado pela ideologia. A hegemonia é, então, a capacidade de unificar através da ideologia e de conservar unido um bloco social que não é homogêneo, mas marcado por profundas contradições de classe. É um conceito de grande amplitude, que opera não apenas sobre a estrutura econômica e a organização política da sociedade, mas, também, sobre o modo de pensar, sobre as orientações ideológicas e sobre o modo de conhecer. A hegemonia:

É todo um conjunto de práticas e expectativas, sobre a totalidade da vida: nossos sentidos e distribuição de energia, nossa percepção de nós mesmos e do mundo. É um sistema vivido de significados e valores – constitutivo e constituidor - que, ao serem experimentados como práticas, parecem confirmar-se reciprocamente (WILLIAMS, op. cit., p. 113).

A partir do conceito são "atualizados" os pressupostos do marxismo acerca da sociedade, relativizando os conceitos de base/superestrutura e também são retomados o tema

da cultura e suas relações com a sociedade de classes. Assim, para a conquista e manutenção da hegemonia, é preciso inserir-se no debate cultural, nas redes de significação e no terreno do simbólico. Este pensamento fornece "a moldura intelectual requerida para a compreensão do vórtice cultural em que estão envolvidos indivíduos e instituições - sobressaindo, entre elas, a mídia." (POLISTCHUK, 2003, p. 109).

A importância para os estudos de comunicação está no fato de diversos pesquisadores dessa área, nos anos 70, haverem adotado o marxismo estruturalista de Althusser como referencial teórico, compreendendo a ideologia estritamente como dominação e os meios de comunicação como aparelhos ideológicos que atuavam em função dos interesses dominantes. Suas abordagens se voltavam para as funções (negativas) da ideologia, entendida como falsa consciência, manutenção da coesão social, reprodução dos interesses da classe dominante e assim por diante.

Em seu trabalho, Althusser (1992) afirma que, para manter a dominação, a classe dominante gera mecanismos de perpetuação ou de reprodução das condições materiais, ideológicas e políticas de exploração. Aqui entra o Estado que, através de seus Aparelhos Repressores (ARE) - que funcionam massivamente pela repressão (inclusive física); e os Aparelhos Ideológicos (AIE) - onde prevalece a ação pela ideologia, intervém tanto pela repressão quanto pela ideologia, tentando fazer com que a classe dominada se submeta às relações e condições de exploração.

É a partir da década de 80 que as pesquisas de comunicação começaram a ter um caráter politizado, com forte influência gramsciana. A contribuição mais importante para o tema da cultura na sociedade de classes, dentro do paradigma chamado Culturológico, está na obra de Antônio Gramsci, que se apóia no binômio cultura hegemônica x cultura subalterna.

A teoria da hegemonia pressupunha, assim, a conquista da resistência, ou seja, na sociedade não há apenas a reprodução do sistema de dominação, mas, também, a resistência a ele. O que quer dizer é que não há um confronto bipolar entre diferentes culturas - negros e brancos, por exemplo - mas o que acontece é um jogo, um intercâmbio entre elas.

Quando partimos dos pressupostos teórico-metodológicos dos estudos culturais, é no espaço da recepção que identificamos os deslocamentos conceituais como as idéias de hegemonia. O conceito gramsciano é um ponto de partida no entendimento de que o sentido não é imposto, mas negociado.

Assim, Gramsci é quem delineia os parâmetros para uma pesquisa de recepção, tendo introduzido o conceito de hegemonia em âmbito filosófico e também político. A hegemonia está presente no cotidiano das pessoas, verificando-se igualmente na cultura.

As ações hegemônicas, no entanto, não são tão uniformes quanto possam parecer, tendo também a capacidade de se apropriar de traços de outras culturas: populares, locais ou alternativas. "A cultura hegemônica acaba incorporando os traços dessas outras culturas. Esse processo de assimilação é um dos responsáveis pela constante identificação que os produtos das indústrias culturais obtêm junto ao público" (BRITTOS, 2006, p. 6).

Uma das premissas básicas da perspectiva dos estudos culturais é a necessidade de se analisar a cultura no âmbito das relações de poder e não como uma esfera que se limita a refletir as determinações do âmbito econômico, constituindo, portanto, um espaço de negociação, inovação e resistência. Tanto Hall quanto Williams, ao discutirem o conceito de cultura, afastam-se do pressuposto que a considera um reflexo das relações materiais de uma ordem social. É a questão do cultural que surge como central. Gramsci (apud GRUPPI, 1978) ressalta que o campo cultural é tão importante quanto o econômico e o político, porque é nele que os debates ideológicos são comumente travados.

Além disso, as diferentes culturas "não são vistas como exteriores de si, mas comportando cruzamentos, transações e intersecções" (ESCOSTEGUY, 1999, p. 149). Em alguns momentos, é a cultura subalterna que resiste à hegemônica e, em outros, reproduz as concepções das classes hegemônicas. Brittos (2006, p. 6) argumenta que a hegemonia é criada e recriada no jogo das mediações:

Isto porque o conceito de hegemonia prevê resistências, admitindo acertos e desacertos típicos do processo de recepção. Sendo assim, hegemonia é um conceito que, no seu interior, já prevê o receptor como ativo. Do contrário, não admitiria a possibilidade de resistência do receptor e, portanto, a necessidade de seduzi-lo. Por este motivo que a proposta de hegemonia não confere poderes exclusivos à classe dominante.

A adesão dos receptores à cultura hegemônica, como no caso do nosso objeto midiático - a programação televisiva - não é automática, precisa ser ativada, num jogo que passa, necessariamente, pelas mediações. García Canclini (1991, p.6) explica que muitos estudos sobre comunicação têm mostrado que a hegemonia cultural não se realiza mediante ações verticais em que os dominadores prendem os receptores, porque entre eles há as mediações.

É através deste conceito que conseguimos entender o porquê de os entrevistados continuarem a consumir programas televisivos que os submetem a uma "posição inferiorizada". Acreditamos que, pelos discursos televisivos, os entrevistados se projetem nas angústias e nos desejos despertados pela ação do meio, deixando-se seduzir pelas representações sociais proposta.

A apropriação do conceito de hegemonia, entendido como um processo vivido pelos sujeitos sociais, contribuiu para os estudos culturais considerarem que na sociedade não há apenas a reprodução do sistema de dominação, o que possibilitou uma visão mais dinâmica dos processos sociais e do papel dos meios de comunicação, que podem produzir e congregar forças de resistência contrárias à ideologia dominante.

Tomando o ponto de vista de Stuart Hall, através do seu conceito de hegemonia, podemos compreender a dinâmica das relações sociais, possibilitando analisar em que medida esses espaços “ganhos” para as diferenças constituem “estratégias que podem fazer alguma diferença e que podem mudar as disposições do poder”. Hall afirma, ainda, que esses espaços são limitados, regulados e policiados, e o que substitui "a invisibilidade é uma espécie de visibilidade cuidadosamente regulada e segregada"(2003, p. 339).

Martín-Barbero (2003, p. 116) levanta a questão da hegemonia indicando o interesse que as ciências sociais críticas têm pela obra de Gramsci, possibilitando pensar o processo de dominação social:

(...) já não como imposição a partir de um exterior e sem sujeitos, mas como um processo no qual uma classe hegemoniza, na medida em que representa interesses que, também reconhecem, de alguma maneira como seus, as classes subalternas. E “na medida" significa aqui que não há hegemonia, mas sim que ela faz e se desfaz, se refaz permanente num processo “vivido”, feito não só de força mas também de sentido, de apropriação do sentido pelo poder, de sedução e de cumplicidade.

Para Paiva (2002, p. 11), "a partir do entendimento do significado e da aplicação do conceito de hegemonia, torna-se possível a compreensão das formas reguladoras, de forças coercitivas e de estruturas de dependência". Essas formas teriam tendência a enfrentar a força dominante e, nas disputas, teriam a chance de empreender conquistas e vitórias.

Nos estudos de comunicação, portanto, este conceito contribui para um afastamento da interpretação dos processos de comunicação exclusivamente como dominação e reprodução, uma vez que a hegemonia é sempre um processo e não existe apenas passivamente como forma de dominação.

Por sempre ser renovada, a hegemonia possibilita compreender o processo social como um espaço de lutas, sujeito a transformações, interferências e pressões. Com a contribuição gramsciana, os resultados das lutas pelo poder são fluidos e nunca pré-determinados. Neste sentido, Williams identifica a complexa combinação de forças sociais e culturais ativas na sociedade, ressaltando a cultura como espaço dialógico, tanto de rejeição quanto de inclusão, deslocando-a do âmbito puramente ideológico.