3 DISCURSO, IDEOLOGIA E CULTURA
3.2 O CONCEITO DE IDEOLOGIA
Ao longo da história, a definição de ideologia foi sendo cada vez mais estudada e sofrendo alterações. Löwy (2010) afirma que é um conceito complexo, cheio de significados, acumulado de contradições, paradoxos, arbitrariedades, ambiguidades, equívocos e mal entendidos. Chauí (2008) assinala que o termo surgiu com os estudos de Destutt no início do séc. XIX, na intenção de elaboração de uma gênese das ideias, tratando-as como fenômenos naturais. Ao longo do tempo, o termo ganhou diversas definições, e, inclusive um caráter pejorativo. Löwy (2010) aponta que para Marx, ideologia também é um conceito pejorativo, em razão de implicar ilusão. A ideologia se refere “à consciência deformada da realidade que se dá através da ideologia dominante: as idéias das classes dominantes são as ideologias dominantes na sociedade” (LÖWY, 2010, p. 12).
De acordo com Chauí (2008) é em um pensamento historicamente determinado pelo contexto alemão que Marx, ao procurar determinar a ideologia alemã, acaba por determinar o conceito de ideologia de maneira geral, tendo em vista que “a produção das ideias e as condições sociais e histórias nas quais são produzidas não se separam” (CHAUÍ, 2008, p. 34). Tal característica é concebida como materialismo histórico-dialético.
Para Löwy (2010), no método dialético nada é fixo ou absoluto, mas está em constante movimento e transformação. Desse modo, para “Marx, aplicando o método dialético, todos os fenômenos econômicos ou sociais, todas as chamadas leis da economia e da sociedade, são produto da ação humana e, portanto, podem ser transformados por essa ação” (LÖWY, 2010, p. 15). A concepção de dialética, em Marx, parte do princípio do movimento interno de produção da realidade cujo motor é a contradição. A contradição, neste caso, é compreendida como o que “se estabelece entre homens reais em condições históricas e sociais reais e chama- se luta de classes” (CHAUÍ, 2008, p. 47).
Löwy (2010, p.15) elucida que a dialética aplicada no terreno social, “toma forma de historicismo, isto é, de afirmação da historicidade de todas as instituições, estruturas, leis e formas de vida social”. Assim, o termo histórico vem da concepção de que a história é o modo real como os homens produzem suas condições reais de existência, e sendo a história realidade, ela é, por tanto, reflexiva.
O conceito materialista advém do conceito de matéria social, compreendido como as relações de produção, em outras palavras “como o modo pelo qual os homens produzem e reproduzem suas condições materiais de existência e o modo como pensam e interpretam essas relações” (CHAUÍ, 2008, p. 52). A matéria social, portanto, é produto das classes sociais em luta. As classes sociais são relações sociais que se determinam pela forma como os homens se dividem no trabalho e no seio social, pela forma como
[...] reproduzem e legitimam aquela divisão e aquelas formas por meio das instituições sociais e políticas, [e como] representam para si mesmos o significado dessas instituições através de sistemas determinados de idéias [sic] que exprimem e escondem o significado real de suas relações (CHAUÍ, 2008, p. 52).
A dialética materialista segundo Marx é fomentada pelas condições de produção e reprodução da existência social dos homens, pela luta de classes. Assim, Marx e Engels “determinam o momento de surgimento das ideologias no instante em que a divisão social do trabalho depara trabalho material ou manual de trabalho intelectual” (CHAUÍ, 2008, p. 58). A concepção marxista de ideologia está intimamente ligada às divisões sociais de trabalho, que constituem a história por meio de suas transformações.
Em uma concepção marxista do termo, Chauí (2008, p. 39) define ideologia como “instrumento de dominação de classe e, como tal, sua origem é a existência da divisão da sociedade em classes contraditórias e em luta”. Assim, a ideologia adquire a alcunha de “ser o instrumento encarregado de ocultar as divisões sociais, [...] e transformar as idéias particulares da classe dominante em idéias universais, válidas igualmente para toda a sociedade” (CHAUÍ, 2008, p. 40). A ideologia está intrínseca ao discurso comum a todos que permeiam um mesmo convívio social. Ela se constitui em instrumento de dominação, de forma a “mascarar” a verdade e, de certa forma, se tornar a própria verdade, vez que refrata uma realidade. Isso ocorre, também, pelo fato da classe dominante tornar suas ideias a ideia de todos, pois a ideologia tem o poder de legitimar a dominação social, econômica e política, pois ela cria na mente das pessoas uma ideia de que todo fenômeno social que acontece é natural.
Thompson (2011) procura elaborar um novo conceito a respeito da ideologia, uma concepção interessada nas “maneiras como as formas simbólicas se entrecruzam com relações de poder, como o sentido é mobilizado no mundo social, e serve, por isso, para reforçar pessoas e grupos que ocupam posições de poder” (THOMPSON, 2011, p. 75-76). Há, portanto, modos em que o sentido produzido pela ideologia pode servir para estabelecer, sustentar e manter relações de poder e dominação. O autor elenca alguns modos pelos quais a ideologia opera como estratégia de construção simbólica e de manutenção do poder, quais sejam: legitimação, dissimulação, unificação, fragmentação e reificação, cada um desses modos está relacionado à diferentes estratégias41 discursivas típicas de construção simbólica.
“O exame das estratégias típicas de construção simbólica pode alertar-nos para algumas das maneiras como o sentido pode ser mobilizado no mundo social e como pode delimitar um raio de possibilidades para a operação da ideologia” (THOMPSON, 2011, p. 82).
As questões do poder tem relação com a luta de classe proposta no conceito marxista, concepção que considera haver uma classe dominante que detém o poder. Desta forma, o conceito de ideologia, não se estagnou apenas na forma como Marx a concebeu, mas teve sua trajetória seguida no marxismo posterior a Marx. Fiorin (1998) aponta que em uma formação social, há dois níveis de realidade: um de essência, não-visível, e um de aparência, fenomênico. Adotando a análise marxista do salário como exemplo, o salário paga o trabalho e não a mão de obra, o tempo depreendido. Dessa forma, aparentemente, há uma troca igualitária. Entretanto, ao nível do profundo, da essência, há relações de exploração. “O que aparece como relações entre indivíduos, é, ao nível da essência, uma relação entre classes sociais” (FIORIN, 1998, p. 27).
O nível fenomênico da realidade permite que sejam construídas as ideias dominantes numa dada formação social, as quais justificam a própria realidade. Assim também as ideias podem ganhar status de verdade científica e que se vinculam à aparência da realidade. É o caso, por exemplo, da ideologia das raças que justificaram o colonialismo (FIORIN, 1998, p. 28). A ideologia é, portanto,
Uma “visão de mundo”, ou seja, o ponto de vista de uma classe social a respeito da realidade, a maneira como uma classe ordena, justifica e explica a ordem social. Daí podemos deduzir que há tantas visões de mundo numa dada formação social quantas forem as classes sociais. Há visões de mundo presas às formas fenomênicas da realidade e outras que a ultrapassam, indo até a essência. Nem toda ideologia, é, portanto, “falsa consciência” (FIORIN, 1998, p. 29).
Sob diferente perspectiva, Hall (2008, p. 169) aponta que Althusser “se opôs ao reducionismo de classe na ideologia — a ideia de que há alguma garantia de que a posição ideológica de uma classe social sempre corresponde a sua posição nas relações sociais de produção”. Althusser, desse modo, contrapõe a noção de que as ideias dominantes são sempre correspondentes às posições da classe dominante. A dificuldade – dentre outras elencadas por Hall (2008) –, estaria em compreender como a(s) ideologia(as) assegura(m) o avanço dessas classes em situações históricas concretas. Por este motivo, a próxima seção se deterá ao conceito althusseriano de ideologia.
3.2.1 Ideologia e representação em Althusser
Althusser (2001), nas suas próprias palavras, elabora um “esquemático esboço” sobre o conceito de ideologia de maneira geral, do qual três aspectos são destacados nesta seção. Em um primeiro momento, o autor defende a tese de que a ideologia não tem história. Em seguida, aponta duas teses fundamentais para compreender a ideologia como uma representação, quais sejam: a representação do objeto (I) sob a forma imaginária e (II) sob a forma material. No terceiro momento, então, o autor define a relação entre sujeito e ideologia, visto que entre eles há uma relação paralela.
Em primeiro lugar, Althusser (2001) define seu objeto de estudo como a ideologia em geral, ou seja, não uma ideologia em específico, dotada de relações regionais e consequentemente, um contexto histórico situado. É nesse sentido que a ideologia – aqui compreendida como a ideologia em geral – não tem história, pois sua estrutura não está situada em um momento determinado. Em outras palavras, a estrutura e o funcionamento da ideologia a constituem como uma realidade não-histórica.
A partir da concepção não-histórica da ideologia, Althusser (2001) apresenta duas teses – tese I e a tese II – que tratam do objeto que é “representado” sob a forma imaginária e sob a materialidade da ideologia.
A tese I afirma que “A ideologia representa a relação imaginária dos indivíduos com suas condições reais de existência” (ALTHUSSER, p. 85). Isso significa que as ideologias (neste caso, as específicas, como a ideologia política, por exemplo) são compostas por concepções de mundo, que, na maioria das vezes, só se pode ser percebida quando não se vive aquela ideologia, ou seja, não a tem como realidade. Esse critério permite perceber a propriedade imaginária da ideologia, que não corresponde à realidade, visto que o indivíduo que não partilha daquela ideologia não vê o mundo daquela maneira; logo, o individuo que
dela partilha, vivencia uma realidade imaginária, ilusória. Assim, Althusser (2001, p. 86) conclui que “nas ideologias ‘os homens representam de forma imaginária, suas condições reais de existência’”.
A segunda tese proposta por Althusser (2001) – a tese II – propõe que “A ideologia tem uma existência material”. Tal existência é material, pois acontece por meio de um aparelho e em sua(s) prática(s). Ou seja, uma relação imaginária carrega em si mesma uma existência material. Um indivíduo que vive em determinada ideologia irá vivenciar as práticas dessa ideologia, adotando determinados comportamentos, refutando outros, praticando “certas práticas regulamentadas que são as do aparelho ideológico do qual ‘dependem’ as ideias que ele livremente escolheu como plena consciência, enquanto sujeito” (ALTHUSSER, 2001, p. 90). Assim, a representação ideológica da ideologia se constitui nela mesma visto que sujeitos livres escolhem imprimir nos atos de suas práticas materiais as ideias que escolheram seguir.
A ideologia, portanto, está inscrita em atos da prática cotidiana do sujeito. Tais práticas, por sua vez, são reguladas por rituais localizados no seio da existência material de um aparelho ideológico. Desse modo, tanto as práticas, quanto os rituais e o próprio aparelho ideológico são materiais, pois eles se manifestam no mundo real por meio das ações do sujeito como representação das ideias. Sobre tal afirmação, Althusser (2001, p. 92) aponta que as ideias desaparecem enquanto tais na medida em que se evidencia sua existência inscrita em atos das práticas reguladas por um aparelho ideológico.
Da noção materialista da existência da ideologia decorre um elemento importante para o estudo da ideologia: o sujeito. Althusser (2001) afirma que só há prática através de e sob uma ideologia, assim como só há ideologia pelo sujeito e para o sujeito. É desse modo que a ideologia interpela os indivíduos enquanto sujeitos. A “ideologia existe para sujeitos concretos, e esta destinação da ideologia só é possível pelo sujeito: isto é, pela categoria de sujeito e de seu funcionamento” (ALTHUSSER, 2001, p. 93).
A categoria de sujeito é constitutiva de toda ideologia, mas, ao mesmo tempo, e imediatamente, - acrescentamos que a categoria de sujeito não é constitutiva de toda ideologia, uma vez que toda ideologia tem por função (é o que a define) “constituir” indivíduos concretos em sujeitos. É neste jogo de dupla constituição que se localiza o funcionamento de toda ideologia (ALTHUSSER, 2001, p. 93, grifos do autor).
Tal afirmação aponta para o fato de que todo sujeito é constituído pela ideologia, é ele ideológico. O sujeito tem suas ideias representadas em práticas inscritas em aparelhos
ideológicos e efetua reconhecimento ideológico a todo instante; por exemplo, quando concorda ou discorda de determinado fato.
Isto posto, a categoria de sujeito é constitutiva da ideologia tendo em vista que “toda ideologia interpela os indivíduos concretos enquanto sujeitos concretos, através do funcionamento da categoria de sujeito” (ALTHUSSER, 2001, p. 96). Isso significa que todo indivíduo se torna sujeito por meio da ideologia, e a ideologia só existe por meio do sujeito, visto que nele são representadas suas práticas materiais. Desse modo, a ideologia recruta e transforma indivíduos em sujeitos por meio do que o autor chama de interpelação. Vale ressaltar que tanto a existência do sujeito, quanto sua interpelação são uma mesma coisa e isso ocorre desde a concepção do indivíduo: “Antes de nascer a criança é portanto sujeito, determinada a sê-lo através de e na configuração ideológica familiar específica na qual ele é ‘esperado’ após ter sido concebido” (ALTHUSSER, 2001, p. 98).
A ideologia é, portanto, constitutiva do sujeito, ela é também, a representação da relação imaginária do sujeito com as relações reais de um mundo determinado. A ideologia não existe sem sujeito e o sujeito não existe sem a ideologia e isso faz com que sejamos sujeitos ideológicos, interpelados pela ideologia a todo instante.