3. Capítulo 3 – O conceito de patriarcado
3.2 O conceito de patriarcado em “O poder do macho”
O poder do macho é um livro escrito por Heleieth Saffioti em 1987, 20 anos após a escrita de A mulher na sociedade de classes: mito e realidade. Voltado para o público em geral, o livro tem uma escrita muito diferente de sua tese de livre-docência, que a autora julga como “sociologuês”. O objetivo é atingir o público leitor fora da academia, e traz o caráter militante da autora combinado à sua função como socióloga. Neste livro em questão, é apresentada a teoria do patriarcado-racismo-capitalismo, chamado de “nó” pela autora, já que concebe uma ideia de um sistema de dominação-exploração no qual essas três concepções se imbricam, sem hierarquia entre elas. A hipótese de que já existiam pistas e ideias pré-formadas por Saffioti para este salto teórico em A mulher na sociedade de classes, o que torna sua tese tão original e pioneira, será explorada neste tópico.
Buscando do tópico anterior um possível elo de pensamento entre A mulher na sociedade de classes e O poder do macho, cabe apresentar essa passagem:
Outro fato decisivo para a manutenção deste estado de coisas é, sem dúvida, o complexo de macho, que ainda integra o ideal de personalidade masculina no Brasil. Sobrevivência do patriarcalismo da família colonial, o “dom-juanismo” constitui verdadeiro índice da supremacia do homem na família e na sociedade em geral. (SAFFIOTI, 2013, p. 258).
Aqui, Saffioti não traz apenas a ideia de que o patriarcado é uma herança colonial escravocrata que vigora até os dias atuai. Acrescenta ainda um caráter bastante cultural da mística feminina, no qual a virilidade e o estereótipo de masculinidade são centrais para a perpetuação desse sistema.
A autora explora muito mais essa ideia em O poder do macho, mas a hipótese com essa passagem d’A mulher na sociedade de classes é de que o embrião desse pensamento já se encontrava desde o início de sua carreira
acadêmica. Pode-se relacionar facilmente essa passagem com esse próximo, excerto de O poder do macho:
O poder do macho, embora apresentando várias nuanças, presente nas classes dominantes e nas subalternas, nos contingentes populacionais brancos e não brancos. Uma mulher que, em decorrência de sua riqueza, domina muitos homens e mulheres, sujeita-se ao jugo de um homem, seja seu pai ou seu companheiro. Assim, via de regra, a mulher é subordinada ao homem. Homens subjugados no reino do trabalho por uma ou mais mulheres detêm poder junto a outras mulheres na relação amorosa. (SAFFIOTI, 1987, p. 16).
Em A mulher… a autora escreve diversas vezes que é impossível pensar a condição da mulher sem pensar a condição do homem, pois os dois são prejudicados nesse sistema: a mulher que subjetivamente incorpora a mística feminina e o homem que, inserido nessa mesma relação social, se beneficia em partes da mesma.
Ficou claro por que não se pode escrever um livro sobre a mulher, deixando de lado o homem. Da mesma maneira, seria impossível escrever sobre o homem sem mencionar a mulher. Se cada um destes seres situa-se, socialmente, em diferentes polos da relação de dominação-exploração, não se pode abordar um, esquecendo o outro, E a relação que importa, na análise dos fenômenos sociais. E esta relação, quer quando se examinam as categorias de sexo, quer quando se analisa a convivência de distintas raças. no Brasil e em muitos outros países, caracteriza-se como uma relação de dominação-exploração. (SAFFIOTI, 1987, p. 29).
Em O poder do macho, a autora traz um salto teórico muito importante para toda a sua carreira acadêmica: a simbiose entre patriarcado-racismo-capitalismo como um único sistema de dominação-exploração:
Desta sorte, não foi o capitalismo, sistema de dominação- exploração muitíssimo mais jovem que os outros dois, que “inventou” o patriarcado e o racismo. Para não recuar demasiadamente na história, estes já existiam na Grécia e na Roma antigas, sociedades nas quais se fundiram com o sistema escravocrata. Da mesma maneira, também se fundiram com o sistema feudal. Com a emergência do capitalismo, houve a simbiose, a fusão, entre os três sistemas de dominação- exploração, acima analisados separadamente. Só mesmo para tentar tornar mais fáciI a compreensão deste fenômeno, podem-se separar estes três sistemas. Na realidade concreta, eles são
inseparáveis, pois se transformaram, através deste processo simbiótico, em um único sistema de dominação-exploração, aqui denominado patriarcado-racismo-capitalismo. (SAFFIOTI, 1987, p. 60).
Não apenas tem a intenção de imbricar patriarcado-racismo-capitalismo sem hierarquia entre essas categorias, como também não hierarquiza o que a mesma chama de sistema de dominação-exploração. Ora utiliza dominação-exploração, ora exploração-dominação, justamente com a intenção de que o/a leitor/a não interprete como um sendo superior ou anterior ao outro.
Como o patriarcado-racismo-capitalismo é pensado como um sistema único de dominação-exploração em O poder do macho, consideramos que em A mulher… Saffioti já analisava o sistema patriarcal dessa maneira, de forma embrionária, é claro, mas já com forte subsídio para seu salto teórico 20 anos mais tarde. Em A mulher… a autora coloca que desde o período colonial/escravocrata, a estrutura de poder no Brasil forma-se em caráter patriarcal-patrimonial, sendo a mulher escravizada mais explorada do que o homem escravizado: exerce funções de trabalhadora, reprodutora da força de trabalho, e o papel sexual na sociedade de castas. Saffioti já trabalha, em 1967, com o fator raça como estratificatório na sociedade de classes, que, no Brasil, é formada com base no sistema escravocrata e dele colhe frutos até os dias atuais.
Angélica Lovatto, em seu artigo Desvendando O poder do macho: um encontro com Heleieth Saffioti, publicado também na revista Lutas Sociais nº 27, já aponta a linha percorrida por Saffioti para chegar ao seu objetivo de conceituar patriarcado-racismo-capitalismo
Essa demonstração vai ficando mais clara a partir do capítulo 3, “A supremacia masculina na sociedade capitalista”, onde a autora se esmera em demonstrar os efeitos dessa simbiose na sociedade brasileira. Ela recorre aos aspectos históricos presentes na organização do mundo do trabalho desde o escravismo, passando pelo feudalismo até chegar no capitalismo. (LOVATTO, 2011, p. 115).
Assim, defende-se nesta pesquisa o caráter já embrionário do conceito de Saffioti em A mulher na sociedade de classes, uma vez que em sua tese de livre- docência a autora já percorre este mesmo caminho.
É bem verdade que em A mulher… Saffioti entende o conceito de patriarcado por um outro viés, e como um sistema de dominação, no qual a ideia de dominação-exploração ainda é muito embrionária. Porém, estruturando sua tese em três partes, a autora traz a análise da situação da mulher no capitalismo como marginalizada e alijada do mercado de trabalho, analisa a questão das mulheres negras e brancas no patriarcado patrimonial da colônia brasileira como exploradas em um sistema de dominação patriarcal, sendo a mulher negra muito mais marginalizada do que a branca. Na última parte de sua tese, também explora a questão da psicanálise como construtora da mística feminina na sociedade, o que traz a ideia de que o embrião da criação deste conceito em O poder do macho encontra-se já concebido em A mulher na sociedade de classes.
3.3 Sobre o conceito patriarcado