• Nenhum resultado encontrado

O Conceito de Saúde em Georges Canguilhem

No documento Download/Open (páginas 48-52)

CAPÍTULO II DIÁLOGOS SOBRE O CUIDADO EM SAÚDE

2.5 O Conceito de Saúde em Georges Canguilhem

Utilizaremos como fio condutor dessa discussão o conceito de saúde que é possível apreender a partir da reflexão que o filósofo Georges Canguilhem faz em seu livro (2014) “O normal e o patológico”. Optamos por revisitar Canguilhem por entender, em concordância com Bezerra (2006), que a discussão sobre o que constitui a fronteira entre o normal e o patológico deve estar no centro da reflexão crítica no campo da saúde. Além disso, é através dessa discussão que o autor introduz um entendimento de saúde que nos parece coerente com as discussões que vimos fazendo sobre o cuidado.

Canguilhem (2014), no primeiro momento de sua obra, introduz o problema apresentando a tese de que, tradicionalmente, na ciência, a normalidade se contrapõe à patologia apenas por diferenças quantitativas. Em sua discusão inicial, o autor revisa o problema do

normal e do patológico tal como sustentado pelo pensamento positivista de Auguste Comte e Claude Bernard, lembrando que para esses autores os fenômenos patológicos seriam as variações quantitativas dos fenômenos normais. Mas, contrariando essa perspectiva de análise, Canguilhem (2014) argumenta que os fenômenos do normal e do patológico se distiguem em aspectos qualitativos e se configuram como estruturas distintas.

Para Canguilhem (2014), não é possível descrever em si mesmo um fato sendo patológico ou normal, sem antes avaliar suas normas de funcionamento, seus efeitos sobre o exercício normativo do organismo. Na análise do filósofo, esse conceito fundamenta a experiência individual, subjetiva de saúde e doença. Nesse sentido, para fins de definição da saúde ou da doença, indivíduo e meio não podem ser considerados isoladamente. O autor pensa normalidade e patologia enquanto partes integrantes e complementares de uma mesma natureza, como estados variados de uma única realidade: a vida.

Bezerra (2006) ajuda-nos nessa reflexão apontando que o normal e o patológico se colocam como fenômenos da vida social, sendo categorias que se distiguem, no plano social, entre aquilo que é prescrito ou aceito e aquilo que é proscrito ou recusado. É um fato cultural, que trás para o campo da saúde importância crucial. Assim, nas palavras do autor:

Um ser vivo é algo mais do que a simples soma de suas partes constituintes. Certamente, existem nele fenômenos químicos, físicos, neuroquímicos, eletromagnéticos etc, sem os quais a vida seria impossível. Mas a vida não é o simples somatório desses fenômenos materiais, é algo mais (BEZERRA, 2006, pg. 102).

Nesse sentido, a indicação do que se concebe como patológico ou não, diz respeito à relação que irá se estabelecer entre organismo e meio, de forma que não existe um só organismo ou meio normal se concebidos isoladamente (CANGUILHEM, 2014).

Em Canguilhem (1978) a patologia é uma nova norma de vida, concebida como uma norma conservadora, que repete a si mesma e não admite novas exigências. Portanto, ela não é entendida como o negativo da saúde, ou como o hipo/hiper funcionamento desta, mas como um estado que guarda sua especificidade. Esta pode ser entendida como uma reação que busca a cura, na medida em que sinaliza ao homem a insuficiência da sua produção normativa. Sendo assim, Coelho e Almeida Filho (1999) destacam que a terapêutica não se dirige à reconstituição do estado anterior ao adoecimento, mas à instituição de uma capacidade normativa diferente e mais abrangente.

Bezerra (2006) contribui nessa elucidação, lembrando que a prática médica é organizada em termos de valores elaborados por diversos saberes e disciplinas. A técnica está orientada no

sentido de livrar a experiência da vida dos constragimentos colocados pelos processsos patológicos, mas a liberdade em relação aos constrangimentos vitais não pode ter mensuração objetiva apenas porque se trata de uma experiência da vida que está em jogo.

Bezerra (2006) reitera uma das afirmações de Canguilhem: “o phatos precede o logos”, para propor que a ênfase da investigação em saúde está na experiência do doente, é nela que se situa a origem de todo o conhecimento e toda a técnica. O autor explicita dois sentidos à afirmação que Canguilhem faz acerca da precedência do phatos sobre o logos: sendo uma verdade no sentido cronológico – primeiro o sofrimento e depois a necessidade de conhecê-lo, evitá-lo e tratá-lo – e no sentido ético – a partir da relação do sofrimento que se define o horizonte ético e os limites da clínica (BEZERRA, 2006, pg. 94).

Só é possível delimitar de forma consistente a fronteira entre o normal e o patológico quando se deixam de lado os critérios meramente objetivos e se coloca no centro da reflexão a mudança de qualidade, a alteração de valor vital que a doença impõe e que o indivíduo reconhece como limitação à sua existência (BEZERRA, 2006, pg. 95).

No bojo dessas reflexões, Canguilhem (2005) defende que a saúde é um conceito de difícil sistematização e, ao mesmo tempo “vulgar”, na medida em que sua vivência se encontra ao alcance de qualquer ser humano. Para o autor, o corpo humano é um dado - já que se constitui como efeito singular de componentes genéticos -, e um produto, na medida em que sua inserção e modo de vida num meio específico contribuem para modificar sua estrutura morfológica e singularizar suas capacidades. Através dessa combinação paradoxal, o corpo humano se traduz por um conjunto de poderes que podem ser reconhecidos, avaliados e testados pelo ser humano que o vive. Note-se que afirmar que o ser humano vive o corpo é reconhecer que este é, necessariamente, subjetivado.

Através dessa concepção de produção de conhecimento, Canguilhem (1978) entende que saúde diz respeito à “margem de tolerância” que o indivíduo tem em relação às “infidelidades do meio”. Uma restrição nessa margem, entendida como diminuição da capacidade de produzir normas de vida, provoca-lhe sofrimento, “sentimento de vida contrariada”, sendo este o estado correspondente à patologia (Canguilhem, 1978, p.158). Note- se que, necessariamente, o reconhecimento da saúde ou da doença envolve um julgamento de valor, o qual, na segunda, é negativo.

Essa definição exige-nos admitir a inexistência de critérios objetivos e precisos que diferenciam o saudável do patológico, na medida em que ambos são definidos a partir de processos de valoração, pautados na relação do indivíduo com o meio. Impõe também que a

saúde seja sempre pesquisada tendo como referência sua dimensão relacional. Assim, Canguilhem enfatiza:

O doente deve sempre ser julgado em relação com a situação à qual ele reage e com os instrumentos de ação que o meio próprio lhe oferece. (...) Não há distúrbio patológico em si, o anormal só pode ser apreciado numa relação (CANGUILHEM, 1978, p. 150).

Na relação com o meio, o sujeito saudável é aquele que possui os recursos necessários para responder às suas exigências e surpresas, assim como para provocar-lhe transformações. A saúde permite que o meio seja sempre valorado e significado pelo indivíduo, de tal modo que ela é entendida como uma “(...) maneira de abordar a existência com a sensação não apenas de possuidor ou portador, mas também, se necessário, de criador de valor, de instaurador de normas vitais.” (CANGUILHEM, 1978, p.163).

CAPÍTULO III - PRODUÇÃO CIENTÍFICA ACERCA DA TEMÁTICA

No documento Download/Open (páginas 48-52)