4 PENSANDO A INFERTILIDADE SEM CAUSA APARENTE A PARTIR DO
4.2 O conceito de sintoma na perspectiva de Freud
A psicanálise, desde seu surgimento, vem empreendendo vários estudos a fim de buscar entender um pouco mais as neuroses e seus sintomas que tanto afligem os seres humanos. Freud foi quem deu o primeiro passo, quando possibilitou a escuta do discurso neurótico. O seu interesse pelas neuroses de histeria, por exemplo, pode ser encontrado em seus primeiros textos de sua obra. Foi a partir deste interesse que foi possível à psicanálise descobrir que o sintoma neurótico tem sempre um sentido, um sentido inconsciente, isto é, ele diz alguma coisa, mesmo que o sujeito nada saiba disso.
Freud vai defender, no campo da psicanálise, que o sintoma é uma satisfação substituta deformada e irreconhecível, que aponta para um retorno daquilo que foi recalcado. Conforme com sua teoria, a neurose, na verdade, é expressão de conflitos entre o ego e as pulsões que, por serem incompatíveis com o superego, são recalcadas, ou seja, são impedidas de se tornar conscientes e, consequentemente, afastadas, de início, da possibilidade de satisfação. Todavia, o recalque facilmente fracassa e a libido represada, insatisfeita, que havia sido repelida, deve agora procurar outras saídas do inconsciente. Resta-lhe, então, buscar sua satisfação por caminhos indiretos, submetendo-se, assim, a modificações e deslocamentos. O resultado deste processo é a formação de um sintoma.
O conceito de sintoma, como tantos outros, foi sendo reformulado por Freud, de acordo com suas novas descobertas sobre o funcionamento dos processos inconscientes. Segundo Maia, Medeiros e Fontes (2012), pode se encontrar três momentos distintos da elaboração deste tema em sua obra: o conceito de sintoma antes de 1900; o conceito de sintoma entre 1900-1920, e o conceito de sintoma após 1920.
O período anterior a 1900 compreende a fase em que Freud, muito influenciado pelo paradigma moderno da ciência e por suas experiências junto a Chacot e Breuer, defendia que a histeria era o produto de um conflito psíquico gerado por um evento traumático que deixou marcas no psiquismo, porém não era lembrado no estado de vigília. A perspectiva desta época postulava que o paciente sofreria uma experiência sexual prematura e traumática que deveria ser recalcada, contudo, por força de contingências da vida desse paciente, lhe vem à
consciência a lembrança de tal evento, o que lhe demandava um esforço para recalca-la, isto levaria a formação de um sintoma primário (Freud, 1986/1996a). Portanto, eram justamente esses restos de eventos que haviam sido esquecidos, que retornariam no corpo causando paralisias, dores inexplicáveis, cegueira, ou seja, os sintomas histéricos.
Todavia, Freud passa a questionar a ideia de que a origem da histeria estava nos traumas sexuais relatados pelas pacientes. Para o mesmo, o trauma sexual, vivência de uma cena tida como verdadeira pelo indivíduo, deve ser pensado enquanto uma fantasia traumática de sua realidade psíquica. Sendo assim, seriam as fantasias que produziriam os sintomas de suas pacientes e não um trauma sexual real, como se pensava anteriormente.
Cabe ressaltar que no início de suas elaborações acerca do que afetava as histéricas, Freud utiliza-se da hipnose para tratar suas pacientes. Entretanto, ele abandona este método, tanto por sua falta de habilidade especial do hipnotizador, a qual reconhecia não ter, quanto em função do encobrimento da resistência, que afetava o tratamento e passa a utilizar-se a sugestão e a técnica da pressão como modos de impulsionar seus pacientes a falarem de conteúdos desagradáveis, dos quais insistiam em dizer que não lembravam. Isto o leva a estabelecer, a associação livre como a regra principal da psicanálise (Freud, 1904[1903]/1996b).
Já em 1900, com a publicação do seu texto “Interpretação dos sonhos”, Freud passa a salientar que os sonhos são realizações de desejos inconscientes, que também não está totalmente livre do processo de defesa, por isso se manifesta de forma distorcida. Com esta descoberta, ele passa a afirmar que, assim como os sonhos, os sintomas também são a realização de um desejo, que é sempre sexual. Porém, um fato interessante é que o sujeito que sofre com seu sintoma, não consegue reconhecer neste uma satisfação. O sintoma, portanto, ocupa um lugar paradoxal na vida do sujeito, já que além de conotar sofrimento para este, também é uma forma de satisfação pulsional deformada e irreconhecível.
Na “Conferência XVII”, Freud (1917[1916]/1996d) revela que os sintomas neuróticos têm um sentido que se estabelece de acordo com a vida dos sujeitos que deles padecem. Nesse momento da obra Freudiana, o sintoma é tomado como uma mensagem cifrada que encontra lugar para sua elaboração no espaço analítico e que, ao mesmo tempo, provoca resistências ao seu tratamento. O ciframento da mensagem segue as mesmas leis de funcionamento dos outros fenômenos lacunares do inconsciente, uma vez que os seus conteúdos são submetidos às mesmas distorções que sofrem ao aparecer num sonho, ou incorrer num ato falho (Maia, Medeiros & Fontes, 2012).
Estas torções e versões que os conteúdos inconscientes são submetidos, devido ao recalque, fez com que Freud se debruçasse sobre a relação de compromisso entre o sintoma e as duas forças que entraram em luta no conflito: a libido insatisfeita, que representa o recalcado, e a força repressora, que compartilhou de sua origem. Assim, segundo o seu texto “Conferência XXIII” (1917[1916]/1996d), as duas forças que entraram em luta encontram-se novamente no sintoma, de forma a encontrar nesta saída uma forma de reconciliação, por assim dizer, através do acordo representado justamente pelo sintoma formado.
Cabe lembrar que, até este momento da obra Freudiana, a suas teorias estão sob a regência dos princípios da realidade e do prazer. Todavia, a partir sua prática clínica, Freud percebe que os sintomas carregam em si uma satisfação que torna o tratamento difícil. Ele, então, se dá conta que é com muita resistência que os pacientes abrem mão se seus sintomas e, ainda assim, não de modo total e definitivo. Essas conclusões o levam à elaboração de uma hipótese além da homeostase do aparelho psíquico, e consequentemente, do princípio de realidade e do prazer.
A partir de 1920, com a introdução da segunda tópica do aparelho psíquico, bem como da noção de pulsão de morte, Freud percebe que para além do princípio do prazer, há um real de gozo impossível de ser representado no sintoma (Maia, Medeiros & Fontes, 2012). Isto o obriga a repensar este conceito e a empreender novos estudos a fim de buscar entender a formação dos sintomas.
Assim, em “Inibição, sintoma e angústia” (1926/1996g), Freud avança em seus estudos quando apresenta o sintoma como “um sinal e um substituto de uma satisfação pulsional que permaneceu em estado jacente; [o sintoma] é uma consequência do processo de recalcamento” (p.95). Esta nova formulação sobre a formação de sintomas permite-lhe concluir, a partir da análise da fobia de Hans, que a angústia, essência da fobia, provém não do processo de recalcamento, como acreditava anteriormente. Na verdade, a angústia é um sinal de desprazer provocado pelo ego, que coloca o processo de defesa, o recalque em movimento, o que promove, consequentemente, a formação de sintomas (Freud, 1926/1996g). É sobre esta perspectiva que o próximo capítulo empreenderá um esforço no intuito de apresentar o seguimento desta pesquisa.
Em relação à formação de sintomas, vale destacar o que Freud assinalou sobre a pulsão de morte. Segundo seus ensinamentos a pulsão de morte é, em última instância, a responsável pela repetição do sintoma, de maneira que se retorne sempre a um mesmo lugar; lugar de sofrimento e desprazer, o qual proporciona uma satisfação paradoxal, que faz o
sujeito gozar de seu mal-estar (Maia, Medeiros & Fontes, 2012). O sintoma, então, se sustenta não em um sofrimento, mas em uma satisfação. Por isso, para o sujeito é tão difícil abrir mão do sintoma, pois ele manifesta, mesmo que de modo invertido, a sua via de contentamento e sustentação.
Outro texto importante que Freud discute a formação de sintomas e a pulsão de morte é o intitulado de “Análise terminável e interminável” (1937/1996l). Neste ele expõe os limites da clínica analítica diante da impossibilidade de satisfação pulsional por completo e, logo, da eliminação dos sintomas e da neurose. Aqui, ele deixa claro que diante da realidade do sintoma como solução de compromisso e como satisfação pulsional, a psicanálise não pode dar quaisquer garantias no tratamento. Dessa forma, tentativas de prevenção de futuros conflitos e a questão da cura são infrutíferas.
A partir dessas formulações de Freud, a psicanálise vai ensinar que a verdade do sintoma é uma verdade construída. Assim, seria impossível ao analista revelar ao sujeito o sentido desse recalcado que retorna, porém, é possível, ao sujeito, construir sua verdade num processo analítico. Dessa maneira, numa análise busca-se que a palavra plena surja por meio da transferência, no qual o sujeito pode se implicar com aquilo mesmo que o faz sofrer, se dando conta de sua parte em seu sintoma e assumindo sua história (Maia, Medeiros & Fontes, 2012).
5 MEDO E INFERTILIDADE SEM CAUSA APARENTE: UMA
POSSÍVEL RELAÇÃO A PARTIR DA RELEITURA DA TEORIA DA
ANGST DE FREUD
Se Natureza ou Pandora é mãe e inimiga, o medo é pai e inimigo. Ele protege o homem, mas também o destrói. É fundamental à sobrevivência, contudo sua presença constante adoece a alma e arruína o corpo (Rodrigues, 2008).
Rodrigues (2008) propõe um retorno à Freud e uma tentativa de resgatar o sentido profundo que ele atribuía à palavra Angst, que deve ser traduzida em português como medo e não como o foi tradicional vocábulo “angústia”. Segundo aquele , esse afeto, universal em seu conteúdo, atraiu a atenção e interesse de Freud, o qual dedicou parte de sua obra à tentativa de encontrar uma teoria que lhe permitisse entender a ação desse afeto na vida psíquica e na formação de sintomas.
Para o referido autor (2008), diante do legado monumental que Freud deixou, é preciso continuar avançando, propondo sempre novas explorações e descobrimentos; é preciso que as pesquisas tenham a pretensão de ir “além de Freud”, contudo, dentro do continente que ele mesmo demarcou, a fim de elucidar questões que se mostram intrigantes dentro da psicanálise. É nesta perspectiva que Rodrigues desprendeu um trabalho em torno do conceito de Angst e das suas errôneas traduções, de forma a propor releitura da teoria, elaborada por Freud, que cabe a este termo.