3.3 O Trabalho bilíngüe
3.3.2 O conceito e a problemática da equivalência
Haveria áreas do conhecimento humano empírico, nomeadas no léxico de cada língua, que seriam exclusivas dessa língua e da cultura que ela expressa. Contudo, no universo cultural em expansão em que hoje vivem os homens, estaria ocorrendo uma convergência dos sistemas classificatórios expressos por denominações lexicais. E mais ainda: na aldeia global dos meios de comunicação em que está vivendo o homem contemporâneo, intensifica-se a tendência à universalização dos conceitos, sobretudo no domínio técnico-científico (Biderman, 1984, p.12).
Vivemos em um mesmo planeta, mas dentro do que parece ser uma massa uniforme, encontra-se a heterogeneidade tão cara a vários povos. Obviamente dividimos as mesmas sensações de frio, calor, muitas vezes, comemos os mesmos alimentos e assistimos às mesmas notícias. Mas não é da mesma forma que reagimos a e organizamos tudo isso. E o lugar privilegiado para a manifestação das diferenças ou das semelhanças entre os povos, sem dúvida, é a língua. A realidade, dessa forma, é observada, sentida e organizada de modo diverso em cada cultura, povo e língua.
Podemos dizer que a problemática da equivalência ocorre pois, segundo Haensch, (1982, p.12) além do “significado, terá que se levar em conta, como pano de fundo, o sistema político, econômico e sociocultural da comunidade lingüística respectiva, em todos os seus aspectos”26, que muitas vezes não são iguais, ou mesmo semelhantes.
Apesar dessa constatação, podemos dizer que as línguas possuem certos traços semânticos comuns, o que permite a passagem de uma a outras. Segundo Thomas Szende:
26 (...) significado, habrá que tener en cuenta, como telón de fondo, el sistema político, económico y
Se a passagem de uma língua a outra é possível, provavelmente é porque existem inclusive traços comuns no domínio semântico. Assim, todas as línguas comportam os principais tipos de discurso (narração, argumentação, diálogo) e todas elas podem exprimir as relações lógicas (causa/efeito, condição/resultado), o tempo, o espaço, o modo etc. Da mesma maneira, elas estabelecem a distinção entre as categorias semânticas de base: objetos (seres, coisas, entidades nomeáveis passíveis de participar de uma maneira ou de outra dos acontecimentos); 27 (Szende, 1996, p.112).
Frente a essa constatação, poderíamos nos perguntar se é possível existir equivalência total entre termos de línguas diferentes. Ou, antes ainda, o que seria uma equivalência terminológica?
Os autores da terminologia bilíngüe expõem que há diferentes graus de equivalência, que variam desde a equivalência exata de conceitos até a não-equivalência. Em muitos casos, não existe uma correspondência exata de sentidos entre termos de duas línguas. Wüster (1998, p. 152), citando Weisgerber, exemplificou essa questão utilizando as cores do arco-íris. Línguas diferentes dividiram o arco-íris de modo distinto. Segundo Aubert, “nem a boa e velha aritmética escapa destas flutuações: nos países escandinavos, o sinal ÷ indica subtração e não divisão” (Aubert, 1996, p.19, rodapé).
Se as diferenças já ocorrem ao se tratar de fenômenos naturais, quando o que está em jogo são criações ou feitos humanos, a problemática se intensifica. Estabelecer, por exemplo, equivalências entre instituições jurídicas e administrativas de diferentes países não é uma tarefa fácil. Segundo Dyberg e Tournay (1990):
Um problema essencial de qualquer empreitada lexicográfica bilíngüe é a falta freqüente de isomorfismo entre as línguas. Essa falta é muito pronunciada nas línguas de especialidade que refletem as grandes diferenças sócio-culturais entre os países, notadamente nos recortes de diferentes matérias 28 (Dyberg e Tournay, 1990, p.261).
27 Si le passage d’une langue à l’autre est possible c’est probablement parce qu’il existe des traits communs
dans le domaine sémantique également. Toutes les langues comportent ainsi les principaux types des discours (narration, démonstration, dialogue) et elles peuvent toutes exprimer les relations logiques (cause/effet, condition/résultat), le temps, l’espace, le mode, etc. De même, elles établissent la distinction entre des catégories sémantiques de base : objets (êtres, choses, entités nommables susceptibles de participer d’une manière ou d’une autre à des événements); (Szende, 1996, p.112).
28 Un problème essentiel de toute entreprise lexicographique bilingue est l’absence fréquente d’isomorphisme
entre les langues. Cette absence d’isomorphisme est très prononcée dans les langues de spécialité qui reflètent les grandes différences socio-culturelles entre les pays notamment dans les découpages différents des matières (Dyberg e Tournay, 1990, p.261).
Acontece, também, que um elemento do léxico de uma língua possa ser encontrado na outra língua, mas que os dois elementos não possuam a mesma carga cultural. Thomas Szende (1996) dá como exemplo a palavra “vaca”. Indubitavelmente, tanto na França quanto na Índia essa unidade léxica se refere à fêmea do boi. Porém, ampliando um pouco mais a visão sobre o objeto, verificaremos que a vaca na França é explorada com fins comerciais e alimentícios; já na Índia a situação é inversa, uma vez que para os indianos esse animal é sagrado e, por isso, deve ser protegido.
Outro exemplo que permite observar as diferenças de ponto de vista sobre o mesmo objeto é o que nos aponta Clas (2004):
A “bicicleta” é denominada gbâzabänga em sangho da República Centro- Africana, que significa literalmente “rodas de borracha”, nàgàso em bambara do Mali, ou seja, “cavalo de ferro”, magu-màkwanganya em lingala da República democrática do Congo, que quer dizer “quatro pés”, tongomalady em malgache, literalmente “pernas rápidas”, e, para voltar ao indo-europeu, Fahrrad em alemão, literalmente “roda para conduzir”, ou ainda Drahtesel, burro de ferro, denominação familiar de bicicleta (Clas, 2004, p.225).
Segundo Cabré (1999, p.215), quando se contrastam diferentes línguas para se estabelecerem equivalências, pode ocorrer:
• que a língua de chegada não disponha de uma terminologia própria para a matéria especializada pelo fato de os especialistas não utilizarem sua língua para tratar da temática;
• que existam conceitos sem denominações cunhadas em uma língua. A ausência de terminologia ou a presença (por empréstimo) se reduzam a casos pontuais;
• que para um conceito existam várias denominações e que estas tenham o mesmo ou distinto valor pragmático ou de freqüência, com a conseguinte necessidade de selecionar a mais adequada a cada circunstância ou de reduzir as distintas possibilidades a poucas;
• que a conceptualização de uma matéria seja distinta em comunidades de línguas diferentes, sendo inviável se pensar em uma tradução literal supondo que toda unidade da língua A tenha uma unidade equivalente na língua B.
Rodolfo Alpízar-Castillo (1995, p.101) afirma que “as equivalências absolutas não são possíveis ou são pouco prováveis. O mais freqüente é que um termo da língua A recubra parcialmente o significado de outro termo da língua B, ou vice-versa” 29. Pode ocorrer, assim, uma total coincidência do significado de um termo por outro, recobrimentos parciais de significação ou mesmo a falta de equivalentes. Essa última pode se dar uma vez que cada língua organiza seus dados por meio de visões de mundo diferentes. Nas figuras abaixo, o autor deixa clara sua posição:
O primeiro caso, refere-se à coincidência total do item lexical nas línguas A e B; o segundo mostra que as unidades se entrecruzam parcialmente; o terceiro caso diz respeito à diferença dos conceitos, ou seja, o não-estabelecimento de equivalência.
Segundo Dyberg e Tournay (1990, p.268) “tradicionalmente, distinguem-se três graus de equivalência”, a saber:
-Equivalência total, -Equivalência parcial, -Equivalência zero”30.
Segundo o autor (idem, p.269) “há equivalência total entre duas unidades lexicais nas duas línguas quando elas possuem a mesma estrutura semântica, isto é, quando elas são isomorfas”31.
Já a equivalência parcial (idem, ibidem) ocorre “quando não há concordância perfeita entre duas unidades lexicais, Isto é, há um anisomorfismo parcial entre o lema e uma unidade lexical na língua alvo”32.
29 las equivalencias absolutas no son posibles, o son muy poco probables, entre dos lenguas (menos aún entre
varias). Lo más frecuente es que un término de la lengua A recubra parcialmente el significado de otro de la lengua B, o viceversa (Clas, 2004, p.225).
30 traditionnellement on distingue trois degrés d’équivalence, à savoir :
-l’équivalence totale, -l’équivalence partielle,
-l’équivalence zéro (Dyberg e Tournay, 1990, p.268).
31 il y a équivalence totale entre deux unités lexicales dans les deux langues, lorsqu’elles ont la même
A equivalência zero é aquela na qual “não se encontra, para as unidades lexicais da língua de partida, nem equivalentes perfeitos, nem equivalentes parciais na língua de chegada”33 (idem, p.270).
Abaixo, podemos visualizar mais detalhadamente essas relações conceituais entre unidades léxicas de duas línguas diferentes, denominadas por Felber em sua obra “Manual de Terminologia” (1987) como “graus de equivalência”. Complementamos a proposta de Felber com posições de outros autores que se pronunciam sobre o assunto.