2 TEORIA CLÁSSICA DAS ELITES APLICADA A UM CONTEXTO
2.2 Teoria das Elites
2.2.1 O Conceito de Elite segundo Mosca
Gaetano Mosca, um dos fundadores da teoria das elites, como já dito, preocupava-se em fazer uma análise científica dos fenômenos políticos. Para tanto, valoriza o método histórico e comparativo para observar os fenômenos sociais (Perissinotto, 2009).
Possuidor desta perspectiva histórica-comparativa, Mosca estuda e analisa várias sociedades humanas, ao longo de sua vivência, o que lhe permitiu constatar que as sociedades estão divididas em dois grupos: os governantes e os governados. Mosca (1939:50) nos diz:
“Entre as tendências e os fatos constantes que se encontram em todos os organismos políticos, aparece um cuja evidência se impõe
facilmente a qualquer observador: em todas as sociedades, começando pelas medianamente desenvolvidas... até as mais cultas e fortes, existem duas classes de pessoas: a dos governantes e a dos governados”.
Para o autor, os governantes são poucos, mas monopolizam o poder e impõem seu poder político, a sua vontade por meio de métodos legítimos ou arbitrários perante o restante da sociedade. Ainda nesta perspectiva, Albertoni (1990) interpreta que os governantes são aqueles que dispõem dos poderes públicos e que os exercem, sendo sempre uma minoria. Para Mosca, de acordo com algumas afinidades ou outros motivos, os membros da elite dirigente formam um grupo homogêneo e solidário entre si. A capacidade de organização do grupo dos governantes é fundamental para esclarecer como estes exercem o seu poder perante os governados. Os governantes são chamados por Mosca de “classe política” ou “classe dirigente12” (Hollanda, 2011). Nas palavras de Mosca, ele define que a classe dos governantes “é sempre menos numerosa, desempenha todas as funções políticas, monopoliza o poder e desfruta das vantagens a ele ligadas” (Mosca, 1939:50).
Tendo como base esta definição a respeito da classe dos governantes, é possível afirmarmos que a condição de minoritária e a capacidade de organização da classe dos dirigentes são fundamentais para a monopolização do poder, bem como a sua utilização em benefício próprio (Perissinotto, 2009). Neste contexto, Grynszpan (1996) aponta como importante fator de distinção e de poder entre minoria (governantes) e maioria (massa) a capacidade de organização e de coordenação que a minoria exerce sobre a maioria. Afirma também que, além desta capacidade de organizar-se, a minoria é possuidora de algum atributo altamente valorizado socialmente, como a riqueza, a força física, o contato direto com deuses, o saber e
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A referência à elite e às massas, no decorrer desta pesquisa, dá-se através de várias expressões, como governantes e governados, dominantes e dominados, classe política e classe governada, classe dirigente e dirigidos.
assim por diante. Por fim, Grynszpan (1996) explana que a hereditariedade é outro elemento fundamental para o acesso da classe dirigente ao poder. Este último elemento é relevante quanto à análise da formação da elite política e econômica no município de São Carlos, uma vez que, como afirma Love (1982), a homogeneidade da elite paulista respalda-se em um grande número de relações de parentesco, embasadas em laços de consanguinidade, que permitia o acesso e a permanência dos membros da minoria no poder.
Segundo Mosca, todas as sociedades humanas são dominadas por uma classe política e esta diferencia-se seguindo o critério dos tipos de recursos socialmente valorizados que elas controlam e que lhes permite impor sua dominação (Perissinotto, 2009). Sendo assim, Mosca (apud Perissinotto, 2009), identificou três tipos de classes políticas: a militar, a plutocrática (posse de riqueza) e a sacerdotal. Nesta pesquisa, portanto, o foco será sobre a classe política, via plutocracia, formada a partir da posse da riqueza, visto que os membros da elite que governaram São Carlos, bem como seus sucessores, eram possuidores de uma vasta riqueza baseada na posse de terras, escravos, além de possuírem títulos nobiliárquicos que lhes garantiam status, acessos, e privilégios sociais e políticos.
Para Mosca, a massa é definida como sendo uma maioria desarticulada, desorganizada. Mosca (1939:50) nos diz:
“...Enquanto que a segunda (a classe dos governados), mais numerosa, é dirigida e regulada pela primeira de maneira mais ou menos legal, ou de modo mais ou menos arbitrário e violento, e lhe fornece os meios materiais de subsistência e os indispensáveis para a vitalidade do organismo político”.
Neste contexto, compreende-se que a desorganização facilita o exercício do poder pelos dirigentes e o legitima. Desta forma, é possível pensarmos que a minoria domina porque é organizada e a maioria é dominada porque é desorganizada. Fazendo esta análise, a realização efetiva de uma soberania popular é vista com certa
descrença. Porém, Mosca diz que “a observação histórica nos revela um fato inegável, isto é, que as classes políticas decaem. É nesse momento que o autor nos fornece uma teoria de mudança social. Para Mosca, as mudanças sociais estão sempre ligadas a mudanças nas ‘fontes’ de poder. Ou seja, mudanças nas fontes de poder geram mudanças na classe política” (Perissinotto, 2009:16). Segundo Mosca, o declínio de uma classe política permite a substituição por outra. Esta “nova classe política pode ser inclusive formada por indivíduos de destaque pertencentes aos estratos sociais inferiores que, por suas qualidades, abrem caminho em direção ao poder” (Perissinotto, 2009:35).
A quantificação quanto aos governantes, segundo Mosca, é irrelevante, pois o fundamental é entender os mecanismos sociais e políticos que levam à formação, socialização e conduta da elite (que seria uma minoria). Organizada e coordenada, a elite dirigente impõe-se a uma maioria desarticulada (Grynszpan, 1996). Segundo Albertoni (1990:71), para Mosca, pouco importa que, à frente do Estado, exista um monarca, uma oligarquia de nobres ou um grupo que afirme exercer o poder em nome do povo.
“O poder, insiste Mosca, só pode ser articulado e distribuído; a história nos ensina que ele é repartido entre uma série de sujeitos muito mais numerosos do que aqueles que aparecem como símbolo de todo regime, do que o homem ou o grupo de homens que se identifica como o próprio poder num momento dado”.
Albertoni (1990) expõe que, em todas as formas de legitimação do poder da elite, as bases reais da elite política permanecem ocultas pela sedução e justificação religiosa ou racionalista. Assim, os homens não se subordinam apenas pela força. O mesmo autor explana que as massas não obedecem à mecânica nem, espontaneamente, a quem as comanda, mas obedecem porque lhes sentem a superioridade e porque sofrem a influência do poder. Ou seja, a classe política
justifica o seu domínio por meio de argumentos morais e valores partilhados por toda a sociedade.
Segundo Mosca, “a composição da classe política nunca foi determinada por um critério único, mas por uma mistura das diferentes qualidades evocadas” (Albertoni, 1990:73). Mosca pontua critérios de distinção entre a minoria privilegiada e a maioria subordinada como possibilidade de agregação à classe política, sendo eles o valor militar, a riqueza, o nascimento e o mérito pessoal. O valor militar exerce um papel fundamental, mesmo nas sociedades contemporâneas, em momentos de “desordem” social. A riqueza, por sua vez, é definida como critério real de participação na vida política (Hollanda, 2011). A força política da riqueza, pontua Mosca, reside em si mesma graças às vantagens que, necessariamente, confere a quem a possui (Albertoni, 1990). Referindo-se ao nascimento, este situa os homens em um universo de conhecimentos, valores e postura que os aproxima ou não dos modos de vida da minoria dominante. Já o mérito (pessoal) advém da qualificação pessoal, como diplomas e títulos. Ele não possui valor em si só, precisa ser reconhecido oficialmente. O mérito pessoal, portanto, poderia superar os efeitos sociais das marcas de origem (Hollanda, 2011). É importante salientar que estes três critérios não são anunciados pela elite, mas são utilizados por ela implicitamente a fim de legitimar o seu poder.
As análises feitas por Mosca nos permitem apontar que os fazendeiros de café do município de São Carlos compunham uma minoria dominante por meio de sua riqueza como também pelos cargos políticos que exerceram em nível local, estadual ou federal.