Como vimos, para Wilber, uma tentativa de integração entre ciência e religião só será efetiva caso cada um desses domínios – ciência e religião – ceda um pouco em suas tradicionais estruturas e postulados. Ceder, neste caso, significa estar aberto a críticas, mudanças e transformações.
Com o mesmo vigor crítico utilizado para reavaliar o usual entendimento da ciência, Wilber (2001a, p.129) compreende que a religião deveria alargar seu horizonte de compreensão ou, em seus próprios termos: “[a religião deveria] aceitar uma imagem mais autentica de suas possibilidades”. Assim, a religião para Wilber (idem) não deveria se limitar a conter asserções mitológicas, dogmáticas, éticas e morais. A dimensão crítica tão necessária à ciência deveria ser também uma exigência rigorosa da própria religião. Deste modo,
Depois das irreversíveis diferenciações da modernidade, a religião deveria indagar seriamente qual o conteúdo cognitivo e o valor real de suas reivindicações: Moisés realmente dividiu o Mar Vermelho? Jesus nasceu mesmo de uma virgem? A terra repousa de fato sobre uma serpente divina? A criação foi feita em seis dias mesmo? Lao Tsé tinha realmente novecentos anos quando nasceu? (Wilber, 2001a, p.129). Ainda assim, Wilber (2001a, p.130) reconhece a importância dos conteúdos mítico- dogmáticos no estabelecimento da vida cultural da humanidade. Porém, ele acredita que com a emergência do pensamento e das diversas teorias modernas e pós-modernas, tais conteúdos não deveriam mais fazer parte daquilo que ele próprio classifica como “autêntica espiritualidade”. Isto porque estas mitologias e dogmas não passam pelo simples teste das “três linhas válidas de todo o conhecimento”; certamente as asserções mitológicas não passariam pelo crivo pelo crivo de uma avaliação empírica mesmo em seu amplo entendimento. Por este simples fato, os aspectos mitológico-dogmáticos das religiões nunca poderiam se integrar com o verdadeiro caráter da ciência. Assim sendo, Wilber (2001a, p.131) conclui que “caso a religião deseje sobreviver no mundo moderno sob uma forma viável, ela
deverá dispor-se a se livrar de suas asseverações falsas, da mesma forma que a ciência restrita se dispõe a eliminar seu imperialismo reducionista”. Tendo em vista tais observações cabe, enfim, perguntar o que Ken Wilber entende ser propriamente a religião.
Esclarecendo a importância da tradição mística em sua concepção da religião, ele afirma:
É apenas quando a religião põe em relevo o seu coração, sua alma e sua essência, ou seja, a experiência mística direta e a consciência transcendental, reveladas não pela [via material da ciência], nem [pela via mental da filosofia], mas sim pela via [contemplativa da meditação], apenas assim a religião pode enfrentar a modernidade e oferecer algo de que esta precisa desesperadamente: uma injunção genuína, verificável e reproduzível, que possa dar origem ao domínio espiritual (Wilber, 2001a, p.133).
Por estas razões é que toda a espécie de conhecimento deveria proceder, de acordo com nosso autor, de uma legítima prática injuntiva, ou seja, práticas que podem ser expressadas por proposições do tipo “se quiser saber isso, faça isso”. Portanto, se alguém deseja estudar as crateras lunares, deve, primeiramente, utilizar-se de práticas que viabilizem a orientação material da ciência (recorrer ao uso de lunetas ou telescópios, por exemplo), atualizando, assim, o seu potencial sensório-motor; Igualmente, se alguém deseja compreender os fundamentos filosóficos de Pitágoras, deve fazê-lo através de apreensões mentais que são, por essência, não-sensoriais. Do mesmo modo, a verdadeira natureza do domínio espiritual deveria ser apreendida não apenas pelas vias materiais ou mentais – insuficientes – mas sim pela via contemplativa, “o coração da religião”. Incluindo, mas ao mesmo tempo transcendendo as vias materiais e mentais, a via contemplativa somente poderia ser alcançada através de uma autêntica prática espiritual.
Para que possamos compreender mais efetivamente aquilo que Wilber (idem, p.132) chama de “via contemplativa”, ele mesmo sugere que retomemos, primeiramente, a experiência dos fundadores das grandes tradições religiosas. Wilber indica que a história destes indivíduos singulares (Buda, Jesus Cristo, Maomé, Confúcio) retrata “profundas experiências espirituais”, que apontam ao homem a existência de uma ordem ou um ser divino, uma espécie de “consciência cósmica”, denominada de diferentes maneiras: Javé, Deus, Alá, Espírito, Vazio, Absoluto, Tao. No seu parecer tais experiências ou revelações não se referiam particularmente a mitologias ou dogmas, mas sim à possibilidade de contato entre o ser humano e essa dimensão de ordem sagrada. Assim sendo, Wilber entende que cada um desses grandes pioneiros espirituais ofereceu aos seus contemporâneos não uma série de crenças mitológicas ou dogmáticas,
[...] mas uma série de praticas ou injunções [...]: “Façam isso em memória de mim.” O “façam isso”, vale dizer, as injunções, contém tipos específicos de orações contemplativas, longas instruções de yoga, práticas específicas de meditação e verdadeiras [injunções] interiores: “Se você quer conhecer essa união divina, você precisa fazer isso” (Wilber, 2001a, p. 132).
Wilber (idem) acredita que a história da humanidade não se encontra repleta apenas de inúmeros exemplos destas experiências que colocam os indivíduos em relação com uma dimensão sagrada/divina. Encontra-se repleta principalmente de eventos que assinalam uma crescente expansão e evolução destas práticas espirituais. Para nosso autor, mesmo que grande parte da humanidade continue a experimentar uma realidade repleta de mitologias e dogmas, o ser humano pode caminhar na direção de um universo cada vez menos mítico e cada vez mais espiritual. Alguns exemplos desta “evolução espiritual” seriam o caminhar do budismo hinayana para mahayna e, depois para o budismo vajrayna; o refinamento do misticismo judaico para o hassidismo e para a Cabala; a primitiva interpretação hindu dos vedas para a leitura de Ramana Maharishi; dentre outros tantos casos. Para Wilber, todas essas experiências são exemplos de práticas injuntivas contemplativas que independem de asseverações mitopoéticas; além disso, são práticas disponíveis a todo e qualquer indivíduo, independente de afiliação religiosa. Todavia, Wilber (idem, p.133) assegura que muitas destas práticas, infelizmente, transmutaram-se em meros dogmas ou concepções mitológicas, corroendo assim o verdadeiro sentido da dimensão religiosa. O resultado deste processo foi uma transformação progressiva da verdadeira dimensão contemplativa em dimensão mental ou filosófica, o que, por fim, destitui a religião daquilo que era exclusivamente dela: a dimensão experiencial contemplativa. Na verdade, o problema das abordagens míticas à religião é que elas
Envolvem vários tipos de formas mentais para tentar explicar os domínios transmentais e espirituais. E embora essas abordagens tenham sido apropriadas a determinadas fases específicas da era mítica pré-moderna, elas não atuam mais num nível coletivo ou mesmo individual. A mitologia não resiste às irreversíveis diferenciações da modernidade. Ela confunde o pré-racional com o transracional; ela promove modalidades éticas e cognitivas regressivas; ela foge de todo tipo de reivindicação de validade e evidências reais. [...] Como a evidência invalida a mitologia, esta foge daquela (Wilber, 2001a, p.130).
Conseqüentemente, a religião autêntica não pode ser mítica, imaginária ou mitopoética – deve ser simplesmente contemplativa. Caso contrário, a ciência continuará tratando a religião como um campo de conhecimento inválido ou, na melhor das hipóteses, sem relação alguma com seus objetivos.