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O conflito com o Irã e a derrubada de Mossadegh

4. Os EUA e o petróleo do Golfo Pérsico até

4.12. O conflito com o Irã e a derrubada de Mossadegh

A assinatura do acordo de 50% a 50% pela Arábia Saudita desencadeou uma campanha pela nacionalização do petróleo iraniano. No início, os norte-americanos efetuaram gestões junto à Aioc e ao governo britânico para aceitar a partilha dos lucros na base do meio a meio. Truman temia que a onda nacionalista pudesse

levar o Irã à neutralidade na Guerra Fria e, além disso, considerava o monopólio da Aioc incompatível com a Política da Porta Aberta. Mas o Tesouro britânico não estava disposto a abrir mão de uma das suas principais fontes de receita. A Grã- Bretanha, devastada por duas guerras mundiais e abalada pela perda de sua principal colônia – a Índia –, enfrentava uma situação financeira difícil.

Kolko avalia que, ao endossar o princípio da partilha 50-50 para o petróleo de todo o Oriente Médio, o governo norte-americano sabotou a posição do seu aliado britânico na região (1988, 69). O principal risco para o Ocidente, na avaliação do Departamento de Estado, provinha de “elementos ultranacionalistas”, que tinham como alvo principal o imperialismo britânico e francês. A associação com as

potências européias, no raciocínio de Washington, ameaçava isolar os norte- americanos, abrindo caminho para a ascensão dos nacionalistas, o que punha em risco as concessões petroleiras (Kolko: 1988, 70). E o petróleo, de acordo com o Conselho de Segurança Nacional, era, em 1950, “a questão mais importante para os EUA no Oriente Médio”.

As negociações se arrastaram e a intransigência britânica intensificou o ímpeto dos nacionalistas. Quando, em 1951, os britânicos finalmente concordaram com a divisão 50-50, era tarde demais. No dia 7 de março, o primeiro-ministro Ali Razmara, de posições moderadas, que negociou a revisão da concessão, foi

assassinado. Uma semana depois, o Majlis (Parlamento) aprovou a nacionalização da Aioc. O principal líder nacionalista, Mohammed Mossadegh, um ferrenho opositor do xá, tornou-se primeiro-ministro. No dia 1º de maio, o xá Reza Pahlevi, sem meios de se contrapor à decisão do Parlamento, assinou a lei que tornava a Aioc uma propriedade iraniana. Os bens da companhia foram expropriados, sem compensação, e as tropas e os funcionários britânicos, expulsos do Irã. A Grã- Bretanha apelou para o Conselho de Segurança da ONU e para a Corte Internacional de Justiça, em Haia, mas seu pedido foi rejeitado nos dois

organismos, sob o argumento de que se tratava de uma disputa entre um país soberano e uma empresa, e não entre dois países, como alegavam os britânicos.

Os esforços da Casa Branca de obter uma solução conciliatória fracassaram. As esperanças de um recuo iraniano desapareceram quando Mossadegh criou uma empresa estatal petroleira, a National Iranian Oil Company (Nioc), ainda em 1951. As atitudes de Teerã já ultrapassavam, em muito, os limites que as autoridades de Washington estavam dispostas a tolerar. A radicalização do conflito levou os EUA a mudar sua posição, no início de 1952. O governo norte-americano não tinha interesse em romper completamente a aliança com a Grã-Bretanha e, sobretudo, temia que a postura de Mossadegh pudesse ameaçar as concessões petroleiras dos EUA em outros países do Oriente Médio. Funcionários do Departamento de Estado apoiaram a participação das majors norte- americanas no boicote mundial promovido pela Grã-Bretanha para impedir o Irã de comercializar o petróleo recém-nacionalizado. Para manter estável o fornecimento durante o boicote às exportações iranianas, as majors aumentaram sua produção no Iraque, Kuwait e Arábia Saudita. Em janeiro de 1953, quando o republicano Dwight Eisenhower sucedeu ao democrata Truman, as exportações iranianas tinham despencado de 666 mil barris/dia para apenas 20 mil barris/dia. Ironicamente, os primeiros a empregar a “arma do petróleo” foram os EUA e a Grã-Bretanha, e não os países produtores, como viria a ocorrer vinte anos depois.

A administração de Eisenhower endureceu ainda mais as posições contra o Irã. O governo norte-americano, preocupado com o aumento da influência esquerdista naquele país, rejeitou um pedido de ajuda de Mossadegh (um político anti-

comunista) e passou a agir nos bastidores, por meio da Agência Central de Inteligência (CIA) e em colaboração com o serviço secreto britânico, para a derrubada do regime parlamentar de Mossadegh por militares ligados ao xá. O

golpe, em agosto de 1953, resultou na instauração de um regime ditatorial sob o comando do xá, encerrando a breve experiência do Irã com a democracia8.

Nas negociações que se seguiram, o Departamento de Estado obteve uma solução altamente favorável aos interesses dos EUA. A exploração das reservas que antes pertenciam à Aioc foi entregue a um consórcio, com significativa

participação de empresas norte-americanas. O governo iraniano garantiu 50% dos lucros e reservou para a Nioc – cuja existência foi preservada – o petróleo situado fora da antiga concessão britânica. No novo arranjo, 32% das ações foram distribuídas, em partes iguais, às cinco majors dos EUA – Jersey, Mobil, SoCal, Texaco e Gulf – e 8% a um pool de doze empresas menores, integrantes das

chamadas “independentes”, num total de 40% para companhias norte-americanas. A British Petroleum (BP), como a Aioc passou a se chamar, ficou com outras 40%. A Royal Dutch/Shell recebeu 14% e a Compagnie Française des Pétroles, 6%. Como já havia ocorrido por ocasião do ingresso da Jersey e da Mobil na Arábia Saudita, o governo norte-americano impediu que a legislação anti-truste

inviabilizasse a transação.“Graças à estreita colaboração entre Washington e Wall Street, no final de 1954 o Irã tinha se juntado à crescente lista de nações do Oriente Médio cujos campos de petróleo tinham se juntado ao império de segurança nacional dos EUA” ( Little: 2004). O envolvimento norte-americano na derrubada de Mossadegh e o posterior ingresso de companhias petroleiras dos EUA no Irã imprimiu uma marca permanente na relação entre os dois países. Muitos anos mais tarde, o aiatolá Khomeini, ao comentar os eventos de 1953/54, escreveu que “o Irã tinha sido escravo da Grã-Bretanha num dia e da América no outro”.

8 Para um bom relato – em português – da participação da CIA na derrubada de Mossadegh,

recomendo Todos os Homens do Xá: O Golpe Norte-Americano no Irã e as Raízes do Terror no Oriente