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O conflito de responsabilidades e o erro moral inevitável

4.1 O argumento fenomenológico e a tese do resquício: fundamentos para a

4.1.4 O conflito de responsabilidades e o erro moral inevitável

Toda a defesa da teoria das responsabilidades para com pessoas foi feita para chegar a esse ponto: a afirmação de que há conflitos morais genuínos entres responsabilidades morais.

O principal motivo para responsabilidades conflitarem é porque elas se originam como respostas ao valor único e intrínseco de cada pessoa com a qual o agente tem alguma conexão. Quando as responsabilidades conflitam, o relacionamento do agente com a pessoa com quem tem a responsabilidade moral automaticamente também entra no conflito. Por isso, em tais situações é necessário adotar uma perspectiva mais ampla, para determinar o que se considerando todas as coisas é a melhor coisa a ser feita. Entretanto, Gowans (1994) elucida que casos como estes jamais poderão ser resolvidos com recorrência a uma perspectiva o mais ampla e geral possível, recorrendo-se a um princípio geral e primeiro como nas teorias do modelo de cobertura por leis.

Se um método para se resolver um conflito de responsabilidades fosse baseado no modelo de cobertura por leis, de acordo com Gowans (1994) seria da seguinte forma: Se revisariam as responsabilidades em jogo, mudando-se a percepção do agente acerca das mesmas e consequentemente os relacionamentos envolvidos com elas. Dessa forma, se encontraria a responsabilidade mais forte e se terminaria com uma decisão unívoca, essa é a solução metodológica familiar de se resolver um conflito entre conclusões deliberativas conflitantes, via TO. Contudo, é importante lembrar um aspecto muito importante da solução para conflitos de TO: ela era aplicada para casos onde se tinha intenções para agir conflitantes.

Entretanto, aqui entra o elemento novo do conflito de responsabilidades. Na concepção de Gowans (1994) elas não são o mesmo que intenções41 para agir, e por isso não se encaixam nesse esquema de resolução. A descoberta de que responsabilidades conflitam não acarreta uma revisão destas e a descoberta de que

41 Relembrando o que foi dito a respeito do conceito de “intenção” no terceiro capítulo deste trabalho, seção 3.3: “Dizer que um agente “intenciona” fazer algo é mais do que simplesmente dizer que ele queira fazer algo. É como dizer que ele tenha um “plano” de fazer determinada ação”.

duas conclusões deliberativas conflitam é que acarreta uma revisão, pois implica que se descarte aquela que foi falsa. Embora responsabilidades morais estejam conectadas com a ação e sejam em certa medida prescritivas, elas envolvem muito mais do que mera intencionalidade: envolvem crenças sobre quem o agente é, sobre o valor das pessoas envolvidas, sobre o relacionamento com estas pessoas. Abandonar uma responsabilidade sempre envolverá uma mudança, por menor que seja, no relacionamento com a pessoa para com a qual se tinha a responsabilidade. Não é possível afirmar de uma hora para outra “não sou mais responsável por tal pessoa” sem que isso afete o relacionamento com a mesma. É por isso que o agente resistirá em simplesmente abandonar ou descartar uma responsabilidade da mesma forma que descarta uma conclusão deliberativa incorreta.

No momento do conflito, o agente só fará aquilo que tiver a possibilidade de fazer, contudo, o reconhecimento de que não pode cumprir todas as responsabilidades para com as pessoas envolvidas faz toda a diferença: se ele manifesta este reconhecimento e revela a tua impotência em cumprir as responsabilidades para as mesmas, ele assegura que reconhece o valor intrínseco de cada uma.

Dessa forma, Gowans (1994) deixa claro que o objetivo em um conflito de responsabilidades não é o mesmo que em um conflito de conclusões deliberativas, que é “agir pelo melhor”. Em um conflito de responsabilidades essa expressão perde o sentido, pois tudo que o agente quer é responder apropriadamente a cada uma das pessoas com as quais ele está relacionado e tenha senso de responsabilidade.

O fato de não cumprir uma responsabilidade em um conflito de responsabilidades fornece uma explicação adequada aos sentimentos de aflição moral como propostos pelo argumento fenomenológico. O exemplo de Craig, utilizado na subseção 4.1.1 ilustra essa colocação além de fornecer uma justificativa também para o erro moral inevitável. Cada uma das responsabilidades de Craig diz respeito ao valor intrínseco das pessoas envolvidas (do seu amigo, e das meninas) e também ao relacionamento que ele tem para com elas. No caso de seu amigo Roberto, há uma relação de amizade e no caso das meninas, ele não tem o direito de assustá-las ou roubar seu carro, pois são seres possuidores de valor intrínseco que não merecem esse tipo de tratamento. Portanto, o que quer que Craig escolha nessa situação, fará algo moralmente errado. Violar responsabilidades morais lembra Gowans (1994) é o mesmo que violar valores morais. “Em uso ordinário erro

moral se refere a uma transgressão ou violação de algum valor moral” (GOWANS, 1994, p. 136).

Além disso, a afirmação de que apenas a violação de uma conclusão correta de deliberação consiste em um erro não é uma verdade conceitual auto-evidente, lembra Gowans (1994). Esta é uma afirmação de algumas teorias morais.

Outro conceito faz com que a doutrina do erro moral ligado aos sentimentos de aflição moral faça sentido na teoria das responsabilidades, é o conceito de “inconversibilidade” (inconvertibility). Para demonstrá-lo Gowans (1994) faz uso de um exemplo não moral, assim suponha-se que se tenha a opção de fazer dois investimentos. Um deles dará um retorno de $50.000,00 e o outro um retorno de $100.000,00, e em todos os outros aspectos eles são iguais: segurança, liquidez, etc, obviamente o segundo investimento é o melhor, e é natural que se escolha por ele, não apenas ele é o melhor, como oferece algo a mais: $50.000,00. Passa-se para outro tipo de exemplo: estético, então suponha-se que o agente não sabe qual quadro escolher: um Degas ou um Kandinsky, ambos ficam adequados no lugar em que pretende colocá-los. Aqui também pode haver a melhor escolha, o Kandinsky, por exemplo, contudo, diferente do primeiro exemplo, o Kandinsky não oferece tudo o que o Degas oferece e mais alguma vantagem, como no caso do investimento, que apresentava $50.000,00 a mais, pois no caso dos quadros, os valores das pinturas são incomensuráveis.

Há sempre como realizar comparações entre as duas pinturas, evidentemente. Mas o que a escolha dos quadros não tem, que a escolha do investimento tem é “conversibilidade” (convertibility). Escolhas são conversíveis quando a melhor escolha não resulta em nenhuma perda e ainda apresenta algum ganho, nesse tipo de escolha, sentir qualquer espécie de aflição ou arrependimento não faz sentido. Quando as escolhas não apresentam essa característica, ou seja, são inconversíveis, mesmo a melhor escolha resulta em uma perda (o prazer de ter um Degas, por exemplo).

Gowans (1994) esclarece que na teoria das responsabilidades para com pessoas, as escolhas morais onde o erro moral é inevitável são análogas à escolha entre as duas pinturas. São escolhas onde há comparabilidade entre as alternativas, mas não conversibilidade e pode ser objetado que isso só seja possível entre duas responsabilidades de tipos diferentes, contudo, pode ser o caso de haver uma situação de escolha entre duas responsabilidades de mesmo tipo, por exemplo,

promessas feitas a duas pessoas. Ainda sim, a inconversibilidade pode ser invocada: manter a promessa feita a uma das pessoas, mesmo que seja a melhor escolha, não oferecerá ao agente tudo que a “pior” escolha ofereceria e mais um pouco.

É por tudo isso que a teoria das responsabilidades para com pessoas lida com o argumento fenomenológico e oferece fundamentação para TR como nenhuma outra. Pois, quando o agente deparar-se com um conflito de responsabilidades, terá de optar por uma delas acabará deixando uma para trás e isso consistirá no abandono de um valor moral. O erro moral inevitável estará, portanto, justificado e os sentimentos de aflição que o acompanham também, neste sentido a teoria das responsabilidades para com pessoas demonstra, portanto, que pode haver casos onde o erro moral seja inevitável ao agente.