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2.4 A SOCIOLOGIA DOS CONFLITOS

2.4.1 O conflito e a convergência de interesses

Entendemos que existam algumas propriedades presentes nos conflitos que merecem especial atenção para o desenvolvimento da presente análise. Simmel (1983) explica que o conflito não é só o momento onde as divergências estão sendo debatidas, sempre na direção da resolução, mas é o fenômeno através do qual se desenvolvem os sentidos de cooperação e ajuda mútua, que surgem, ao menos teoricamente, também com a finalidade de resolução. Uma das forças presentes no conflito que chama a atenção em particular, é a convergência de interesses, segundo a qual podem ocorrer novos arranjos e estratégias a serem lançadas no campo de disputa para alcançar um posicionamento legítimo perante a sociedade das questões que estão no cerne do debate, bem como das mais sutis.

De fato, como já foi visto, o conflito possui a capacidade de produzir e modificar grupos de interesse, possibilitando “momentos de construções e destruições, quer sob as instituições, estruturas, arranjos, processos, relações e interações sociais” (ALCÂNTARA JÚNIOR, 2005, p. 8). Neste sentido, Simmel analisa que as formas de sociação (neste caso particular, o conflito) estão carregadas de sentidos diretamente inversos em que as forças de repulsa não seriam fatores isolados e livres de absorção ou influências, ou seja, quando em contato com as forças de cooperação e a convergência de interesses produzem formas e distinções grupais (SIMMEL, 1983). Assim, é possível visualizar, por exemplo, os lados conflitantes absorvendo as mais diversas questões de variadas maneiras, possibilitando-se a si mesmas a reformulação de suas estratégias.

Entretanto, entendendo que a convergência de interesses é uma das decorrências mais comuns no interior do conflito, é necessário fazer referência ao nosso campo de análise.

Neste sentido, reforçamos que esta força será priorizada como uma das maneiras de entender como alguns agentes deste campo se comportam face às adversidades surgidas no interior da oposição, e como os grandes dilemas podem incorporar-se como estratégias dos grupos que defendem a construção de Belo Monte. Desta forma, observamos que alguns dos problemas amplamente questionados dentro deste processo estejam tecnicamente resolvidos, como é proferido nos discursos. Isto é determinante para os encaminhamentos dados à hidrelétrica de Belo Monte, sobretudo no seu licenciamento. Neste caso, as questões serão aqui incorporadas de maneira diferenciada, na qual analisamos a presença de um sentido muito recorrente no campo que é a de “criar alternativas” às contradições, onde ocorre frequentemente a anulação do discurso do outro. Vendo desta forma, alguns conteúdos teoricamente incompatíveis acabam por ser incorporadas como estratégias, sejam eles advindos da própria experiência dos agentes no campo, como do que o outro apresenta como causa do conflito.

No caso de Belo Monte, é notado ao longo da história, uma serie de novos posicionamentos decorrentes do próprio curso dos conflitos. As disposições dos agentes e instituições que se modificam são frutos dos mais diversos fatores ligados à questão hidroelétrica no Brasil. Isto não fica restrito aos impactos e à desigualdade estabelecida a partir da relação do setor elétrico brasileiro com grande número de indivíduos e comunidades atingidas pelos efeitos deletérios atribuídos à uma hidrelétrica; e abrange também questões mais gerais localizadas no próprio modelo de desenvolvimento, além da questão ambiental como um potencial problema a ser enfrentado no campo destes empreendimentos. Na realidade, tais fatores não estão necessariamente separados e serão melhor detalhados adiante. Importa dizer que as ações direcionam-se a partir dos próprios conteúdos debatidos e consecutivamente incorporados pelos agentes presentes no campo, trata-se, de fato, da formação do habitus destes agentes.

É interessante analisar, neste sentido, que, mesmo incorporadas às estratégias de parte dos agentes do campo, as questões mais sensíveis aqui identificadas, como participação em processos decisórios, o desenvolvimento e o meio-ambiente, não abandonam a linha de frente como as questões mais problemáticas ligadas a este projeto. Então, teriam estas questões realmente sido de fato resolvidas pelo lado proponente de Belo Monte? Ou esta resolução cabe somente aos discursos e a forças que utilizam de um melhor aparato técnico- institucional e financeiro para “anular” a validade do discurso do outro sobre as mesmas questões?

É pertinente pensar este processo segundo o próprio Simmel (1983, p. 126), que coloca que “o desaparecimento de energias de repulsão não resulta sempre, em absoluto,

numa vida social mais rica e mais plena [...]”, e que a ocorrência disto é algo irrealizável, ou seja, mesmo que o conflito presuma a resolução, ela nem sempre vai acontecer mesmo que, aparentemente, os problemas estejam resolvidos. Assim coloca Simmel:

Nossa oposição nos faz sentir que não somos completamente vítimas das circunstâncias. Permite-nos colocar nossa força à prova conscientemente e só dessa maneira dá vitalidade e reciprocidade às condições das quais, sem esse corretivo, nos afastaríamos a todo custo. A oposição alcança esse objetivo mesmo onde não existe nenhum êxito perceptível, onde este não se torna manifesto, mas permanece totalmente oculto (SIMMEL, 1983, p. 127).

No caso de Belo Monte, a continuidade do conflito é vista, segundo sugere Simmel, como algo positivo, em função de que a não-aceitação das “resoluções” impostas, sugere a busca por condições menos arbitrárias nas relações entre os agentes presentes neste campo.

Isto é importante, porque, entendemos que a oposição seja um fator muito rico para a análise, muito embora este não seja o foco do trabalho, pois serve para enfatizar o conflito como um todo, já que, assim como os sentidos de cooperação e a convergência de interesses não produzam por si sós a sociação, a oposição e o antagonismo, igualmente, não produzem. Mas, o mais importante é, sobretudo, entender como os próprios conteúdos abordados pela oposição podem ser convertidos pelo outro lado conflitante no sentido de enriquecer e/ou validar a argumentação de seu posicionamento. Vale lembrar que a convergência de interesses é uma propriedade presente em todo o campo, ou seja, todo e qualquer agente pode fazer e desfazer alianças de cooperação a todo o momento.

Por isso, observamos, através da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, como o conflito social apresenta-se como um elemento estruturante nas relações sociais. E, em se tratando de áreas de fronteira de recursos como é a região da Transamazônica e Xingu, não podemos deixar de considerar como os conflitos sociais reorganizam as ações coletivas e, também, a própria posição do Estado em relação à exploração e apropriação da terra e dos recursos naturais. Sobretudo nesta região do Pará, podemos destacar que a longa trajetória de conflitos fundiários e pelo uso e apropriação de recursos percorrem todas as instâncias da vida social, provocando reestruturações constantes sobre o território. Belo Monte se insere como um dos fatores presentes no contexto de disputas daquela região, em razão de se tratar de um conflito em torno de usos divergentes dos recursos, e, neste caso, estende-se aos problemas relativos à terra na região, o que evidencia, entre outras questões, a luta de grupos pela sua permanência no território e os avanços da fronteira do desmatamento na Amazônia mediante à construção de empreendimentos que produzem desestruturação e reestruturação das relações sociais no contexto em que se inserem e além deles.