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A LUTA PELA CONQUISTA DA TERRA DO P.A TRÊS IRMÃOS

3.3 O conflito entre os camponeses e o Estado

O primeiro conflito, do qual os camponeses participaram diretamente, aconteceu no final da década de 1980 e contou com a participação das famílias que já residiam na região há bastante tempo e que tinham a posse dos lotes. Muitas dessas famílias já estavam ali no período de construção da Barragem de Pilões, portanto, já estavam territorializadas. O fato que desencadeou a revolta dos camponeses foi a falta de respeito de Abel Dantas que, por mais de um ano, obrigou-os a pagar a renda e a entregar os lotes antes do período de colheita o que trouxe grandes prejuízos aos camponeses que dependiam da produção para garantir a sua sobrevivência.

Na época, o coordenador da Diocese de Uiraúna/PB era o Padre Cleides Domingos, que também era o vigário da Paróquia do Menino Jesus em

64 Arcanjo é filho de Francisco Gabriel, posseiro nas terras do ainda Sítio Três Irmãos e na época

estudante na cidade de Uiraúna.

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Triunfo/PB. Ele e alguns agentes pastorais, como Socorro Gouveia66, faziam um

importante trabalho de catequese na região através da Pastoral Rural. Por intermédio de Arcanjo Gabriel essa equipe ficou a par da situação dos camponeses de Três Irmãos e passou a acompanhar e a fazer algumas “reuniões secretas” – por receio de alguma represália – no sítio, com o intuito de ajudar a pensar numa solução para o caso.

Como vimos anteriormente, na década de 1980, já se presenciava alguns conflitos por terra no estado que resultavam em ocupações através de acampamentos. Para os camponeses, a única forma de lutar pelo direito ao acesso e posse dos lotes seria a união dos posseiros numa ocupação das terras de massapê.

Ao saber da decisão dos trabalhadores, Padre Cleides enviou uma equipe da Pastoral Rural para acompanhá-los. Em entrevista, Socorro Gouveia nos contou que ao chegarem à área de massapê encontraram 43 posseiros ocupando a área e discutindo com Abel Dantas, que estava acompanhado de alguns policiais do município de São João do Rio do Peixe. Para Socorro, o clima era de tensão, pois os posseiros estavam dispostos a permanecer e lutar pelas terras do massapê que, oficialmente, pertenciam ao Estado. A notícia logo se espalhou.

Chico Salú67 nos relatou que, naquele dia, apareceu na área de massapê

um conhecido vereador da cidade de Triunfo/PB, chamado Chico Cândido, que, ao saber da notícia, propôs-se a conversar e entrar em um acordo com os rendeiros. A proposta dada pelo vereador era a de que poderia agendar uma audiência com o governador do estado na época, Tarcísio de Miranda Burity – que estava para visitar a cidade de Triunfo na mesma semana, e tentar encontrar uma solução para o conflito que se instalava entre os camponeses posseiros e o administrador das terras do DNOCS. Contudo, no dia da audiência agendada com o governador do estado, o vereador Chico Cândido não apareceu e nem deu satisfação de sua ausência.

66 Socorro Gouveia é uma das líderes da CPT-Sertão tendo sido sua coordenadora por longo

tempo.

67 O Sr. Chico Pinto (Francisco José Pinto), era conhecido na comunidade como Chico Salú ou

“Seu” Chico. Durante o texto, optamos pelo uso do nome Chico Salú, no intuito de evitarmos comparações com a família Pinto (latifundiários da Bacia de Pilões), citada no decorrer do texto. Apesar de homônimos, não existe parentesco entre eles.

Quando os camponeses ficaram sabendo que ele não tinha cumprido com o trato, não se deixaram enfraquecer e decidiram que eles mesmos teriam a audiência com o governador. Conseguiram, então, uma caminhonete e seguiram para a cidade de Triunfo em direção à prefeitura, onde estava o Sr. Tarcísio Burity. Chegando lá, os posseiros não conseguiram a audiência de imediato, tendo que solicitar o apoio de Pe. Cleides que, “como uma autoridade religiosa de respeito”, seria atendido pelo governador.

E assim, a pressão dos camponeses que se encontravam na entrada da prefeitura, e a presença do Padre Cleides, que serviu de intermediário entre as partes, fez com que o governador atendesse a solicitação da audiência. Chico Salú nos contou que pela primeira vez os camponeses estiveram cara-a-cara com o governador, reivindicando o direito à posse definitiva dos lotes. Ele nos disse que não foi fácil, já que sabiam que “estavam entrando na briga dos grandes”, mas que também não iriam desistir já que tinham chegado tão longe. Segundo ele:

Quando a gente chegou lá, ele [o governador] não queria receber a gente não. Lembro que Arcanjo e Pe. Cleides estavam lá. E eles reprimiram o Arcanjo. Mas ouviram o Pe. Cleides e depois ouviu o que a gente tinha a dizer. (depoimento do Sr. Chico Salú em entrevistada realizada em 11 de outubro de 2009).

É importante destacar que, para os camponeses (que, durante muito tempo, sofreram os abusos de poder, as perseguições e a subordinação aos donos das terras daquela região), o fato de enfrentarem o temido Abel Dantas e, em seguida, conseguir uma audiência com o Governador do estado, representava um grande passo e também um avanço na luta camponesa no sertão paraibano.

Com o apoio dos membros da Diocese e da Pastoral Rural68, reivindicaram ao governador a permissão de continuarem nas terras, mas agora de forma definitiva. Durante a audiência, os mesmos tiveram o direito à fala e contaram tudo que já tinham passado, assim como, todo o sofrimento de trabalharem nas terras que não lhes pertenciam e de terem que obedecer às imposições de alguns

68 O trabalho da Pastoral Rural na região serviu como base para a criação da Comissão Pastoral

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senhores, que se apropriavam do cargo do DNOCS para se beneficiarem do trabalho alheio. Também falaram do abuso que era o pagamento da renda da terra, das constantes expulsões dos lotes, da retirada da produção antes do período certo e da introdução do gado nas plantações.

Ao final desse importante encontro, foi feito um acordo: as terras seriam entregues aos camponeses em lotes de três à cinco hectares e esse processo de distribuição dos lotes seria acompanhado por técnicos do INTERPA69. Segundo Vicente da Viúva,

onde se localizava o massapê descoberto e sem pedra, foram distribuídos lotes de até 3,3 hectares; nos lugares onde o solo era ruim, os lotes chegavam a 5 hectares. Lá eles poderiam produzir seu alimento e construir suas casas, sem ter que pagar mais renda aos fazendeiros. Os lotes foram distribuídos entre as cem famílias que participavam do conflito. (depoimento de Vicente da Viúva, entrevistado em: 31 de julho de 2010)

Apesar do senhor Vicente da Viúva referir-se a cem famílias, a divisão dos lotes foi feita entre apenas 71, dentre as que estavam participando diretamente do conflito. Segundo Moreira (1997), se fosse considerado o número total de famílias que pagavam a renda da terra, este número chegaria próximo de cento e cinquenta como pode ser constatado na citação seguinte.

Haviam famílias que residiam e trabalhavam na terra desde a construção da barragem, outras que chegaram depois e ocuparam pequenos lotes, deles retirando, ao longo dos anos a sobrevivência da unidade familiar, sem nunca ter obtido os títulos definitivos das terras. Apesar de estimar em cerca de 150 o número de famílias ali existentes, nem o INTERPA, nem o DNOCS tinha um cadastro atualizado da população local (MOREIRA, 1997, p. 857).

Assim, registrou-se na história das lutas camponesas na Paraíba mais um capítulo de conquista, pois os camponeses garantiram a posse dos seus lotes nas

69 Instituto de Terras e Planejamento Agrícola da Paraíba - foi criado em novembro de 1991, fruto

da junção da Comissão Estadual de Planejamento Agrícola (Cepa) e da Fundação de Desenvolvimento Agrário da Paraíba (Fundap). Ver: http://www.interpa.pb.gov.br/historia.html - Acesso em: 18 de novembro de 2009.

terras do massapé e criaram o Assentamento Três Irmãos. Outra notícia boa para os camponeses foi o afastamento de Abel Dantas da administração do DNOCS. Mas, infelizmente, eles não conseguiram os títulos definitivos e nem o apoio do Governo para a construção das casas ou compra de novas ferramentas. Chegava-se ao fim do primeiro conflito, que se configurou apenas como o início da luta.

3.4 Apesar da conquista, a luta persiste: o segundo conflito

Como vimos anteriormente, a distribuição dos lotes no primeiro conflito não atendeu à demanda de todas as famílias. De fato, algumas não acreditaram que a luta tivesse um resultado positivo e não se arriscaram a participar da ocupação das terras do massapê, ficando de fora do loteamento feito pelo INTERPA.

Vimos que, no primeiro conflito, trinta e seis famílias, inicialmente, acreditaram que poderiam lutar e conseguiram o direito de posse das terras do massapê, em princípio provisório, mas que permitiu o uso delas durante todo o ano, sem o pagamento da renda da terra, nos períodos de chuva ou seca. Assim, garantiram o plantio e a colheita dos alimentos necessários à subsistência das famílias. Ao final do conflito, foram distribuídos 7170 títulos provisórios de posse das terras aos camponeses que participaram do conflito e que já moravam na área há bastante tempo71.

Esse fato motivou os camponeses que já tinham adquirido os seus lotes – como resultado da primeira luta por terra - a incentivar os que não tinham terra própria72 a se organizarem e lutarem por algumas áreas consideradas improdutivas existentes nas proximidades do Assentamento. As terras improdutivas faziam parte de algumas fazendas pertencentes aos grandes fazendeiros da região.

70 Os 71 títulos foram distribuídos entre as 36 famílias iniciais mais 35 famílias que, posteriormente

ao “primeiro conflito”, foram se somando à luta pelo acesso à terra e água.

71 Jornal Correio; Paraíba, 28 de julho de 1991.

72 Nesse período, os camponeses que já moravam na região se organizaram para convidar seus

familiares, amigos ou outras famílias que já moravam nas cidades próximas, como: Triunfo, São João do Rio do Peixe, Bernardino Batista, Cajazeiras, entre outras.