Princípio 17 ņ A avaliação de impacto ambiental, como instrumento nacional,
9. COMPETÊNCIA PARA O LICENCIAMENTO
9.5. O conflito na UHE Peixe-Angical do Rio Tocantins
A competência para o licenciamento, por envolver a interpretação de normas muitas vezes lacunosas, como foi visto acima, também não escapou da apreciação judicial.
Como exemplo, especificamente, citamos a construção das Usinas Hidroelétricas de Lageado e Peixe-Angical, as duas no Rio Tocantins, no Estado do Tocantins, que motivaram a intervenção do Ministério Público Federal para buscar estabelecer, em Ação Civil Pública, a competência do IBAMA para conduzir o processo de licenciamento, ainda que este órgão houvesse se mantido alheio quanto ao assunto, justificando que a construção de UHE Peixe-Angical envolve alagamento de vasta área do cerrado e, principalmente, porque também não se poderia olvidar que o Rio Tocantins, a ser afetado pelo empreendimento, se trata de um bem de domínio da União, atravessando vários estados da Federação.
Neste caso, entendeu o Ministério Público Federal que se configuram razões suficientes para concluir, em âmbito preliminar, que o licenciamento ambiental deveria atender ao disposto no artigo 10 da Lei nº 6.938, de 31 de agosto de 1981, que trata dos empreendimentos e atividades com significativo
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Resolução CONAMA n° 237: Artigo 18 - O órgão ambiental competente estabelecerá os prazos de validade de cada tipo de licença, especificando-os no respectivo documento, levando em consideração os seguintes aspectos:
I – o prazo de validade da Licença Prévia (LP) deverá ser, no mínimo, o estabelecido pelo cronograma de elaboração dos planos, programas e projetos relativos ao empreendimento ou atividade, não podendo ser superior a 5 (cinco) anos;
II – o prazo de validade da Licença de Instalação (LI) deverá ser, no mínimo, o estabelecido pelo cronograma de instalação do empreendimento ou atividade, não podendo ser superior a 6 (seis) anos;
III – o prazo de validade da Licença de Operação (LO) deverá consignar os planos de controle ambiental e será de, no mínimo, 4 (quatro) anos, e, no máximo, 10 (dez) anos.
impacto ambiental de âmbito nacional ou regional combinado com o art. 4.° da Resolução CONAMA n° 237/97, bem como regula as relações entre os diversos organismos estatais, na medida que traz definições de impacto regional; inclui a dominialidade de certos bens, como por exemplo do mar territorial; e define alguns aspectos importantes nos processos de licenciamento envolvendo bens da União. Saliente-se que não houve delegação para condução do processo de licenciamento ambiental da Usina Peixe-Angical por parte do IBAMA em favor da NATURATINS, conforme permite o § 2.°, art. 4.° da Resolução 237/97 do CONAMA.
A controvérsia em apreço teve início com o licenciamento da UHE Lageado, conduzido pelo órgão ambiental estadual do Estado do Tocantins, ou seja, o Instituto da Natureza do Tocantins ņ NATURATINS. Evidentemente, a UHE foi realizada sem a participação do órgão federal, no caso o IBAMA, na condução do processo de licenciamento e construção, ao não assumir a competência para tal, deixando de adotar as providências necessárias ao deslinde da controvérsia. Portanto, neste caso não caberia mais questionar acerca da competência para o licenciamento da UHE Lageado.
Ocorre que, em seguida à construção da UHE Lageado, foi celebrado novo contrato de concessão para a construção da UHE Peixe-Angical, em 07/11/2001, no mesmo rio, com previsão de início imediato da instalação do canteiro de obras. Desse modo, deu-se início à fase de instalação tendo o órgão estadual ņ NATURATINS, procedido a expedição da respectiva Licença de Instalação (LI), posto que se considerava competente para a expedição das licenças em apreço, em face da restrição estadual dos impactos ambientais, fundamentado na legislação ambiental estadual.
Diante da controvérsia, houve por bem o Ministério Público Federal intervir na questão argüindo a ilegalidade da expedição de licença ambiental por órgão incompetente, através da interposição de Ação Civil Pública, protocolada e distribuída ao Juízo da 1.ª Federal da Seção Judiciária do Estado do Tocantins, tendo como requeridos o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos
Renováveis - IBAMA, o Instituto Natureza do Tocantins ņ NATURATINS e a empresa construtora ņ ENERPEIXE, na qual se requeria o provimento judicial para que o NATURATINS se abstivesse de conduzir o processo de licenciamento ambiental das obras da UHE Peixe, reconhecendo-se a nulidade do processo de licenciamento ņ Termo de Referência do EIA-RIMA e da Licença Prévia (LP) ņ expedida pelo NATURATINS, referente à obra da hidrelétrica mencionada.59
Embora a ação ainda se encontre em grau de recurso, foi proferida sentença, em 28/12/2002, julgando procedente a Ação Civil Pública, promovida pelo Ministério Público Federal, para declarar o IBAMA competente para conduzir o processo de licenciamento ambiental da UHE Peixe, determinando ao NATURATINS a remessa ao IBAMA de todo o processo de licenciamento, abstendo-se de expedir licenças ambientais inseridas na atribuição do IBAMA.
O fundamento adotado pelo Juízo para a decisão judicial constituiu-se na inexistência de controvérsia acerca de que a obra da UHE Peixe-Angical seria instalada no leito do Rio Tocantins, cujo lago formado pela barragem possuiria uma área aproximada de 294 km² e atingiria diretamente os municípios tocantinenses de São Salvador, Peixe, Paranã e Palmeirópolis, bem como o próprio projeto inicial fora modificado para incluir a construção de quatro conjuntos hidrogeradores, visando minimizar o impacto ambiental. Outra razão para decidir encontra-se na Constituição Federal que expressamente adotou o federalismo como forma de Estado, em que os Estados ao ingressarem na Federação perdem a soberania, conservando apenas uma autonomia político-administrativa limitada e, neste caso, dentre os princípios que regem o Federalismo figura o da repartição constitucional de competência entre União, Estados-Membros, Distrito Federal e Municípios. Como a construção da UHE Peixe se daria no Rio Tocantins, que é bem da União, por banhar os Estados de Goiás, Tocantins, Maranhão e Pará, como preconiza o art. 20, III, Constituição Federal de 1988, a competência para licenciar a obra da UHE Peixe-Angical certamente seria da União, independendo
59 Ação Civil Pública: processo n.° 2001.43.00.002955-1 – 1.ª Vara Federal da Seção
Judiciária do Estado do Tocantins da 1.ª Região ņ autuada em 27/11/2001. Atualmente em grau de Recurso de Apelação no Tribunal Regional Federal da 1.ª Região, desde 25/07/2003.
de haver ou não repercussão regional, pois a se admitir que o órgão estadual viesse a fiscalizar e conceder licença para construção de obras em bens da União, estar-se-ia admitindo intervenção do Estado-Membro na União, o que ofenderia o sistema constitucional em vigor.
Acrescente-se a isso o disposto no art. 20 da Resolução CONAMA n.° 237/97, que condiciona os entes federados, para exercerem suas competências licenciatórias, à implementação dos Conselhos de Meio Ambiente, com caráter deliberativo e participação social. Entretanto, conforme inferiu-se dos documentos juntados aos autos, o Estado do Tocantins ainda não possuía Conselho Estadual do Meio Ambiente em funcionamento, pois não se havia dado posse aos respectivos Conselheiros, prevista para o dia 17/12/01, e que foi adiada inexplicavelmente sine die, impedindo que o órgão estadual pudesse conceder licenciamento ambiental, em qualquer das hipóteses.
Evidencia-se, portanto, que apesar da legislação específica, subsistem entendimentos desfocados, gerando conflitos entre órgãos federais e estaduais, o que se deve a uma legislação ainda pouco clara e necessitando de regulamentação mais eficaz, pois do contrário estar-se-á batendo às portas do Judiciário para decidir sobre a competência a cada novo empreendimento de alto impacto ambiental.