• Nenhum resultado encontrado

O “Conhece-te a ti mesmo”

CAPÍTULO 2: INTERIORIDADE E PRESENÇA DE DEUS

6. O “Conhece-te a ti mesmo”

A alma humana precisa se conhecer para diferenciar o conhecimento que ela tem de si do conhecimento que ela adquire de outras experiências sensitivas e intelectivas,

114 AGOSTINHO. Confissões X: 27, 38.

pois a alma recolhe por ela mesma todos os conhecimentos das realidades incorporais, entre eles o conhecimento que ela tem de si mesma.

Como é possível uma mente conhecer outras mentes, se não se conhece a si mesma? Não se diga que é como acontece com o olho do corpo, que pode ver os olhos dos outros sem que veja os seus próprios. Enxergamos os seres corpóreos por meio dos olhos corporais, mas não podemos refratar e fazer refletir sobre nós mesmos os raios que emitem e tocam tudo o que enxergamos, a não ser por meio de um espelho. (...) Contudo, de qualquer modo que se encare essa força que permite a nossa visão, seja ela irradiação ou outra coisa, temos a certeza de que se pudermos ver essa tal força não será com os olhos do corpo. (...) Portanto, assim como a mente adquire noções sobre coisas corpóreas servindo-se dos sentidos corporais, do mesmo modo, em relação às realidades incorpóreas, ela as adquire por si mesma. Logo, a mente conhece-se a si mesma, por si mesma, por ser incorpórea. Pois se não se conhecer a si mesma não poderá amar a si mesma116.

Porque a alma se conhece por si mesma, sem a mediação de qualquer coisa que seja ela mesma, nada é mais manifesto que a sua própria existência.

Ao dizer que sabemos o que é uma alma (animus), não o dizemos com incoerência, pois nós também temos uma alma. Não porque a tenhamos visto com os olhos do corpo e tampouco por termos percebido por uma noção geral ou especial, ou pela semelhança com outras muitas coisas por nós vistas. Mas como acabo de dizer, sabemos por termos uma alma. O que há que se conheça mais intimamente e leve a pessoa a sentir-se ela mesma do que esse princípio que nos faz sentir as demais coisas? Conhecemos por comparação a nós mesmos, os movimentos dos corpos que nos fazem perceber que outros além de nós estão vivos117.

A alma sabe que vive e que é, mas muitas vezes faz uma imagem distorcida de si mesma. A alma precisa do preceito para jamais se esquecer que ocupa um lugar intermediário entre Deus que a rege e os seres que são por ela regidos.

Por que então é dado um preceito à alma para que se conheça a si mesma? Conforme creio, é para ela se pensar em si mesma e viver de acordo com sua natureza, ou seja, para que se deixe governar por aquele a quem deve estar sujeita, e acima das coisas que deve dominar. Sob aquele por quem deve ser dirigida e sobre aquilo que ela deve dirigir118.

É preciso pensar sobre sua própria existência para que, sabendo o que é, viva conforme sua natureza. “Uma coisa é não se conhecer e outra não pensar sobre si

116 AGOSTINHO. A Trindade IX: 3, 3. 117 AGOSTINHO. A Trindade VIII: 6, 9.

mesma”119. A alma deve, pois, pensar em si mesma, cuidando para não se apegar às imagens corpóreas.

Mas como (a alma) se habituou a colocar amor nas coisas em que pensa com amor, ou seja, às coisas sensíveis ou corporais, não consegue pensar em si mesma sem essas imagens corporais. Daí nasce o vergonhoso erro de ver-se impotente para afastar de si as imagens das coisas sensíveis, a fim de contemplar-se a si mesma em sua pureza120.

Julgando ser um corpo ou confundindo-se com as coisas sensíveis, a alma erra na forma de se reconhecer, daí a importância do preceito para que a alma jamais esqueça do que realmente é. O “conhece-te a ti mesmo” é, portanto, a via da autoconsciência e não a prova de sua existência, uma ascese e não uma descoberta, quando a alma se aplica em discernir o que ela é daquilo que ela não é.

Para além de qualquer ligação com uma purificação moral, o preceito busca assegurar à mens o conhecimento ordenado de si. É acima de tudo um convite para realizar uma conversão a si, quando a mens, saindo de si mesma, inclinou-se à exterioridade.

O preceito exorta a alma a fazer a passagem da notitia sui ao cogitatio sui, o que equivale a fazer um giro para a interioridade e à reflexão.

Mas se o espelho não pode ser referência para o conhecimento de si mesma, a alma se conhece por uma intuição dela mesma, pois ela está presente a si mesma no momento em que se procura.

É, portanto, um conhecimento que se desenvolve no ato mesmo de se conhecer, quando a alma, toda inteira, se conhece intuitivamente, pois “quando se diz: “conhece- te a ti mesma”, no mesmo ato em que ela entende: “ti mesma”, ela se intui e não por outra razão do que pelo fato de estar presente a si mesma”121.

Enquanto o olho não pode se ver senão por espelho, a alma pode se perceber, ela mesma, pela inteligência. Nesse sentido ela não conhece somente uma parte dela mesma por uma outra parte dela mesma como queriam os céticos. Agostinho compara esse conhecimento implícito que o homem tem de si mesmo com a memória que contém as

118 AGOSTINHO. A Trindade X: 5, 7. 119 AGOSTINHO. A Trindade X: 5, 7. 120 AGOSTINHO. A Trindade X: 5, 7. 121 AGOSTINHO. A Trindade X: 9, 12.

lembranças que nos levam a nos chamar por nós mesmos, fazendo-nos observar, que a alma jamais se ignora plenamente.

Quando sabe algo de si, é impossível não o saber a alma toda. É a alma toda que se sabe. Ora, sabe-se sabendo algo e é impossível que não o saiba a alma toda. Portanto, conhece-se a si mesma, toda inteira. E o que lhe é mais conhecido do que saber que vive? (...) Além disso, como sabe que ainda não se encontrou toda, ela sabe qual é a sua grandeza. E assim busca o que lhe falta a seu conhecimento. (...) Contudo, é toda inteira que ela se busca. Pois está toda presente a si mesma122.

Assim, é pelo cogito que a alma se vê, se compreende e se reconhece, sabendo que ela já se conhecia, antes, implicitamente, passando da memória implícita à descoberta.

É por meio do cogito que a alma se conhece como sujeito pensando em si mesmo e se encontra com Deus. O pensamento apreende sua própria existência por uma experiência imediata – presença a si da alma – e daí reconhece o que é e o que não é. A verdade de si é, portanto, condição primeira, fundamental e indispensável para o conhecimento de Deus.