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3 RESULTADOS

3.1 Desenvolver competências de enfermagem especializada na área de

3.1.1 O conhecer, analisar e refletir sobre a pessoa

Inicialmente foquei-me em áreas técnicas da intervenção do enfermeiro especialista e menos numa visão global da pessoa. Parece-me evidente que, tal como anteriormente referido, me encontrava num nível de iniciado revelando necessidade de me focar na situação técnica e objetiva.

O percurso terapêutico das pessoas com uma lesão neurológica passa, como seria de esperar, por várias fases. Inicia-se ainda no local do acidente através de uma intervenção dos serviços de socorro. A esta fase inicial de segue-se uma segunda fase de internamento hospitalar. De forma esquemática, após o acidente a pessoa com lesão neurológica geralmente passa pelo Hospital Distrital da zona onde são prestados os primeiros cuidados. Após confirmação da lesão neurológica, a pessoa é transferida para um hospital que disponha de urgências polivalentes dotadas de serviço de neuro traumatologia, a fim de uma abordagem especializada. Após o período de recuperação e estabilização fisiológica, as pessoas são transferidas para outras unidades (como os hospitais distritais ou unidades de cuidados continuados, mais raramente para casa) onde aguardam vaga para um centro de reabilitação médica inicial.

Durante todo este ciclo reparei na existência de um processo de reconfiguração identitária das pessoas com incapacidade, que tendem a ser dominados, por um lado, pelas consequências físicas da lesão, nomeadamente a paralisia dos membros e a consequente perda de mobilidade e funcionalidade manipulativa e, por outro, pela centralidade do corpo. A consciência dos impactos da lesão combinada com as

33 experiências de reabilitação obriga a pessoa a uma tomada de consciência sobre partes do corpo ou funções que até àquele momento passavam despercebidas.

No Ensino Clinico 1 (EC1) realizei um jornal de aprendizagem19 onde num processo de apresentação e socialização ao serviço é iniciado um pequeno diálogo entre pessoas com incapacidade adquirida de forma aguda, servindo de moderador, pude identificar o percurso terapêutico anteriormente referido, assim como quais os momentos marcantes até a presente data de internamento, dos quais foram referidos:

No mecanismo de lesão e correspondente internamento hospitalar, são muitos os desafios que têm que enfrentar: o confronto com o diagnóstico, ou com a sua falta, a itinerância entre instituições hospitalares, as intervenções médicas, a reação dos familiares;

O levante, estando associada a cadeira de rodas, este momento constitui um primeiro marco na tomada de consciência sobre a possível permanência nesta nova condição e a ideia de dependência que lhe está associada;

O 1º fim-de-semana fora da instituição hospitalar, a primeira visita a casa, após um período de vários meses de ausência. A importância deste momento em todo o processo advém de dois fatores principais: o reencontro com a vida antes da lesão e a consciencialização das barreiras físicas, psicossociais e culturais que se lhes colocam.

Estes momentos, acima referidos também são mencionados no Guia de Boa Prática de Cuidados de Enfermagem à Pessoa com traumatismo Vertebro Medular no processo de ajustamento em que a pessoa passa sempre por períodos de negação, agressividade, depressão, reconhecimento, adaptação e aceitação. A consciencialização da deficiência tem um percurso heterogéneo, umas pessoas

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No contexto de uma prática clínica, importa que se perceba a razão de ser dos instrumentos que lhe são solicitados para a construção da sua aprendizagem. O exercício de uma prática reflexiva contribui decisivamente para a estruturação do pensamento em enfermagem e assim um melhor diagnóstico na situação de cuidados (Jasper, M. 2003).

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assumem-no logo no momento do acidente, outros muito mais tarde, enquanto algumas não acreditam na sua situação, fazendo uma «fuga» à realidade.

Na fase aguda no EC2 numa Unidade Hospitalar20, a pessoa com lesão vertebro medular experimenta uma mudança súbita na sua vida, com implicações a nível físico, psíquico e social que vão interferir com a saúde da pessoa, os seus sentimentos de bem-estar, as atividades e relações familiares e sociais. Aspetos mais «marcantes» como cuidar de uma pessoa consciente, gerir a verdade sobre o seu prognóstico, como ajudar a pessoa no seu processo de adaptação emocional, como ajudá-lo a ser autónomo e prepará-lo para a alta, como lidar com a adaptação da família e como gerir os ensinos para a alta.

O enfermeiro especialista de reabilitação deve estar presente nas várias etapas do internamento, desde a fase critica até ao momento de alta. Atualmente, nas várias unidades de cuidados estão presentes enfermeiros especialistas de reabilitação, assim como na comunidade (Unidades de Cuidados Continuados), o que permitiu o desenvolvimento da minha aprendizagem pelos diferentes campos de estágio. Tive oportunidade de tornar cada momento em momento de reabilitação. Os autocuidados são essenciais em todo o processo de reabilitação e são momentos de «ouro», em que devemos aproveitar para a maximização constante da independência e a realização de ensinos. Esta proximidade permite estabelecer um plano de cuidados que não abrange apenas a fase de internamento, mas também o após alta, através da preparação do domicílio e da comunidade para receber a pessoa com as suas incapacidades.

O conceito de transição de Meleis pode ajudar os enfermeiros a contextualizar o processo de mudança que sofre a pessoa. A enfermagem vai incidir nas respostas de saúde e doença à transição, definindo o enfermeiro estratégias de prevenção, promoção e intervenção para ajudar a pessoa no seu processo de transição, promovendo-se uma transição saudável, conforme defende Meleis (2010). Ao atuar nestas circunstâncias, desenvolve o cuidado transicional num duplo movimento, em que os processos de transição geram alterações de saúde-doença e estes levam às

35 transições. Em qualquer das situações a intervenção de enfermagem deve estar presente (Zagonel, 1999). De acordo com Meleis (2010), os encontros entre enfermeiro e a pessoa ocorre muitas vezes durante períodos de transição e de instabilidade desencadeada por alterações na vida dos indivíduos, tendo importantes implicações para o seu bem-estar e saúde.

A pessoa é o elemento central da prestação de cuidados de saúde e, tem um papel fundamental sobre a decisão dos cuidados de saúde que lhe são prestados. Esta necessita de cuidados, dirigidos aos problemas fisiopatológicos, as questões psicossociais, ambientais e familiares que são intimamente interligadas com a doença. Conhecer a pessoa, é regra geral, redutor, tendencialmente centrado nas necessidades que se podem satisfazer. Este processo de conhecimento não é de todo fácil, estamos a lidar com pessoas com formas diferentes de lidar com a doença, objetivos, características diferentes e num ambiente que não é o seu. Só podemos conhecer o que a pessoa nos deixa conhecer.

O conceito de conhecer a pessoa está muito relacionado com a personalização/individualização dos cuidados. Qualquer informação que possamos recolher acerca da pessoa/família a quem direcionamos os cuidados é importante para que essa prestação de cuidados seja a mais adequada possível. Informação esta das preferências, das necessidades, da perceção, que pode ser obtida através da pessoa de referência, ou dela mesmo na nossa observação.

Para uma cuidada análise da pessoa temos de conhecer a mesma, a elaboração dos jornais de aprendizagem foram momentos reflexivos que me permitiram conhecer a pessoa nas diferentes etapas, na situação aguda EC2, na situação de convalescença/recuperação EC1 e posteriormente na comunidade EC3. Fiquei a conhecer a pessoa e os seus diferentes receios dependendo das diferentes etapas onde se encontrava.