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A educação, através dos conhecimentos que veicula, e das normas, valores e comportamentos que transmite contribui, como defende Dubar (1991), para a construção de uma identidade profissional reivindicada. No entanto, é no confronto com o mercado de trabalho que a dupla transacção entre uma identidade profissional para si e uma identidade profissional para o outro ocorre. A identidade profissional é, então, o resultado de um processo biográfico e de um processo relacional, de uma transacção objectiva entre uma identidade atribuída e uma identidade proposta.

No entanto, as transformações ocorridas no sistema educativo, no mercado de trabalho e nas políticas sociais têm confrontado os indivíduos e os grupos profissionais com processos de negociação e de renegociação identitárias cada vez mais complexas. A diversificação do sistema de ensino superior e a passagem de alguns cursos a licenciatura são responsáveis pela emergência de novos grupos profissionais, envolvidos em processos de profissionalização através da luta pelo reconhecimento da sua expertise (Freidson, 1994) num processo de competição interprofissional (Abbott, 1988). Mas as transformações no campo do ensino superior estão também na origem da emergência de processos de renegociação identitária nos contextos de trabalho. Por sua vez, o aumento da precariedade, a contracção do emprego público, a difusão de novos modelos de organização do trabalho e de novas formas de trabalhar têm também

Competição interprofissional entre médicos e farmacêuticos: o caso da jurisdição da prescrição de medicamentos contribuído para a complexidade dos processos de construção das identidades profissionais ou mesmo para a sua crise, como Dubar (2000) sustenta.

O conceito de interdisciplinaridade.

A interdisciplinaridade caracteriza-se pelo vigor das trocas entre os especialistas e pelo grau de integração legítimo das disciplinas na essência de um mesmo projecto de pesquisa. De acordo com Vilela (2003), o termo interdisciplinaridade não possui ainda um sentido único e estável, no entanto, a definição acima pode ser considerada um princípio das suas inúmeras distinções terminológicas.

A interdisciplinaridade também é uma questão de atitude, relação de harmonia, mutualismo, que implica uma atitude diferente a ser adoptada diante do problema do conhecimento, ou seja, é a substituição de uma compreensão fragmentária para unitária do ser humano. Ainda Vilela (2003), descreve que a interdisciplinaridade está também associada ao desenvolvimento de certos traços da personalidade, tais como: flexibilidade, confiança, paciência, intuição, capacidade de adaptação, sensibilidade, fazendo-se se necessário um treino na “arte de entender e esperar, um desenvolvimento no sentido da criação e da imaginação”.

A interdisciplinaridade não se ensina nem se aprende, apenas se vive e exerce.

Partindo do conceito de disciplina como um modo de estabelecer e delimitar um território de trabalho, de reunir a pesquisa e as experiências dentro de um determinado ângulo de visão, diferentes níveis de interdisciplinaridade, conforme o grau de integração das disciplinas que são reagrupadas num determinado momento Vilela (2003), destaca que vários autores têm estabelecido classificações diferentes para expressar as modalidades possíveis de interdisciplinaridade. De entre elas, a mais conhecida é a distinção realizada por Erich Jantsch3,

que consta de cinco níveis, onde será descrita somente interdisciplinaridade: caracterizada por uma interacção existente entre duas ou mais disciplinas, em contexto de estudo de âmbito mais colectivo, no qual cada uma das disciplinas em contacto é, por sua vez, modificada e passa a depender claramente uma(s) da(s) outra(s). Resulta em enriquecimento recíproco e na transformação das suas metodologias de pesquisa e conceitos (Alves, Canário, 2008:2).

A interdisciplinaridade é considerada afinidade e intercâmbio das disciplinas a fim de alcançar um objectivo comum. Nesse caso, ocorre uma concentração conceitual dos métodos e estruturas em

3 (1929-1980) astrofísico austríaco escreveu o livro The Self-Organizing Universe: Scientific and Human Implications of the

Emerging Paradigm of Evolution. O livro trata da auto-organização como paradigma unificador de evolução que incorpora cosmologia, biologia, sociologia, psicologia e consciência.

Competição interprofissional entre médicos e farmacêuticos: o caso da jurisdição da prescrição de medicamentos que as potencialidades das disciplinas são exploradas e amplificadas. Estabelece-se uma interdependência entre as disciplinas, busca-se o diálogo com outras formas de conhecimento e com outras metodologias, com o objectivo de construir um novo conhecimento. Dessa maneira, a interdisciplinaridade apresenta-se como resposta à diversidade, à complexidade e à dinâmica do mundo actual (Alves, Canário, 2008:2).

A interdisciplinaridade também é abrangida, de forma radical, como atitude de superação de toda e qualquer visão despedaçada que ainda mantemos de nós mesmos, do mundo e da realidade. Apesar da frequência com que o tema aparece nas discussões actuais, a interdisciplinaridade ainda é incipiente desenvolvida em todos os campos do conhecimento e é pouco empreendida no campo da educação (Alves, Canário, 2008:3).

O ensino baseado na interdisciplinaridade tem grande poder estruturador, pois os conceitos e procedimentos encontram-se organizados em torno de unidades mais globais, em que várias disciplinas se articulam.

A interdisciplinaridade é também percebida como um diálogo que permite a evolução das disciplinas em nível de método e perspectiva; é uma sugestão de ligar o conhecimento científico e a complexidade do mundo vivido, para a medida do humano no cultivo da ciência, visando a superação da dicotomia entre teoria e prática (Alves, Canário, 2008:4)

Sendo assim, interdisciplinaridade é um conceito que se aplica às ciências, à produção do conhecimento e ao ensino, especialmente em áreas que procuram, de forma directa, a interdisciplinaridade, como por exemplo, a saúde.

Apesar de estarmos a tratar de competição interprofissional não nos podemos esquecer que quer médicos quer farmacêuticos, trabalham conjuntamente nas mais diversas situações, incluindo no tratamento dos doentes e portanto os seus saberes conjugam-se, existindo interdisciplinaridade nos seus saberes (Alves, Canário, 2008:4).