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2 PAULO FREIRE: CONHECIMENTO, EDUCAÇÃO E POLÍTICA

2.3 CONHECIMENTO COGNOSCITIVO, COMUNICATIVO E SÓCIO-HISTÓRICO

2.3.2 O conhecimento como processo histórico e social

Para falar no conhecimento como um processo que se realiza histórica e socialmente, não podemos prescindir da relação homem-mundo e da relação intersubjetiva presente na concepção epistemológica de Freire. Ou seja, podemos falar em conhecimento que se realiza num processo histórico e social exatamente devido à compreensão de Freire de que o conhecimento é produção que se realiza através da comunicação e do diálogo entre sujeitos e, como tal, sempre em processo aberto de estar se fazendo. E como o conhecimento é um processo, sua validade lhe é conferida, histórica e socialmente, através da relação dialógico- comunicativa entre os sujeitos que, devido à sua consciência, sabem que pouco sabem e que podem, por causa de sua interação comunicativa de saber mais. Assim, o conhecimento deixa de ser buscado como verdade absoluta e eterna a ser descoberta e apossada pelo sujeito que, uma vez de posse dela, tanto pode negá-la como transmiti-la para outros sujeitos. O conhecimento também não pode ser relativizado, porque, se não houver verdade absoluta, cada um tem sua verdade, pois o conhecimento deve atender ao critério da elaboração intersubjetiva, que lhe confere validade através da comunicação dialógica e deve estar voltado para a vocação ontológica e histórica de homens e mulheres para ser mais humanos. Nessa perspectiva, a centralidade do conhecimento não gira mais em torno de sua origem, se ela for de origem espiritual ou material, mas das condições de seu desenvolvimento.

Coerente com sua concepção antropológica, que compreende o homem como ser de consciência, de relação e de história, Freire concebe o conhecimento como um processo histórico, isto é, que faz parte do quefazer humano. Para ele, o conhecimento nunca é, sempre está sendo. Com isso, ele quer expressar exatamente a ideia de processo e de conhecimento como busca/construção constante, mas sempre inacabada por estar se fazendo em relação entre sujeitos também inconclusos, mediados pela realidade. Por seu caráter histórico e social, o conhecimento praticamente coincide e comunga com as características próprias do ser histórico, conforme visto no item anterior. No entanto, cabe destacar, aqui, a característica da possibilidade. Assim como a história, o conhecimento sempre é possibilidade e depende da

intensidade da relação gnosiológica ou epistemológica estabelecida entre os seres humanos a propósito de objetos cognoscíveis. Porém, para Freire, mesmo sendo, em sua constituição, possibilidade, o conhecimento parte de uma certeza fundamental: de que é possível conhecer, ainda que o saber seja histórico. Sobre esse aspecto, Freire escreve:

Consciente de que posso conhecer social e historicamente, sei também que o que sei não poderia escapar à continuidade histórica. O saber tem historicidade. Nunca é, está sempre sendo. Mas isto não diminui em nada, de um lado, a certeza fundamental de que posso saber; de outro, a possibilidade de saber com maior rigorosidade metódica (2001a, p. 18).

Freire entende que não é impossível conhecer nem impossível ter certeza de algo. O que é impossível é ter certeza absoluta, como se o certo de hoje fosse o de ontem e continuasse sendo o de amanhã. Além disso, a própria incerteza não é encarada de forma negativa por Freire, que a considera como o “único lugar de onde é possível trabalhar de novo necessárias certezas provisórias” (2001a, p. 18). De forma metódica, a certeza da incerteza não nega a possibilidade do conhecimento, a certeza de que posso saber. Ao contrário, estimula a busca do conhecimento. Freire expressa essa ideia da seguinte forma: “[...] Sei que não sei o que me faz saber: primeiro, que posso saber melhor o que já sei; segundo, que posso saber o que ainda não sei; terceiro, que posso produzir conhecimento ainda não existente” (2001a, p. 18). Nessa afirmação, fica claro o aspecto da produção/elaboração do conhecimento que, de certa forma, é uma constante na concepção freireana. Para conceber o conhecimento como um processo, basta termos a certeza de que podemos saber e que não sabemos tudo. Essa situação nos provoca a buscar saber mais e a construir novos conhecimentos.

Conceber o conhecimento como um processo histórico implica uma compreensão de verdade como busca e produção. Essa verdade se faz na história, portanto, é histórica. Isso quer dizer que ela é limitada e sujeita a falhar, assim como a história, feita por humanos, falha. Freire, falando da história, diz que ela “é tão vir-a-ser quanto nós, seres limitados e condicionados, e quanto o conhecimento que produzimos” (2001a, p. 19). Toda situação e manifestação humana são históricas e tanto a certeza quanto a incerteza são formas históricas de o homem estar sendo. Por outro lado, essa forma de compreender o conhecimento não permite absolutismos, fundamentados em verdades absolutas e eternas. Não há uma verdade, desde sempre e para sempre, externa à história, a ser descoberta e seguida pelos homens. O sujeito da verdade é o próprio homem, com suas capacidades, limites e crenças e como sujeito

da história. Assim, a verdade assume a característica humana de buscar e de estar sendo. Ela se coloca como uma “tarefa” a ser realizada permanentemente, e não, como uma questão a ser descoberta e/ou resolvida. Nesse sentido, Freire escreve:

[...] uma das bonitezas de nossa maneira de estar no mundo e com o mundo, como seres históricos, é a capacidade de, intervindo no mundo, conhecer o mundo. Mas, histórico como nós, o nosso conhecimento do mundo tem historicidade. Ao ser produzido, o conhecimento novo supera outro que antes foi novo e se fez velho e se “dispõe” a ser ultrapassado por outro amanhã. Daí que seja tão fundamental conhecer o conhecimento existente quanto saber que estamos abertos e aptos à produção do conhecimento ainda não existente. (2002c, p. 31).

Há aqueles que vão dizer que essa concepção de conhecimento não sofre, de um lado, com o perigo do absolutismo, mas, de outro lado, sofre com o problema do relativismo. Segundo Freire, isso não confere, pelo menos, não em sua forma de conceber o conhecimento. Para ele, a verdade não é relativa, ela é busca humana e, como tal, é possibilidade. Porém, assim como o ser humano tem valores, tem ética, age em função de finalidades e tem, na compreensão de Freire, vocação ontológica para ser mais humano, a busca humana da verdade também respeita e segue critérios. Seu horizonte é exatamente a vocação ontológica do homem de ser ético e de ser mais humano, pois, numa concepção relativista, não é possível falar em ética. E os critérios que orientam o caminho nesse horizonte são elaborados constantemente na relação comunicativa e dialógica entre os seres humanos, sempre situados num contexto. Como já mencionado, para ser efetiva, a comunicação requer “o acordo entre os sujeitos, reciprocamente comunicantes” (FREIRE, 2001c, p. 67).

Assim, o primeiro grande critério de verdade, do qual decorrem os demais, é a comunicação, que, por essência e excelência, é sempre dialógica e sempre mediada por uma realidade objetiva. Como vimos, não há conhecimento humano válido sem a interação comunicativa entre os sujeitos. Sem conhecimento, também não há verdade. O critério de verdade ou, então, de validade do conhecimento, para Freire, não é só uma ideia nem só a atividade humana, mas a interação comunicativa entre os sujeitos, ou seja, a comunicação intersubjetiva, a partir ou em torno da realidade concreta de vida. É a comunicação dialógica entre os sujeitos, a propósito de objetos cognoscíveis, que possibilita o conhecimento humano e que lhe confere validade. Assim, a verdade não é relativa, ela é relação de comunicação intersubjetiva e, portanto, aberta, inacabada, em elaboração, jamais absolutamente sem critérios ou absolutamente “verdadeira”.

O conhecimento compreendido como processo histórico e social desloca o problema epistemológico da origem, problema próprio da concepção tradicional de conhecimento, consumida pelo problema da dicotomia na relação sujeito-objeto, para as condições de

desenvolvimento do conhecimento. Com isso, a questão de saber se a primazia, na

constituição do conhecimento, é de origem espiritual ou de origem material é colocada em outro nível. A origem do conhecimento deixa de ser o principal problema na medida em que o conhecimento é compreendido como interação comunicativa entre sujeitos que, por sua vez, também se encontram em relação interativa com o mundo.

Se o conhecimento se desenvolve por meio da relação interativa, logo, a questão central passa a girar em torno das condições de desenvolvimento dessa interação. A posição de Freire, como já foi abordado, é de que a principal condição do conhecimento é a comunicação, não qualquer comunicação, mas a comunicação dialógica, em que os sujeitos interlocutores incidam sua ad-miração sobre os mesmos objetos cognoscíveis, que os expressam com os mesmos signos linguísticos comuns a todos e que, assim, possam compreender, com certa semelhança, os objetos da comunicação em questão (2001c, p. 70). Freire quer dizer que o conhecimento se desenvolve onde há relação gnosiológica ou epistemológica, que acontece na interação da dimensão comunicativa e cognoscitiva, pois não há verdadeira comunicação sem a dimensão cognoscitiva e, por outro lado, fora da comunicação, a dimensão cognoscitiva não se realiza, e sem elas, em interação, não há conhecimento.

Neste item, investigamos a compreensão epistemológica de Freire e percebemos seu esforço para superar a dicotomia epistemológica, própria do paradigma da subjetividade e da Filosofia moderna, por meio da interação comunicativa, avançando na afirmação do

paradigma da intersubjetividade, característico da Filosofia contemporânea.

Investigada a compreensão antropológica e epistemológica, passaremos a analisar a concepção de educação em Freire.

2.4 EDUCAÇÃO: REALIZAÇÃO DO SER MAIS NA RELAÇÃO INTERSUBJETIVA E