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CAPÍTULO I – Jacob Levy Moreno e o Psicodrama

1.3. O conhecimento

...se o subjetivismo é levado a sério, assume um caráter “quase objetivo”.

Jacob Levy Moreno33

O posicionamento e atitude de Moreno em relação à pesquisa científica eram coerentes com sua postura em relação à sua proposta metodológica de intervenção: valorizava o Psicodrama por ter encontrado um método de investigação que se aproxima muito do processo natural do conhecer-se a si próprio.34 Ao pensar em pesquisa, valorizava, da mesma forma, a aproximação dos fatos em si, “in situ”, sublinhava o constante pressuposto do contato imediato com a realidade. Rejeitava o laboratório que trabalha com amostras escolhidas e programas pré – determinados, defendia o aproveitamento da realidade sem violentá-la, respeitando-a no contexto em que se encontra.

Em relação ao método, argumentava que cada ciência devia possuir sua forma específica de abordagem, e que em relação ao homem, não se poderia fazer uma ciência autentica que prescindisse da subjetividade inerente ao ser humano.

...Cada ciência tem sua maneira própria de cumprir essa tarefa. As condições em que aparecem os fatos físicos e biológicos são relativamente bem conhecidos. Porém se torna um assunto bem mais complicado, avaliar as condições de emergência dos fatos relativos às relações humanas. Semelhante empreendimentosó se pode conseguir de maneira adequada,

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René F. MARINEAU, Jacob levy Moreno, 1889 – 1974: Pai do psicodrama, da sociometria e da psicoterapia de grupo. São Paulo: Ágora, 1992, Pág. 162.

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Jacob L. MORENO apud Eugenio G. MARTÍN, Psicologia do Encontro: J. L. Moreno. São Paulo: Ágora, 1986, Pág. 104.

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adotando um método verdadeiramente revolucionário...Quando se trata de sociedades animais, se pode admitir que estas foram dadas e fixadas de uma vez para sempre, como o são os organismos animais individuais; porém a sociedade humana não tem nada de automatismo estabelecido ou fixo. Embora extremamente ligada a condições físicas e biológicas, possui uma estrutura cuja criação e desenvolvimento dependem de condições internas e que, em conseqüência, devem ser estudadas a partir de seu interior.35

Por não aceitar a importação de métodos de outras ciências para o estudo do ser humano, não concordar com a possibilidade de haver um observador neutro, e, compreender que inexiste uma apreensão pura da realidade, propôs um método que procurasse objetivar a subjetividade. Em grupos, sugeria a participação de todos os envolvidos na experimentação, para evitar o distanciamento e a presença do observador que necessariamente altera as circunstâncias. Trabalhava, assim, também com a intersubjetividade.

Nós, os sociômetras, temos insistido desde os primeiros momentos, em que o ser humano em toda sua subjetividade, deve ser parte e parcela da análise científica, com o objetivo de oferecer ao investigador uma completa relação fenomenológica de tudo o que ocorre na situação humana. Demonstramos que se o subjetivismo é levado a sério, assume um caráter “quase objetivo” que torna os respectivos fenômenos passíveis de “medição.36

Colocava que além dos próprios participantes estarem envolvidos na experimentação, o investigador, também, deveria adotar uma nova postura, o de também participante do processo. Introduziu o termo observador participante.

Em Psicodrama, um investigador só pode penetrar na unidade profunda do grupo quando se torna um integrante comprometido no mesmo processo grupal que deseja investigar e do qual não pode se excluir. Não poderá haver objetividade na investigação sem pôr constantemente em jogo a subjetividade do participante. 37

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Jacob L. MORENO apud Eugenio G. MARTÍN, Psicologia do Encontro: J. L. Moreno. São Paulo: Ágora, 1986, Pág. 103.

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Ibid., Pág. 104.

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Moreno propunha que o sujeito do conhecimento, o observador participante, fosse submetido a um processo terapêutico no sentido de desenvolver tanto a auto quanto a hétero percepção, reconhecendo as conservas culturais interiorizadas, minimizando desta forma o grau de sua interferência subjetiva.

Para poder chegar ao papel de observador participante é preciso ter passado antes pelos papéis de protagonista, ego – auxiliar e diretor, que possibilitam a investigação pessoal. Só com a experiência de uma longa série de inversões de papeis e de um processo de constantes subjetivações e objetivações pessoais, é possível chegar ao plano adequado à investigação neste papel de observado participante.38

Tentando sintetizar a postura de Moreno frente ao sujeito, ao objeto e ao método de conhecimento, Eugenio Garrido Martín coloca que o Psicodrama pode ser compreendido como um método revolucionário por fundamentar-se na ação espontânea do sujeito e por colocar todos os participantes do experimento, simultaneamente, como sujeitos e pesquisadores.

...este método revolucionário se fundamenta em duas características essenciais e complementares: a primeira é que o sujeito, objeto da experimentação, atue de maneira espontânea. Assim poderemos ver o que se passa em sua subjetividade em status nascendi, pois uma das características da ação é que enquanto atua, o indivíduo perde todo o controle sobre si mesmo, e torna-se puro ato, permitindo ao diretor do experimento, chegar ao conhecimento direto do que está acontecendo em seu psiquismo...

A segunda condição que Moreno exige para a elaboração de um método é que todos os participantes do experimento sejam ao mesmo tempo sujeito da experimentação e experimentadores...39

Em termos de validação, relutava em aceitar a quantificação. Em seus estudos sociométricos, que por suas próprias características, exigiam a mensuração, salientava que o socius era mais importante que o metrum. Acreditava na convalidação existencial em que

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Carlos Maria MENEGAZZO et alli, Dicionário de Psicodrama. São Paulo: Agora, 1995, Pág. 137.

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os números pouco ou nada expressam com relação à vivência, podendo, inclusive, até desvirtuá-la. Utilizou-se, no entanto, principalmente na fase em que pretendia consolidar o Psicodrama como ciência, de métodos de quantificação.

Quando no início deste tópico foi colocado que o posicionamento e atitude de Moreno em relação à pesquisa científica eram coerentes com sua postura em relação à sua proposta metodológica de intervenção, pode se acrescentar, que o criador do Psicodrama não fazia uma separação rígida entre pesquisa e intervenção, suas descobertas e elaborações foram resultantes de seu posicionamento como observador participante em suas ações. Ao referir-se ao sociodrama, colocou que se tratava de ...uma ação profunda, um método, um instrumento da pesquisa – ação...40

A psicodramatista Valéria Cristina de A. Brito ressalta que um dos aspectos originais de Moreno reside no fato de que ao mesmo tempo em que recusava escolas de pensamento racionalistas e empiristas, empregava algumas de suas idéias e métodos. Não pretendia alinhar-se a nenhuma delas, mas suplantá-las com uma metodologia voltada menos para a explicação e mais para a transformação. Não aceitava a visão de mundo que justifica o raciocínio explicativo – causal, estando sua obra baseada em uma concepção de universo aberto, em uma concepção de tempo assentada na categoria do momento, ou seja, em uma perspectiva que privilegia o novo, o imprevisível. 41

Segundo a autora, o pioneirismo de Moreno ao propor uma teoria mais voltada para confluências do que para o estabelecimento de oposições, é demonstrado ao situar a discussão sobre a experiência humana no domínio da comunidade. Cita Moreno quando dizia que não existe psique isolada em si mesma e nem social sem individual42. Salienta que o criador do Psicodrama criticava o reducionismo que contrapunha a experiência subjetiva à convivência social, postulando que individual e social constituem-se em diferentes

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J. L. MORENO, Psicodrama. São Paulo: Editora Cultrix. 1972, Pág. 415.

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Valéria C. DE A. BRITO, Novos caminhos para a Socionomia, Revista Brasileira de Psicodrama. Vol. 10. Número 2. São Paulo: Diretoria de Divulgação e Comunicação da FEBRAP, 1990, Pág. 90.

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perspectivas possíveis na descrição, entendimento e manejo das experiências humanas e não como dimensões opostas, isoladas, estanques Propôs uma nova concepção para a subjetividade: a individualidade, o saber ser uno e único é um atributo das relações e não característica individual, ou seja, o eu, a especificidade como pessoa é criada na relação, nos papéis, não é definido como uma entidade imaterial ou uma abstração, o eu é uma posição nas relações.