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3.1 PENSAR BEM: O QUE SIGNIFICA PENSAR? O QUE SIGNIFICA PENSAR BEM?.

3.1.3 O Conhecimento: seu significado e suas formas

Como vimos anteriormente, segundo Lorieri, pensar é articular informações e ideias, produzindo explicações, significações e entendimentos. Ao pensarmos, produzimos entendimentos e explicações, produzimos conhecimento como o científico e o do senso comum. Ao pensarmos e produzirmos significações, produzimos filosofia.

Mas o que vem a ser conhecimento? O que ele significa? Para Arendt, conhecimento é o processo de busca e de produção da verdade. Já, segundo Lorieri,

Conhecimento é um produto da consciência humana. Ela coleta dados pela percepção, pela imaginação, pela memória e pela linguagem. Coleta dados, isto é, informações. E aí, relaciona estas informações / dados através do pensar e constrói entendimentos, isto é, constrói explicações, descrições e interpretações da realidade e do próprio ser humano. As explicações, interpretações e descrições são o conhecimento. (p.9).

Severino, em Filosofia, diz que “Conhecimento é a relação estabelecida entre sujeito e objeto na qual o sujeito apreende informações a respeito do objeto. É a atividade do psiquismo que torna presente à sensibilidade ou à inteligência um determinado conteúdo seja ele do campo empírico ou do próprio campo ideal” (1992, p.38). Podemos parafrasear o autor, nos seguintes termos: é a relação estabelecida entre o sujeito cognoscente e o objeto cognoscível, na qual o sujeito produz explicações significativas sobre o objeto, possibilitando-lhe entendimento sobre ele e indicações de como se relacionar com o mesmo.

As formas de conhecimento são: mítico, religioso, artístico, filosófico, do senso comum e científico.

Figura 4: Formas de Conhecimento. CIENTÍFICO FILOSÓFICO SENSO COMUM MÍTICO RELIGIOSO ARTÍSTICO

Faremos, a seguir, uma breve explanação acerca das quatro primeiras formas de conhecimento e nos aprofundaremos um pouco mais, nas duas últimas.

O conhecimento mítico refere-se a uma produção de explicações e entendimentos que envolvem elementos da realidade e elementos fantasiosos. O conhecimento religioso é a produção de explicações e entendimentos através de doutrina vinda de uma revelação divina. O artístico é a produção, por meio artístico da expressão, de tudo aquilo que afeta nossa sensibilidade. O filosófico é a produção do entendimento do fundamento e do sentido da realidade em suas múltiplas formas.

O conhecimento do senso comum é o que mais utilizamos no nosso dia a dia. É “o conhecimento produzido no trato-prático-utilitário com a realidade” como afirma Lorieri (p.10). Ou seja, ao lidarmos com fatos, questões, acontecimentos e pessoas do dia a dia, produzimos entendimentos e explicações para tudo aquilo com que nos relacionamos e nos serve de guia como orientação para nossas práticas na realidade. Ele é ametódico ou assistemático, porque não segue o rigor do método; fragmentado, superficial e acrítico, porque não é examinado constantemente, não passa pelo exame rigoroso e crítico de suas “verdades”.

Entretanto, este conhecimento tem um “núcleo de segurança” a que chamamos “bom senso”, através do qual conseguimos ter noções corretas e orientações seguras de como agir (LORIERI). Todavia, esse conhecimento vai-se modificando historicamente. A realidade sofre mudanças, provocando mudanças dos dados. As informações chegam com velocidade e impacto cada vez maiores.

Segundo Marilena Chauí, em Convite à Filosofia, esse conhecimento do senso comum ou dos saberes cotidianos tem algumas características: é subjetivo (se eu for hindu, a vaca é sagrada para mim, por exemplo); por ser subjetivo, leva-nos a uma avaliação qualitativa das coisas, de acordo com seus efeitos em nossos sentidos ou de acordo com os desejos que desperta

entre nós e o tipo de finalidade que lhe atribuímos; agrupa-se ou distingue-se, conforme as coisas e os fatos pareçam-nos semelhantes ou diferentes; é individualizador, podendo, também, ser generalizador; por ser generalizador, tende a estabelecer relações de causa e efeito; não se admira com a regularidade; por não compreender a investigação científica adequadamente, cria dela uma imagem de magia; costuma projetar nas coisas e no mundo sentimentos de angústia e de medo mediante o desconhecido.

Já o conhecimento científico é capaz de superar essas inseguranças do conhecimento do senso comum. Baseia-se em pesquisas, investigações sistemáticas e metódicas e na exigência de que as teorias sejam internamente coerentes e digam a verdade sobre a realidade. É o conhecimento resultante de um trabalho racional. Segundo Chauí, a investigação científica é um conjunto de atividades intelectuais, experimentais e técnicas, realizadas com base em métodos que garantem rigor: separam os elementos subjetivos e objetivos de um fenômeno; constroem o fenômeno como um objeto do conhecimento controlável e passível de ser retificado; demonstram e provam os resultados obtidos durante a investigação, graças ao rigor das relações definidas entre os fatos estudados; relacionam com outros fatos um evento isolado, integrando-se numa explicação racional simplificada; formulam um conjunto sistemático de conceitos que expliquem e interpretem as causas e os efeitos, suas relações entre todos os objetos do campo estudado.

Ao contrastar, principalmente, as duas últimas formas de conhecimento, nós nos remetemos aos fundamentos da Educação para o Pensar. Ou seja, os esforços educativos intencionais que buscam auxiliar crianças e jovens a Pensar Bem são justamente com a intenção de tirá-los do senso comum e fazer com que tenham um pensar mais autônomo, reflexivo, crítico, rigoroso, profundo, abrangente, criativo e autocorretivo. De que forma? Fazendo com que tenham acesso aos conhecimentos científicos.

Promovendo uma educação com tal movimento, ajudaremos crianças e jovens a se tornarem mais conscientes, mais preparados para encarar as adversidades, mais criativos para pensar em formas alternativas de solução dos grandes problemas que assolam a humanidade, mais dinâmicos para lidar com o contexto globalizado em que as sociedades se encontram, mais dialógicos e respeitosos, procurando, ao ouvir o outro, respeitar suas conclusões, dialogar, trocar impressões e construir uma terceira via.