No período compreendido entre 1891 a1930, continua a política do “homem- bom”. A cidadania continua restrita aos possuidores de terras, de escravos. Somente quem tem posse é que ocupa cargos públicos. O ponto de destaque nesse período é a abolição da escravatura em 1888, que liberta os escravos, mas não propicia condições para que além da população liberta prosperar, sejam incorporados direitos civis a toda a população. Votar e ser votado continuavam sendo privilégio do “poder político local”.
A partir do final do Século XIX e início do Século XX, começa o processo de industrialização no Brasil, e, consequentemente, a luta pela implementação de direitos. Entretanto, continua precário o alcance da cidadania e, em consequência, dos direitos civis, políticos e sociais. Aqui, destacamos a crise de 1929 para o novo regime entrante.
Do modelo constitucional, destaca-se a adoção do constitucionalismo americano, com a adoção do federalismo e do sistema presidencialista. Com o advento da república, e a mudança na organização formal do poder, mudam os paradigmas ideológicos de forma a atender à crescente burguesia que se formava. Há o deslocamento dos eixos doutrinários da Europa para a América. É o que nos mostra Bonavides (2001, p. 331),
Com efeito, os princípios chaves que faziam a estrutura do novo Estado (constitucional Brasileiro são) diametralmente opostas àquela vigente no Império (... podemos destacar) o sistema republicano, a forma presidencial de governo, a forma federativa de Estado e o funcionamento de uma suprema corte, apta a decretar a inconstitucionalidade dos atos do poder; enfim, todas as aquelas técnicas de exercício da autoridade preconizadas na época pelo chamado ideal de democracia republicana imperante nos Estados Unidos da América e de lá importadas para coroar [...] o Estado liberal, que representava a ruptura do modelo autocrático do absolutismo monárquico e se inspirava em valores [...] vinculados ao conceito individualista de liberdade.
Em relação ao momento histórico, somente após a morte de Floriano Peixoto é que os militares deixam paulatinamente o poder. Será somente com a saída de Floriano Peixoto em 1894, que se consolidam as oligarquias, de São Paulo, Minas e Rio Grande do Sul.
Será na constituição brasileira de 1891 que observaremos esse embate das forças que governam nosso país, materializando-se sob a égide constitucional. Nesse sentido, reza a constituição:
Art. 72 - A Constituição assegura a brasileiros e a estrangeiros residentes no País a inviolabilidade dos direitos concernentes à liberdade, à
segurança individual e à propriedade, nos termos seguintes:
§ 1º - Ninguém pode ser obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma
coisa senão em virtude de lei.
Art. 73 - Os cargos públicos civis ou militares são acessíveis a todos os brasileiros, observadas as condições de capacidade especial que a lei
estatuir, sendo, porém, vedadas as acumulações remuneradas.
Art. 80 - Poder-se-á declarar em estado de sítio qualquer parte do território da União, suspendendo-se aí as garantias constitucionais por tempo determinado quando a segurança da República o exigir, em caso de agressão estrangeira, ou comoção intestina (Constituição da República dos
Estados Unidos do Brasil, de 24 de Fevereiro de 1891). [grifos nossos]. De 1894 até aproximadamente 1930, o poder político ficou nas mãos das oligarquias cafeeiras paulistas e mineiras, período conhecido popularmente como: a república do café com leite. Nesse sentido, observamos que o café será uma alusão direta a São Paulo, maior centro produtor e exportador de café do País. Já o leite, reporta as bacias leiteiras de Minas Gerais, tradicional produtora.
É desse período a formação da figura do “Coroner17
”. Para homogeneizar seus domínios políticos, tal figura garantia os votos dos seus “apadrinhados” (voto de cabresto) para o governador de Estado em troca de apoio político para seus “indicados” no município em que ele residia. Em virtude de ser sempre um grande latifundiário, num Brasil essencialmente rural e de exacerbada concentração de terras (latifúndios) nas mãos de poucos, havia uma extensa seara para que essa figura “singular” mandasse e desmandasse na política. Muitas vezes, na ávida procura por votos, o “Coroner” era a única ligação entre aquela população e o poder estatal.
Em virtude dos laços “afetivos” que cultivava no seio político, geralmente indicava as pessoas para ocuparem os cargos de: Intendente Municipal, de prefeito, de Delegado de Polícia ou de Vereador. Nesse período a polícia é totalmente
17Coroner, em detrimento de Coronel, é a figura do grande latifundiário brasileiro, que substitui o
Estado em suas terras, sendo o responsável direto pela venda dos votos de seus empregados (conhecido como “voto de cabresto”), por vantagens políticas e pecuniárias na/da sua região de influencia, inclusive indicando quem seriam os funcionários públicos da região, tais como os policiais e o delegado de polícia.
governada/ comandada pelos governadores de Estado. Nesse cenário, São Paulo/ Minas Gerais encaminham policiais aos USA/ EU para que possam treinar e aprimorar seus conhecimentos (Huggins, 1998).
Mais uma vez o quadro se perpetua. O Estado gesta uma polícia política, voltada exclusivamente para defender as oligarquias dominantes, onde se perpetua o elitismo das oligarquias regionais. Até o ano de 1930 vigorava no País a conhecida aliança política do “café com leite” (entre SP e MG), que ira impor-se pelo fato de estes dois aliados possuírem forte influencia econômica no país, visto que tanto o cultivo do café, quanto a criação de gado, requer um enorme latifúndio para resguardar tais produtos.
Nesse contexto, existia um acordo de revezamento entre as elites dominantes, onde os presidentes ora eram apoiados pelo Partido republicano Paulista (PRP – SP), ora eram apoiados pelo Partido Republicano Mineiro (PRM - MG), para assumirem/ governarem a presidência de nosso País. Com isto, os jogos de interesse persistiam mesmo com um ou outro partido no poder, pois, em tese, buscavam seus próprios benéficos sem desagradar seus companheiros subsequentes.
Washington Luís ao indicar um companheiro do mesmo partido à sucessão (Júlio Prestes), desagrada à oligarquia mineira, motivo que a levou a unir-se com outras oligarquias, como a do Rio Grande do Sul. Assim em virtude de uma aliança que alegava fraudes nas eleições, que reunia gaúchos, mineiros e paraibanos, (Fragoso, 1996) arquitetou-se uma revolta armada para impedir a sua posse de Prestes. A situação se complica ainda mais quando João Pessoa, vice de Getúlio é assassinado em Pernambuco.
Devemos lembrar que estamos sentindo a crise de 1929 e que o Exército continua descontente desde a revolta do tenentismo. Isto fora o pretexto certo para que fosse formada uma junta governamental composta pelos comandantes das forças armadas (Exército, Marinha e Aeronáutica) e transmitissem o poder a Getúlio Vargas, que iniciaria a conhecida “Era Vargas” por um lapso temporal de aproximadamente 15 anos.
No campo policial, Vargas centraliza o controle das polícias para o governo central. Com tal engendramento, e a partir do Estado Novo, tem início um período ditatorial em nosso país que trará um novo contorno a força policial: o de polícia política, que atuará não mais como “protetora exclusiva” das oligarquias que dominam o seio político, mas como elemento de controle e coercibilidade social, da nova classe política dominante.