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3. Relativas com antecedentes parcialmente realizados

3.5. Orações relativas com antecedentes quantificacionais

3.5.1. O constituinte relativo “quanto” (invariável)

As construções relativas encabeçadas pelo morfema “quanto” (e pelas respetivas variantes morfológicas, tal como veremos na secção 3.5.2) levantam questões específicas no universo das orações relativas, razão pela qual vários autores (Brito 1991, Móia 1992; Ferreira 2007; Veloso 2013) se limitam a fazer-lhes breves referências nos seus trabalhos sobre relativas.

Em primeiro lugar, no capítulo 2 da presente dissertação foi referido, a respeito dos morfemas-Q que podem ocorrer em relativas livres, que Móia (1992) afirma que o morfema “quanto” é dotado do traço sintático-semântico [-humano] e pode ser empregue para introduzir relativas livres, tal como demonstra o seguinte exemplo, extraído de Móia (1992: 74):

(132) Quanto sucedeu foi lastimável.

Também este morfema relativo “quanto” pode ser antecedido da expressão universalmente quantificada “tudo” (cf. 132’)25, não aceitando como antecedente uma expressão não quantificada universalmente, como em (132’’):

(132’) Tudo quanto sucedeu foi lastimável.

(132’’) *As coisas quanto sucederam foram lastimáveis.

24 Ver secção 3.3 para a discussão das propriedades específicas do morfema relativo “o que”.

25Tal como foi referido na secção anterior, também o morfema “o que” pode ser antecedido desta expressão, embora, tal como “quanto”, não admita antecedentes expressos não quantificados: “*As coisas o que sucederam foram lastimáveis.” vs “(Tudo) o que sucedeu foi lastimável.”

Verifica-se ainda a existência de relativas livres introduzidas pelo morfema

“quanto” em posição de subcategorização (cf. 133)26, ou seja, selecionadas por um verbo matriz, caso em que também podem ser antecedidas pela expressão universalmente quantificada “tudo” (cf. 133’):

(133) Agradeço quanto fizeste por mim.

(133’) Agradeço tudo quanto fizeste por mim.

Além de poder surgir em relativas livres, note-se que este morfema pode ainda surgir em interrogativas subordinadas parciais de quantidade:

(134) Não sei / Ignoro quanto fizeste por mim.

Em ambos os casos (relativas livres e interrogativas subordinadas introduzidas por “quanto”) parece existir a possibilidade da inserção do artigo definido masculino singular antes da oração relativa:

(135) Agradeço o quanto fizeste por mim.

(136) Não sei / Ignoro o quanto fizeste por mim.

26 Refira-se que existe uma oscilação de juízos de gramaticalidade no que diz respeito a estas construções;

alguns falantes consideram mais aceitáveis as relativas livres com “quanto” em posição de subcategorização, como em (133), rejeitando as relativas livres em posição de sujeito como (132); quer dizer, para esses falantes, a única possibilidade é (132’), com o antecedente quantificacional “tudo”

expresso.

Recordando a distinção entre relativas livres e interrogativas subordinadas abordada na secção 2.1, vários autores (cf. Brito 1991, Veloso 2013, Matos e Brito 2018) sustentam que uma interrogativa subordinada parcial corresponde a um SCOMP, enquanto uma relativa livre é uma expressão nominal (SDET) que seleciona, por sua vez, um SCOMP; neste caso, a inserção do artigo definido parece ser uma marca da nominalização da interrogativa parcial subordinada com “quanto”, “transformando” um SCOMP num SDET.

Já no que diz respeito às orações relativas introduzidas pela sequência “tudo quanto”, constatamos, inicialmente, que estas podem desempenhar várias funções sintáticas, como a de Sujeito (cf. 137) ou Objeto Direto (cf. 138), e podem ainda estar integradas num SPREP (cf. 139, 140):

(137) Tudo quanto está a acontecer nos domínios da ação política ou moral neste final de século, representa uma enorme erupção das forças da contingência, que eram de todo imprevisíveis. (par=ext427690-clt-91b-2)

(138) Nunca escrevi tudo quanto gostaria de ter escrito. (par=ext17773-clt-93a-1)

(139) O seu conteúdo, recheado de auspiciosas inquietações, era devorado pelos cidadãos por tudo quanto era sítio. (par=ext140128-nd-95a-1)

(140) Os artigos não acrescentam, a tudo quanto se disse sobre a Expo 92, muitos dados. (par=ext198762-clt-92b-1)

Note-se que, em todos os exemplos acima reproduzidos, o morfema relativo

“quanto” que se segue à expressão universalmente quantificada “tudo” pode ser substituído pelo morfema “o que” sem qualquer alteração ao nível da gramaticalidade;

com efeito, conforme já foi dito anteriormente, estes morfemas têm em comum o traço sintático-semântico [-humano] que legitima a sua ocorrência em relativas livres.

Contudo, levanta-se uma importante questão inicial para a análise das propriedades do morfema “quanto”: será este morfema totalmente equivalente a “o que” em todos os casos, sendo dotado apenas do mesmo traço intrínseco, ou existem propriedades que os distinguem entre si?

De modo a abordar esta questão, vejamos o exemplo (141) e a respetiva manipulação em (141’):

(141) Comeu quanto havia em casa. (Veloso 2013: 2099) (141’) Comeu o que havia em casa.

Nestes dois casos, o emprego dos morfemas relativos não é equivalente, pois, com “quanto”, pressupõe-se a existência de um “antecedente quantificacional implícito”, nas palavras de Veloso (2013: 2099). Com a substituição pelo morfema “o que”, deixa de ser clara a quantificação do antecedente:

(142) Estava cheio de fome, pelo que comeu [tudo] quanto havia em casa.

(143) Não conseguiu ir ao supermercado, pelo que comeu o que havia em casa.

De facto, em (142), mesmo sem a presença da expressão universalmente quantificada “tudo”, a relativa livre introduzida por “quanto” tem um antecedente implícito quantificado; já em (143), não se exige que a oração introduzida por “o que”

tenha um antecedente quantificado, podendo ser equivalente a uma expressão nominal (= ”pelo que comeu o frango que havia em casa”).

A raiz morfológica do morfema “quanto” já tinha levado alguns autores a afirmarem que este morfema possui uma natureza quantificacional inerente, como é o caso de Brucart (1999) para o espanhol e Veloso (2013) para o português.

Com efeito, Brucart (1999: 506) define o constituinte equivalente a “quanto” em espanhol como sendo um “relativo quantificador”, afirmando que “Dos son las propiedades fundamentales de cuanto. Por una parte, como relativo que es, ejerce remisión anafórica a un antecedente explícito o implícito. Por otra, actúa como cuantificador impreciso (…) de la entidad sobre la que incide en la cláusula subordinada (…)”. Veja-se o seguinte exemplo de uma relativa livre introduzida por este morfema do espanhol, que possui uma construção totalmente paralela em português:

(144) Cuanto ocurre carece de sentido. (Brucart 1999: 506)

“Quanto sucede carece de sentido.”

O autor refere ainda que uma propriedade adicional deste constituinte é o facto de a sua natureza quantificacional exigir também a quantificação do seu antecedente, destacando que esta propriedade distingue “quanto” dos restantes morfemas relativos, dado que “(…) en las cláusulas especificativas, no se limita a tener como antecedente al núcleo de un SN, sin que toma como tal todo el sintagma cuantificado.” (Brucart 1999:

506)

Veloso (2013: 2099) reforça esta ideia, reiterando que “(…) o seu antecedente (…) é, precisamente, a quantificação do sintagma nominal a que a oração relativa está ligada e não propriamente o grupo nominal, o qual representa o domínio da quantificação.”

Em virtude dos exemplos anteriormente apresentados, da raiz morfológica do morfema “quanto” e dos argumentos apresentados por Brucart (1999) e Veloso (2013), parece ser natural concluir que o morfema relativo “quanto” é dotado de um valor intrínseco de quantificação, ou seja, possui um traço [+quant], além do traço sintático-semântico [-humano], que o distingue, em determinados casos, dos valores veiculados pelo morfema relativo “o que”, que é o mais subespecificado de todos os morfemas

relativos e especialmente vocacionado para remeter para frases e conteúdos predicativos.27

3.5.2. “Quanto” variável, especificador nominal

Além das estruturas relativas que acabámos de apresentar, existem ainda construções em que a forma “quanto” apresenta flexão em género e número, dando origem às variantes “quanta” (cf. 145), “quantos” (cf. 146) e “quantas” (cf. 147):

(145) O problema será quanta diversidade teremos capacidade de aguentar.

(par=ext126229-pol-94a-1)

(146) O Paulo comeu quantos gelados quis. (Móia 1992: 16)

(147) Já na liderança da seita, Deus diz-lhe que ele podia ter quantas mulheres desejasse. (par=ext744084-soc-93a-1)

Embora não sejam caso único de variação morfológica no universo dos pronomes relativos (vejam-se os casos de “o qual” e “cujo”, aos quais voltaremos a fazer referência na subsecção 3.5.3), estas formas têm a particularidade distintiva de poderem concordar com uma expressão universalmente quantificada antecedente, nomeadamente “todo”, “toda”, “todos” ou “todas”, o que levanta problemas ao nível da sua estrutura, que abordaremos mais adiante, na subsecção 3.5.3.

Note-se ainda que a realização da expressão universalmente quantificada impede a combinação da forma “quanto” variável com um nome expresso:

(148) O Paulo comeu toda quanta (*sopa) quis.

27 Recorde-se a possibilidade – aliás, altamente frequente e produtiva em PE – de ocorrência de “o que”

em orações apositivas de frase, como “Estava a chover, o que nos causou muito transtorno.” (Veloso 2013: 2085), possibilidade esta que não existe com o morfema “quanto”.

(149) O Paulo comeu todos quantos (*gelados) quis.

(150) O Paulo comeu todas quantas (*bolachas) quis.

Embora os exemplos anteriores demonstrem, tal como foi referido, que a inserção da expressão universalmente quantificada parece obrigar à não-realização lexical do nome, Móia (1992: 17) e Veloso (2013: 2101) acrescentam às suas análises em nota de rodapé que é possível encontrar exemplos de outras fases do português em que o nome é realizado, como ocorre na citação de Padre António Vieira (séc. XVII) que reproduzimos em (151) e na citação de Almeida Garrett (séc. XIX) que reproduzimos em (152).28

(151) “Não lhe bastarão todas quantas Escritturas havia.” (apud Móia 1992: 17) (152) “De todas quantas viagens porém fiz, as que mais me interessaram sempre foram as viagens na minha terra.” (apud Veloso 2013: 2101)

Tal como Móia (1992: 15) refere, esta variação em género e número de “quanto”

levanta uma questão fundamental para o estudo destas construções, surgindo o problema inicial de “(…) se saber se estas expressões são apenas variantes flexionais de um mesmo morfema ou se há que distinguir diferentes morfemas com raiz comum.”

A proposta apresentada pelo autor, que aqui corroboramos, é a da existência de duas subclasses distintas: uma destas subclasses refere-se exclusivamente ao morfema-Q “quanto”, que surge sozinho em relativas livres ou integrado na sequência “tudo quanto”, a cuja análise se dedicou a subsecção anterior; a segunda subclasse engloba as

28 Veloso (2013: 2101) apresenta ainda ocorrências contemporâneas deste mesmo fenómeno, assumindo, não obstante, que são bastante esporádicas e pouco naturais para a maioria dos falantes – de facto, esta possibilidade parece estar praticamente ausente do Português Contemporâneo, visto que não foi possível encontrar na nossa pesquisa nos corpora consultados qualquer exemplo deste tipo. O seguinte exemplo foi extraído pela autora de uma entrada de um blogue datada de 2009: “(…) visitávamos toda quanta família lá havia.”

estruturas de “quanto” com variação morfológica, precedentes a um nome e equiparáveis a um especificador relativo.

Note-se que o próprio especificador nominal “quanto”, na sua versão masculino e singular, pode ocorrer em estruturas pertencentes à segunda subclasse, antecedendo um nome massivo e podendo ou não ser antecedido da expressão universalmente quantificada “todo”, quando o nome não é realizado (cf. 153, 153’).

(153) O Paulo bebeu quanto leite quis. (Móia 1992: 16) (153’) O Paulo bebeu todo quanto [-] quis.

Este uso distingue-se, claro está, das estruturas em que “quanto” é um pronome relativo invariável, com as propriedades que descrevemos na subsecção anterior. Neste uso, “quanto” apenas pode ser antecedido da expressão universalmente quantificada

“tudo”, mas nunca “todo” (cf. 154).

(154) *Todo/Tudo quanto sucedeu foi lastimável.

Note-se ainda que, ao contrário do morfema relativo “quanto” invariável, que é dotado do traço sintático-semântico inerente [-humano], os especificadores nominais de raiz morfológica “quant-“ podem ocorrer com nomes [-humano], como nos exemplos anteriormente apresentados, mas também com nomes [+humano]:

(155) A UEFA, disse, não cedeu em nada, uma vez que a sua lei de estrangeiros não impede os clubes de contratar quem quiser e (*todos) quantos estrangeiros quiser.

(par=ext51452-des-91a-2)

(156) E fazer um «mailing» é quase instantâneo: basta clicar numa série de endereços (e até na totalidade do livro) para enviar a mesma carta a (*todas) quantas pessoas quiser. (par=ext218295-clt-soc-95a-1)

Existe também a possibilidade de estas formas serem utilizadas para introduzir interrogativas subordinadas parciais:

(155’) Não sei quantos estrangeiros (é que) o meu clube vai contratar.

(156’) Não sei quantas pessoas (é que) vão receber a minha carta.

No que diz respeito a “quanto”, especificador nominal variável na sua forma masculino e singular, pode também ser utilizado para introduzir interrogativas subordinadas parciais (cf. 157), embora não admita a inserção do artigo definido que nominaliza a construção, como foi referido anteriormente a respeito do seu homónimo

“quanto”, morfema relativo invariável (cf. 136, aqui repetido em 158):

(157) Não sei (*o) quanto leite o Paulo bebeu hoje.

(158) Não sei / Ignoro o quanto fizeste por mim.

No que diz respeito ao valor quantificacional veiculado por estas formas, Móia (2013), no seu trabalho sobre relativas de quantidade (às quais foi feita referência no capítulo 1 da presente dissertação), apresenta a possibilidade de as relativas introduzidas por “quanto” veicularem diferentes valores de quantificação, por meio dos seguintes exemplos de contagem (cf. 159), medição (cf. 160) e graduação (cf. 161):29

29 Note-se que este tipo de relativas livres de quantidade introduzidas pelo morfema “quanto” parece surgir tendencialmente em posições subcategorizadas, por exemplo como OD de um verbo matriz, sendo bastante menos frequente em posição de Sujeito.

(159) Leva quantos livros quiseres. (Móia 2013: 491) (160) Usa quanto tecido quiseres. (idem)

(161) Dar-te-ei quanto apoio precisares. (idem)

Visto que todos estes casos apresentam um nome explicitamente realizado no início da oração relativa livre, estas construções enquadram-se na segunda subclasse de morfemas de raiz “quant-“, caso em que estamos na presença de um especificador nominal e não do pronome relativo homónimo e invariável.

Os casos em que o especificador é substituído pelo pronome relativo “quanto”

(antecedido ou não da expressão “tudo” e também substituível, neste caso, pelo pronome “o que”) não são geradores de agramaticalidade; o valor quantificacional mantém-se, embora o domínio sobre o qual opera a quantificação se perca. Vejam-se as manipulações abaixo:

(159a) Leva (tudo) quanto precisares.

(159b) Leva (tudo) o que precisares.

(160a) Usa (tudo) quanto quiseres.

(160b) Usa (tudo) o que quiseres.

(161a) Dar-te-ei (tudo) quanto precisares.

(161b) Dar-te-ei (tudo) o que precisares.

Móia (1992: 18) aponta ainda que é possível construir estruturas paralelas a estas com o emprego do morfema “que”, caso em que “(…) o nome que anteriormente ocorria à direita do morfema-Q passa a integrar a estrutura nominal antecedente da oração relativa (…)”:

(159c) Leva a quantidade de livros de que precisares.

(160c) Usa a quantidade de tecido que quiseres.

(161c) Dar-te-ei a quantidade de apoio de que precisares.

Resumindo, nas duas últimas subsecções constatámos que existem em português duas classes diferentes de morfemas de raiz “quant-“:

(i) “quanto” relativo, invariável, em geral antecedido da expressão universalmente quantificada “tudo”, analisado na secção 3.5.1;

(ii) “quanto” especificador nominal, variável em género e número, em geral antecedido das expressões universalmente quantificadas

“todo/toda/todos/todas”, analisado na secção 3.5.2.

3.5.3. A estrutura sintática das orações relativas com antecedentes