Os Contabilistas Certificados, de acordo com o nº. 1 do art.º 10º do Estatuto da Ordem dos Contabilistas Certificados, possuem as seguintes funções: “planificar, organizar e coordenar a execução da contabilidade
organizada, de acordo com as normas legais em vigor; assumir a responsabilidade pela regularidade técnica, nas áreas contabilística e fiscal das entidades referidas anteriormente; assinar, em conjunto com o repre-sentante legal das entidades referidas anteriormente, as respetivas demonstrações financeiras e declarações fiscais”. Segundo o nº. 2 do mesmo artigo é também da responsabilidade dos Contabilistas Certificados “exercer funções de consultoria nas áreas da contabilidade e da fiscalidade; intervir em representação dos sujeitos passivos por cujas contabilidades sejam responsáveis, na fase graciosa do procedimento tributário e no processo tributário até ao limite que lhes-é permitido e também desempenhar quaisquer outras funções definidas por lei, relacionadas com o exercício das suas funções. Tendo em conta a natureza das funções dos Contabilistas Certificados, estes possuem um conjunto de deveres a cumprir para com a Autoridade Tributária e Aduaneira, devendo assim, “Assegurar que as declarações fiscais que assinam estão de acordo com a lei e as normas técnicas em vigor; acompanhar, quando para tal forem solicitados, o exame aos registos, documentação e declarações fiscais das entidades a que prestem serviços, prestando os esclareci-mentos e informações diretamente relacionados com o exercício das suas funções; abster-se da prática de quaisquer atos que, direta ou indiretamente, conduzam a ocultação, destruição, inutilização, falsificação ou viciação dos documentos e das declarações fiscais a seu cargo e por último, assegurar, nos casos em que a lei o preveja, o envio por via eletrónica das declarações fiscais dos seus clientes ou entidades patronais.” (art.º 73º do Estatuto da Ordem dos Contabilistas Certificados). Segundo Matos (2016) constitui também reflexo dos deveres de colaboração para com a Autoridade Tributária e Aduaneira as normas contidas nos artigos 63º da Lei Geral Tributária (LGT) 28º nº1 e nº2 al. f) e 29º nº1 al. g) do Regime Complementar do Procedimento de Inspeção Tributária5.
Os Contabilistas Certificados assumem, assim, uma posição de interlocutores privilegiados no contacto entre as entidades por cuja contabilidade são responsáveis e a Autoridade Tributária e Aduaneira (Matos, 2016). Lopes (2008) refere também que estes profissionais atuam como agentes dos seus clientes, mediando a relação entre o contribuinte e as autoridades fiscais, contribuindo para melhorar o relacionamento entre ambos. Para Tavares (2016) estes profissionais constituem parte ativa na operacionalização do sistema fis-cal, cooperando para o seu bom funcionamento, sendo ao mesmo tempo um agente de comunicação essen-cial entre o contribuinte e a Autoridade Tributária e Aduaneira, ao que acresce ainda o facto de ser um elo fundamental para o contribuinte na salvaguarda das suas garantias.
Venâncio (2018) apresenta o exemplo da declaração de IRS, que com o recurso a um Contabilista Certifi-cado, os contribuintes ficam com a certeza da fiabilidade da sua declaração. O autor acrescenta que o facto destes profissionais se encontrarem dotados de meios e de conhecimentos capazes de dar resposta às ne-cessidades dos contribuintes faz gerar uma segurança que permite evitar a comunicação inexata de infor-mação relevante para a Autoridade Tributária e Aduaneira e que pode levar à aplicação de coimas. Matos (2016) refere que constitui também exemplo do papel de intermediário qualificado do contabilista e da natureza pública da profissão, a alteração ao art.º 24º da LGT que contempla a responsabilidade dos mem-bros de corpos sociais e responsáveis técnicospelas dívidas tributárias operada pela Lei nº 60-A/2005, de
5 O art.º 63º da LGT diz respeito à inspeção no âmbito do procedimento tributário. O art.º 28º e 29º do Regime Complementar do Procedimento de Inspeção Tributária dizem respeito às garantias do exercício da função inspetiva nos atos de inspeção.
30/12, em vigor desde 1/1/2006, a qual passou a contemplar no n.º3 que “a responsabilidade prevista neste artigo aplica-se aos técnicos oficiais de contas desde que se demonstre a violação dos deveres de assunção de responsabilidade pela regularização técnica nas áreas contabilística e fiscal ou de assinatura de declara-ções fiscais, demonstradeclara-ções financeiras e seus anexos”. Esta alteração aumenta assim a responsabilização tributária dos Contabilistas Certificados que, ao assinar as demonstrações financeiras e as declarações fis-cais das entidades por cuja contabilidade são responsáveis, atestam a conformidade e veracidade das mes-mas face à regulamentação legal contabilística e fiscal (Matos, 2016).
Tendo em conta que o contabilista é um intermediário entre os contribuintes e Autoridade Tributária e Aduaneira, como já foi referido, torna-se fundamental que a relação entre todos estes agentes seja pacífica, o que nem sempre foi assim. Numa entrevista realizada em 2017, António Mendonça Mendes, Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, foi questionado acerca da perspetiva de Domingues de Azevedo, ex-bas-tonário da OCC, que afirmava que havia uma espécie de “in dúbio pro fisco”, isto é, que a vontade da Autoridade Tributária e Aduaneira prevalecia sempre sobre a vontade do contribuinte. A resposta do Se-cretário de Estado foi a de que na Autoridade Tributária e Aduaneira trabalham sempre para que a justiça tributária possa reconhecer a razão a quem a tem, quer seja o contribuinte, quer seja a Autoridade Tributária e Aduaneira. No mesmo sentido, acrescentou ainda que a Autoridade Tributária e Aduaneira tem uma fun-ção muito relevante na sociedade e existe em prol dos cidadãos e dos seus interesses, sendo essencial na arrecadação de receita fiscal, uma condição essencial para a prestação de serviços públicos por parte do Estado, acrescentando que a OCC é um parceiro privilegiado do governo e as propostas que apresenta são sempre tomadas em conta (Mendes, 2017). A atual bastonária da OCC, Paula Franco, questionada recente-mente sobre o relacionamento entre a Ordem e a Autoridade Tributária e Aduaneira, respondeu que acredita que é muito positivo tendo em conta que têm em comum um objetivo que é melhorar as obrigações dos contribuintes. Para isso, afirma ser fundamental a Autoridade Tributária e Aduaneira deixar os Contabilistas Certificados trabalharem em melhores condições, o que passa pela diminuição das obrigações acumuladas atualmente, eliminando as que já não fazem sentido. Reforçou, ainda, que a OCC está disponível para ajudar a Autoridade Tributária e Aduaneira a ser mais eficaz e a obter mais resultados no que respeita à arrecada-ção dos impostos (Franco, 2018).
Por fim, importa fazer referência à conferência “Cidadania Fiscal 2.0”, na qual foram assinados protocolos de cooperação importantes entre a Ordem e a Autoridade Tributária e Aduaneira, já referidos anteriormente, que demonstram a melhoria da relação entre ambos. A bastonária da OCC considerou a participação dos contabilistas nesta conferência fundamental, tendo em conta que são interlocutores privilegiados nestas matérias, acrescentado que se tratou da primeira vez que a Autoridade Tributária e Aduaneira e o Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais convidaram a Ordem para este protocolo, o que considera o reconhecimento público do trabalho dos Contabilistas Certificados. A Bastonária destacou ainda o compromisso do governo em respeitar mais toda a litigância entre os contribuintes e a Autoridade Tributária e Aduaneira e de ter um serviço de apoio ao contribuinte. Considera que estes passos são essenciais para que o cidadão sinta confi-ança e para que o contabilista, como interlocutor entre ambos, possa também garantir essa mesma segu-rança.
Do exposto revela-se fundamental que a OCC e a Autoridade Tributária e Aduaneira mantenham uma re-lação pacífica, pois como refere, Franco (2019), na atual sociedade em que vivemos, profissionais da
contabilidade e Estado, ao trabalharem unidos e comprometidos, podem contribuir de forma expressiva para melhorar a arrecadação de receitas tributárias e, juntos, criarem condições mais justas para todos de-senvolverem a sociedade civil de que todos somos parte integrante.
Em resumo, podemos afirmar que apesar de a relação entre a OCC e a Autoridade Tributária e Aduaneira nem sempre ter sido a mais pacífica, atualmente ambas as entidades têm reunido esforços no sentido de melhorar esta relação, o que contribui de forma muito positiva para melhorar o cumprimento das obrigações fiscais, que constitui objetivo de ambas. O protocolo de cooperação assinado entre a OCC e a Autoridade Tributária e Aduaneira no âmbito de matérias relacionadas com a educação fiscal demonstra que a Autori-dade Tributária e Aduaneira visualiza na OCC um reconhecimento público do trabalho dos Contabilistas Certificados e da importância que estes profissionais podem assumir no que toca a estas matérias. Nesse sentido, o ponto seguinte será dedicado concretamente ao papel que este profissional desempenha para a promoção da consciência fiscal coletiva.
4.3. O PAPEL DO CONTABILISTA NA PROMOÇÃO DE UMA CONSCIÊNCIA FISCAL