4 INDISPENSÁVEIS, DESEJÁVEIS E TENSAS: AS POSSÍVEIS
4.1 O CONTATO COM A COMUNIDADE LOCAL: INTERFERÊNCIAS
entre visitantes e população local podem ser categorizados em três situações: quando os visitantes compram bens ou serviços, quando visitantes e residentes compartem espaços ou quando os visitantes se dirigem expressamente aos residentes a procura de informações.
De acordo com Oliveira (2007), muitos mochileiros ao chegarem ao destino, preferem conhecer os lugares andando pelas ruas, utilizando os meios de transporte
públicos, entrando nos comércios locais, restaurantes e supermercados comuns aos cidadãos locais, sempre com o intuito de vivenciar realmente os costumes da comunidade local e, quando possível , interagir com as pessoas nativas. Atitudes como esta, são inversas ao turismo elitizado, ou aqueles adquiridos de forma fechada através de pacotes turísticos. Geralmente, nestes casos, o turista pouco sai do seu hotel ou resort, pois há uma variedade de atividades para serem desenvolvidas no próprio local. Quando saem do hotel, conhecem a cidade através do ônibus que faz o city tour. Essa é apenas uma forma de ilustrar que na maioria das vezes esses turistas não buscam manter contato com as pessoas locais e interagem com elas da forma mais superficial possível. (CARVALHO, 2009)
Para Gursoy; Jurowski; Uysal (apud Barreto, 2004) na atualidade parece não haver discussão quanto ao fato de que a relação entre visitantes e visitados apresenta graus de conflito bem variados. Por vezes, interferências para o visitado, e em outras, para o visitante. Dentre as mais frequentes, podemos destacar:
• A visão distorcida que a população local pode ter dos estrangeiros em decorrência de experiências anteriores não-positivas com forasteiros não- turistas;
• Preconceitos;
• A rapidez com que acontece o fenômeno de turistificação16 nos destinos; • A percepção que a população tem dos benefícios econômicos e sociais
advindos do turismo e, por este motivo, por vezes, tiram vantagem dos visitantes;
• Os custos sociais; • Os custos ambientais;
• Competição por recursos naturais na localidade; • Uso de instalações e infraestrutura local;
• Grau da distância social e econômica entre visitantes e visitados.
16 O processo de turistificação ocorre quando um espaço é apropriado pelo turismo, fazendo com que haja um direcionamento das atividades para o atendimento dos que vem de fora, alterando a configuração em função de interesses mercadológicos. (ISSA; DENCKER, 2006)
Outra variação de conflito entre visitantes e visitados ocorre quando os visitados estão em diferentes estágios de acesso à tecnologia e a outros padrões da civilização ocidental (BARRETO, 2004). Os viajantes esperam encontrar “o primitivo”, o “bom selvagem” não “contaminado” pela civilização urbana. Paradoxalmente os visitados, quanto mais pobres, mais depositam no turismo suas expectativas de progresso, de integração ao processo civilizatório e a economia de mercado.
Existe também a incidência de interferências quando os visitantes não se preocupam com os costumes locais, como aponta Noronha (1999). O autor sugere que alguns viajantes, até mesmo mochileiros, simplesmente não se preocupam com costumes locais e que possuem um comportamento inaceitável, mostrando descaso com as normas sociais. Ao se considerarem livres dos comprometimentos e das restrições sociais, podem apresentar um comportamento culturalmente e socialmente desapropriado.
Para Carvalho (2009) isso parece ser um problema particularmente em guetos ou enclaves de mochileiros, ou seja, lugares onde se congregam vários viajantes para usufruir de confortos domésticos e a companhia de turistas com pensamentos parecidos. Tais lugares podem ser encontrados em Kathmandu 17, Bancóc18 e Pushkar19, pontos maiores de referência na grande rota pela Ásia. Sorensen (apud Carvalho, 2009) cita o exemplo de Bancoc, na Tailândia, onde o famoso enclave de mochileiros, a Khaosan Road, como é conhecido, tornou-se um mundo à parte, uma região desvinculada das características da cidade e da população local. Lá, esses viajantes “reinam absolutos”. Serviços como hospedagem, restaurantes e salões de beleza, e comércios, como farmácias, lojas de CDs e de roupas, são exclusivamente voltados aos turistas e com pequena participação dos tailandeses.
17 O Kathmandu fica localizado no Nepal. O vale de Kathmandu foi declarado Patrimônio Mundial da Humanidade pela Unesco em 1979 é o principal ponto turístico do Nepal.
18 Bancóc é a capital, bem como a maior e mais importante cidade da Tailândia.
19 Pushkar é uma cidade no distrito de Ajmer, no estado indiano de Rajasthan. Ele é um dos cinco dhams sagrados (local de peregrinação) para os hindus devotos. É um cidade que tem sido destino popular para turistas estrangeiros.
Por outro lado, percebe-se que a grande maioria dos mochileiros, são possuidores de um espírito aventureiro e busca novos desafios. Na maioria das vezes ele é um viajante idealista, político e socialmente correto, porque busca conhecer de fato o lugar, a cultura, respeita o meio ambiente e consome coisas do lugar, aceita a hospedagem rústica sem mudar os hábitos do morador e incentiva as manifestações culturais locais (GIARETTA, 2003).
No entanto, há de se lembrar que os visitantes também geram fatores positivos para a comunidade receptora. Wilson (1997) e Hampton (1998) enumeram estas vantagens deste tipo de turismo econômico, incluindo maiores oportunidades de emprego, distribuição dos benefícios econômicos para a comunidade local, manutenção dos proprietários locais e dos equipamentos turísticos.
Cohen (apud Barreto, 2004) caracteriza os encontros entre visitantes e visitados como “essencialmente transitórios, assimétricos e sem repetição, [onde] os participantes procuram gratificação imediata em lugar de continuidade”. Acrescenta que essa efemeridade das relações é a que propicia a exploração, o engano, a hostilidade e a desonestidade; fatores estes presentes na relação entre turistas e população local justamente porque nenhuma das partes envolvidas se sente comprometida com as conseqüências das suas ações.
Muito se fala das interferências dos turistas para a comunidade local, no entanto, ainda não se estudou o caminho inverso. Até que ponto as relações entre a comunidade local para com o visitante se estabelece de forma positiva?
4.2 O CONTATO COM OS COMERCIANTES: AS RELAÇÕES COMERCIAIS