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O contato com a realidade externa: o seio encontrado-criado

3 O USO DO CONCEITO DE NARCISISMO PRIMÁRIO NO CONTEXTO DA

3.4 PROCESSOS NO ENCONTRO ENTRE O BEBÊ E OS CUIDADOS

3.4.2 O contato com a realidade externa: o seio encontrado-criado

Conforme abordamos no capítulo anterior, o narcisismo primário foi debatido durante as controvérsias na SBP em torno do problema: quando e de que forma se iniciam as relações de objeto? Encontramos, nos anos que seguem a estes debates, algumas referências de Winnicott que abordam temáticas afins e que serão importantes para compreendermos o lugar do narcisismo primário em seu pensamento.

Buscando um fundamento para a discussão sobre a construção da relação de

36 Conforme o Dicionário Cambridge de inglês britânico, o termo “realization” refere-se ao momento em que se começa a compreender uma situação. (REALIZATION, 2013).

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objetos, Winnicott (1945) se volta para a experiência analítica e para o problema do contato de seus pacientes com a realidade externa. Novamente, ele indica para a influência da clínica da psicose na temática do desenvolvimento emocional primitivo. Winnicott (1945, p. 152, tradução nossa) afirma:

Muitos casos que consideramos inadequados para análise são de fato incompatíveis se não pudermos lidar com as dificuldades transferenciais que pertencem a uma falta essencial [essential lack] de verdadeira relação com a realidade externa. Quando aceitamos analisar psicóticos, descobrimos que, em algumas análises, essa falta essencial de verdadeira relação com a realidade externa é quase toda a questão [almost the whole thing].

Desta forma, é a partir de sua experiência clínica com psicóticos, que demostram uma dificuldade de relação com a realidade externa, que Winnicott se posiciona quanto a debates em jogo na SBP.

Conforme abordamos anteriormente, a discussão durante as controvérsias na SBP sobre a vida psíquica primitiva se dava em torno de um bebê e um seio que o amamenta, tanto nas proposições de Anna Freud quanto nas contribuições de Klein. Para Anna Freud, o mais importante era a satisfação do alvo instintual através da alimentação, assim como o fato de que uma mãe concreta era necessária para amamentar o infante. Klein, por sua vez, propunha que o seio já era um objeto parcial para o bebê, considerando que este estabelecia relações objetais desde o início da vida.

Winnicott (1945) toma os elementos em debate – “o bebê” e o “seio” – e reconsidera esta discussão de forma criativa. O autor indica que, de um lado, o bebê tem impulsos instintuais e, de outro, a mãe tem um seio, a possibilidade de produzir leite e a ideia de que gostaria de ser atacada por um bebê faminto. No entanto, para o autor, o mais importante é o encontro entre estes dois fenômenos, o que possibilita uma experiência vivida entre mãe e bebê. Winnicott (1945, p. 152, tradução nossa) declara:

Penso no processo como se duas linhas viessem de direções opostas, passíveis de se aproximarem entre si. Se elas se sobrepõem, ocorre um momento de ilusão – um pedaço da experiência que o bebê pode tomar como sendo tanto sua alucinação como uma coisa pertencente à realidade externa.

Logo, para o autor, o que se cria entre bebê e mãe proporciona uma experiência que é tanto parte da vida psíquica do infante como da realidade externa. Esta ideia é apresentada pelo autor em um esquema gráfico (FIGURA 1).

64 FIGURA 1 – MOMENTO DE ILUSÃO

FONTE: WINNICOTT (1953 [1951], p. 240, tradução nossa)

Ao apresentar essa imagem, Winnicott (1953 [1951]) descreve este momento como a ilusão – compartilhada entre mãe e bebê – de que o seio materno dado ao infante é parte dele mesmo.

A possibilidade da criação deste fenômeno de ilusão estaria assentada, para Winnicott (1945), na adaptação ativa da mãe ao bebê. Ele assevera:

Para que esta ilusão seja produzida na mente do bebê, um ser humano tem que se dar ao trabalho permanente de trazer o mundo para o bebê de uma forma compreensível e de um modo limitado, adequado às suas necessidades. Por esta razão, um bebê não pode existir sozinho, física ou psicologicamente, e realmente precisa de uma pessoa para cuidar dele no início. (WINNICOTT, 1945, p. 154, tradução nossa).

Assim, Winnicott indica a importância de que alguém se adapte sensivelmente ao bebê, apresentando o mundo para a criança em pequenas doses. Podemos compreender que esta condição está assentada no “narcisismo da mãe” ou “preocupação materna primária”, abordados anteriormente. Além disso, fica evidente, mais uma vez, a importância da identificação da mãe com o bebê, o que permite a ela considerar o infante como parte de si mesma e entregar-se à experiência de ilusão.

Diante da forma original de pensamento concebida por Winnicott, algumas perguntas podem ser levantadas: Onde se localiza o fenômeno da ilusão? A ilusão do seio pertence ao bebê ou à mãe? Winnicott (1953 [1951]) esclarece as suas proposições afirmando:

[...] o seio é criado e recriado repetidamente pelo bebê a partir de sua capacidade para amar ou (pode-se dizer) a partir de sua necessidade. Desenvolve-se um fenômeno subjetivo no bebê ao qual denominamos ‘o seio da mãe’. A mãe coloca o seio real justamente ali, onde o bebê está pronto para criá-lo, e no momento certo. (WINNICOTT, 1953 [1951], p. 238-239, tradução nossa).

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acordo com o autor, este fenômeno constitui um espaço que não é parte nem do mundo interno nem do mundo externo, mas de uma terceira área da experiência – os fenômenos transicionais. Este modo paradoxal de compreender o início da vida psíquica é um fundamento importante no pensamento do autor, que se aprofunda no decorrer da construção de sua obra.

É importante destacar que Winnicott (1953 [1951]) acrescenta uma nota de rodapé para explicar o que quer dizer com “fenômeno subjetivo no bebê ao qual denominamos ‘seio da mãe’”. Ele salienta que o termo “seio” representa tanto a técnica de maternagem quanto o seio real. Ele afirma:

Quando se diz que o primeiro objeto é o seio, a palavra “seio” é usada, acredito, para representar tanto a técnica de maternagem como a carne propriamente dita. Não é impossível para a mãe ser suficientemente boa (em minha maneira de considerá-lo) com uma mamadeira para a alimentação. Se este sentido amplo da palavra “seio” é mantido em mente, e a técnica materna deve ser incluída no sentido total do termo, então há uma ponte entre o vocabulário de Melanie Klein para descrever a história inicial [do bebê] e o modo como Anna Freud o faz. A única diferença que permanece se refere às datas, o que na realidade é uma diferença desimportante e que irá desaparecer automaticamente com o passar do tempo. (WINNICOTT, 1953 [1951], p. 239, tradução nossa).

Assim, Winnicott reconhece a ênfase de Anna Freud aos cuidados maternos. Por outro lado, o autor indica que, ao cuidar do bebê, algo se dá em termos emocionais primitivos, possibilitando o fenômeno da ilusão e a construção de uma relação com o mundo externo. Desta forma, o seio também seria uma temática referente à potencialidade da relação objetal com a mãe, tema destacado por Klein.

Podemos considerar que Winnicott (1945), ao examinar a questão da construção da relação de objeto, coloca-se em um lugar que superpõe a ênfase nos cuidados maternos concretos dispensados ao infante e a ênfase na vida psíquica do bebê. O autor declara deparar-se com discussões frequentes no campo psicanalítico sobre as frustrações impostas pela exterioridade, considerando mais raro se ouvir acerca do alívio e satisfação que a realidade externa pode proporcionar. Neste contexto, ele assevera: “A realidade externa tem freios, podendo ser estudada e conhecida, e, na verdade, a fantasia somente é tolerável quando a realidade objetiva é bem levada em conta” (WINNICOTT, 1945, p. 153, tradução nossa). Assim, o mundo externo não é visto pelo autor somente como fonte de restrições, mas também como um anteparo para a possibilidade de satisfação.

Esta concepção de ilusão como um fenômeno “encontrado-criado” está em conformidade com o que o autor apresentou anteriormente sobre a recém-nascido

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como uma “criatura completamente narcísica” e sobre o cuidado materno relacionado ao narcisismo da mãe e à sua capacidade de identificar-se com o bebê. Neste sentido, Winnicott (1953 [1951], p. 239, tradução nossa) acrescenta: “Psicologicamente o bebê mama em um seio que é parte dele mesmo, e a mãe oferece leite a um bebê que é parte dela mesma. Em psicologia, a ideia de um intercâmbio é baseada em uma ilusão”.

As considerações de Winnicott sobre o fenômeno da ilusão estendem-se de seu trabalho analítico com pacientes psicóticos até uma compreensão da vida psíquica de crianças e adultos. Ele acrescenta sobre a área intermediária da ilusão:

[...] na primeira infância [esta] é uma área acerca da qual estamos de acordo, inconteste no que tange a ter sido criada pelo bebê ou reconhecida como uma parte da realidade percebida. Permitimos ao bebê essa loucura, e apenas gradualmente requisitamos uma distinção clara entre o subjetivo e o que é passível de comprovação científica ou objetiva. Nós, os adultos, usamos a arte e a religião como um tipo de “recreio” [for the off moments], do qual todos precisamos no decurso do teste de realidade e da aceitação da realidade. Se um indivíduo reivindica uma indulgência especial em relação a esta área intermediária, reconhecemos uma psicose; se o indivíduo é um adulto, utilizamos o epíteto “louco”. Na observação de crianças, nós vemos novamente a gradação natural das dificuldades comuns da natureza humana até as doenças psicóticas. Estas doenças psicóticas representam somente exageros, aqui e ali, e não implicam numa diferença essencial entre sanidade e insanidade. (WINNICOTT, 1953 [1952], p. 224, tradução nossa).

Logo, o autor considera que toda pessoa tem a tarefa de conquistar algum nível de diferenciação entre o que é “subjetivo” e a realidade compartilhada. Neste sentido, Winnicott não estabelece uma diferença essencial entre os que são considerados pela sociedade como “loucos” e os que são tidos como “normais”.

A partir do que expusemos sobre o contato com a realidade externa e o fenômeno de ilusão, pudemos verificar que Winnicott considera que o bebê possui uma criatividade primária. Assim, para o autor, o infante é “criativo” antes mesmo da conquista de um status de unidade e da capacidade de estabelecer relações de objeto. Em 1952, o autor apresenta uma afirmação que articula alguns dos temas que abordamos até o momento:

No início o indivíduo não é a unidade. Conforme é percebido pelo observador externo [from outside], a unidade é uma organização ambiente-indivíduo [environment-individual set-up]. O observador sabe que a psique individual somente pode ter início em um certo arranjo [setting]. Neste arranjo, o indivíduo pode gradualmente vir a criar um ambiente pessoal. Se tudo corre bem, o ambiente criado pelo indivíduo torna-se algo suficientemente parecido com o ambiente que pode ser geralmente percebido e, neste caso, chega-se a um estágio no processo de desenvolvimento através do qual o indivíduo passa da dependência para a independência. Esta é uma fase de desenvolvimento repleta de armadilhas [tricky developmental era] e é principalmente no sucesso desta fase que repousa a saúde mental no que diz respeito à psicose.

67 (WINNICOTT, 1953 [1952], p. 221-222, tradução nossa).

Assim, nesta passagem, o autor relaciona várias dimensões já apresentadas em nosso trabalho. Para Winnicott, o bebê parte de uma condição de não-integração, caracterizada pelo desconhecimento de sua dependência ao ambiente. A partir da adaptação sensível de uma função materna, dá-se uma organização (set-up37) por meio da qual o bebê pode ser criador de um objeto que é apresentado a ele.

Consideramos até o momento o uso que Winnicott faz de várias discussões concernentes ao narcisismo primário a partir dos pensamentos de Sigmund Freud, Anna Freud e Melanie Klein, ao lado de suas referências sobre o recém-nascido como “criatura completamente narcísica” e acerca do narcisismo da mãe. A partir de 1954, Winnicott faz menções diretas ao conceito de “narcisismo primário” em diferentes períodos de seu pensamento. Apresentamos na sequência de nosso trabalho considerações sobre as alusões do autor a este conceito, tendo em vista a construção cronológica de sua obra.

3.5. MOVIMENTOS NO NARCISISMO PRIMÁRIO: SOBRE A MOTILIDADE E A