• Nenhum resultado encontrado

O conteúdo sob o ponto de vista do produto

No documento Media, information and literacy (páginas 82-105)

3.6. Conteúdo

3.6.2. O conteúdo sob o ponto de vista do produto

80

Questões geográficas, aqui tratadas como localismo, por sua vez, apresentam nuances mais sofisticadas. Uma série de questionários aplicados a leitores em pesquisas de Berger et al. (2015) e Goyanes (2015) acerca do tema mostra que a questão geográfica tem forte peso na disposição para pagar, principalmente por conta da demanda por notícias locais. Sua especificidade, identidade e proximidade com os leitores viabiliza não apenas a motivação para o consumo do conteúdo por parte dos leitores como também a execução de eventos, parcerias e serviços de classificados, que acabam virando fonte de receita importantes para esse tipo de negócio (Goyanes, 2015).

81

a informações privilegiadas em formato digital, como dashboards de acompanhamento de indicadores econômicos.

Além da discussão em torno do assunto mercado financeiro no que tange o tipo de conteúdo especializado, também se discute na literatura sobre o WTP a ideia de diferenciação de conteúdos.

Chamado como “something extra” por Himma-Kadaks e Kõuts (2015), trata-se da exploração do meio digital para que se possa oferecer algo de exclusivo no produto.

4. DI S C u S S ÃO

Posto isso, e testando as relações entre os elementos e seu poten-cial de incremento do WTP, faz-se aqui uma proposição esquemática de quando um tópico de conteúdo tende a ter maior ou menor WTP.

Essa validação é uma livre interpretação deste estudo e tem como matriz os resultados obtidos em cima dos 19 elementos encontra-dos e das análises específicas de cada estudo acerca das estruturas hierárquicas desses elementos.

Viu-se aqui que tópicos de conteúdo especializados – e aqui podemos relembrar os exemplos de sites relacionados ao mercado financeiro (Oster & Morton, 2005) e ao jornalismo investigativo (Gómez & Sandoval-Martín, 2016) – têm como eixo de condução para o WTP a motivação para o consumo. O elemento motivação, contudo, pôde ser encontrado, ainda que em menor escala, como elemento de ligação entre o consumidor e o produto.

O termo é uma ideia genérica que representa a lógica de demanda de mercado tanto na área de serviços (onde também se enquadra o consumo de conteúdo) quanto na de manufaturados (Berger et al., 2016). A motivação para se informar decorre, no caso específico do consumo de um produto jornalístico, da necessidade da criação subjetiva do ser humano em construir narrativas que deem sentido

82

para as suas práticas cotidianas, ajudando-o na tomada de decisões objetivas (como comprar um produto ou viajar a algum lugar reco-mendado por uma reportagem) ou subjetivas (como a identificação de valores políticos ou sociais por meio do relato de fontes ou ideias trazidas pelos conteúdos) (Marta-Lazo et al., 2016).

Ao se definir que há uma relação entre emissor (conteúdo) e receptor (consumidor), é possível dizer que a interpelação entre ambos se dá quando um tópico do conteúdo (do lado do produto) gera uma percepção de identidade e uma motivação pessoal (do lado do usuário) para consumir. Se, a partir do consumo, o usuário tem uma percepção de qualidade capaz de o formato em que o produto é entregue o satisfazer, ou uma percepção de qualidade em relação ao conteúdo que é produzido, envolvendo todos os seus elementos subsidiários, e gerando uma maior satisfação ou uma percepção de que o serviço oferecido presta contas sob o ponto de vista do jornalismo, a existência ou o incremento do WTP é mais provável.

Figura 2 – Proposta de estrutura para avaliação de potencial de WTP

Fonte: autoria própria

83

Em cima desse esquema, cada uma das três esferas postas, ao serem sujeitas ao crivo da qualidade, podem subdividir os elemen-tos entre inputs, que precedem o consumo do conteúdo ou que são relacionados ao produtor, e outputs, que são considerados pelo con-sumidor mais diretamente. O esquema interpretativo, dessa forma, pode ser sofisticado conforme a Figura 4:

Figura 3 – Distribuição dos elementos entre inputs e outputs dentre as esferas

Fonte: autoria própria

No esquema, os elementos especialização, localismo, perfil e identidade ganham destaque por gerarem, baseado na pesquisa, um maior grau de motivação para o consumo e, consequentemente, um grande peso na disposição para pagar caso o conteúdo con-siga incorporar bem esses elementos. É importante pontuar que os elementos de input foram os encontrados dentro da delimitação pro-posta do estudo, ou seja, trazem uma descrição restrita em relação às características do produto. É possível que pesquisas na área de Comunicação tendam a explorar de maneira mais específica os for-matos, tópicos de conteúdo e princípios jornalísticos, podendo gerar outras formas de output que não aquelas relacionadas diretamente ao WTP em estudos prévios. O objetivo do esquema interpretativo descritos nas Figuras 3 e 4 é, entretanto, modelar a estrutura lógica de construção de WTP dentro da revisão sistemática que foi feita.

84

A partir disso, considerando que a gama de tópicos de conteúdo é enorme, os formatos são inúmeros e as percepções sobre o que é jornalismo de qualidade é bastante dinâmica, abre-se espaço para que múltiplos testes sejam feitos, avaliando como conteúdos jornalís-ticos publicados na internet respondem à lógica hierárquica proposta.

CO n C l u S õ E S

A partir do objetivo e da metodologia estabelecida, foram encon-trados 19 elementos na literatura que aprecem como interferentes no WTP por conteúdo jornalístico digital. Eles foram organizados em três esferas: formato, conteúdo e jornalismo.

Os relacionados ao formato ratificaram a hipótese de que o ecossistema de distribuição de conteúdo (desde a plataforma até a página de pagamentos) tem peso definitivo na decisão de compra do usuário final.

Viu-se que a especialização do conteúdo é uma esfera que engloba um maior número de elementos, e no qual identidade, perfil, espe-cialização de tópico de conteúdo e localismo se destacam.

Também foi identificado a presença de princípios jornalísticos tem peso significativo, mas carecem de capacidade de transformar seu valor em WTP. Isso posto, abre-se a possibilidade de novos estudos sobre como esse esquema interpretativo responde empiricamente na disposição dos leitores na disposição por pagar por conteúdo jornalístico digital.

Referências

Benlian, A. B. (2015). Web Personalization Cues and Their Differential Effects on User Assessments of Website Value. Journal of Management Information Systems, 32, 225-260.

85

Berger, B., Matt, C., Steinnger, D. M., & Hess, T. (2015). It Is Not Just About Com-petition With “Free”: Differences Between Content Formats in Consumer Preferences and Willingness to Pay. Journal of Management Information Systems, 32, 105-128.

Bertini, M., Wathieu, L., & Iyengar, S. S. (2012). The Discriminating Consumer: Pro-duct Proliferation and Willingness to Pay for Quality. Journal of Marketing Research, 49, 39-49.

Biçakcioglu, N., Ögel, I. Y., & Ilter, B. (2017). Brand jealousy and willingness to pay premium: the mediating role of materialism. Journal of Brand Management, 24, n. 1, janeiro de 2017, pp. 33-48.

Bohm, B. (1979) Estimating willingness to pay: Why and how. Scandinavian Journal of Economics

Choi, A. S. (2009). Willingness to pay: how stable are the estimates? Journal of Cultural Economics, 33, 301-310.

Chyi, H. I. (2009). Information surplus and news consumption in the digital age:

Impact and implications. Journalism and citizenship: New agendas. 91-107.

Chyi, H. I. (2015). Willingness to Pay for Online News: An Empirical Study on the Viability of the Subscription Model. Journal of Media Economics, 18, 131- -142.

Cook, J. E., & Attari, S. Z. (2012). Paying for What Was Free: Lessons from the New York Times Paywall. Cyberpsychology, Behavior, and Social Networking. 15, 12-29.

Essoussi, L. H., Linton, J. D. (2010). New or recycled products: how much are con-sumers willing to pay?. Journal of Consumer Marketing, 27, 458-468.

Gómez, E. F. R., & Sandoval-Martín, M. T. (2016). Interest and willingness to pay for investigative reporting: a solution for the crisis of journalism? Communication

& Society, 29 1-19.

Goyanes, M. (2015). The Value of Proximity: Examining the Willingness to Pay for Online Local News. International Journal of Communication, 9, 1505-1522.

Goyanes, M. (2016) An Empirical Study of Factors that Influence the Willingness to Pay for Online News, Journalism Practice, 12, 65-72.

Hallinger, J. (2013). Online Journalism: a critical primer. Pluto Press, 4, 44-57.

Himma-Kadakas, M., & Kõuts, R. (2015). Who Is Willing to Pay for Online Journa-listic Content? Media and Communication, 3, 106-115.

Hofstetter, R, Miller, K, Krohmer, H., & Zhang, Z. J. (2013). How Do Consumer Characteristics Affect the Bias in Measuring Willingness to Pay for Innovative Products? Journal of Product Innovation Management, 30, 1042-1053.

Kammer, A., Boeck, M., Hansen, J. V., & Hauschildt, L. J. H. (2015). The Free-To-Fee Transition: Audiences’ Attitudes Toward Paying for online news. Journal of Media Business Studies, 12, 107-120.

Kim, D., & Sugai, P. (2010). Willingness to Pay for Digital Contents in Japan. Eco-nomics Bulletin, 30, 1745-1752.

Li, Z., & Cheng, Y. (2014). From Free to fee: exploring the antecedents of consumer intention to switch to paid online content. Journal of Electronic Commerce Research, 15, 134-155.

86

Marta-Lazo, C., Segura-Anaya, A., & Martínez Oliván, N. (2017). Key variables in willingness to pay for online news content: he professionals’ perspective”. Revista Latina de Comunicación Social, 72, 165-185.

Mcdowell, W. (2011). The Brand Management Crisis Facing the Business of Journa-lism. International Journal on Media Management, 13, 37-51.

Oster, S. M., & Morton, F. M. S. Scott. (2005). Behavioral Biases Meet the Market:

The Case of Magazine Subscription Prices. Advances in Economic Analysis &

Policy, 5, 212-234.

Piscina, R. R, Zabalondo, B., Aiestaran, A., & Aguirre, A. (2016) The Future of Jour-nalism – Who to Believe?. JourJour-nalism Practice, 10, 71-92.

Punj, G (2013). The relationship between consumer characteristics and willingness to pay for general online content: Implications for content providers considering subscription-based business models. Marketing Letters, 26, 175-186.

Reutterer, T., Breidert, C., & Hahsler, M. (2006). A Review of Methods for Measuring Willingness-to-Pay. Innovative Marketing, 2, 232-234.

Saavedra, J. L.; & González, A. K. (2015). WTP consumer’s key factors for local and regional newspaper print subscription plans. Journal of Retailing and Consumer Services, 27, 164-169.

Steinbock, D. (2000). Building Dynamic Capabilities: The Wall Street Journal Inte-ractive Edition: A Successful Online Subscription Model (1993-2000). Interna- tional Journal on Media Management, 2, 178-194.

Tarkiainen, A., Arminen, H., & Kuivalainen, O. (2014) Online content: who is willing to pay and for what?’. Int. J. Business Information Systems, 17, 283-305.

Vock, M., Van Dolen, W., & Ruyter, K. (2013) Understanding Willingness to Pay for Social Network Sites. Journal of Service Research, 16, 311-325.

Yang, L., Ha, L., Wang, F., & Abuljadail, M (2015). Who Pays for Online Content? A Media Dependency Perspective Comparing Young and Older People. Interna-tional Journal on Media Management, 17, 277-294.

Yip, N. K.T. (2012). Making qualitative decisions from quantitative cues: Understan-ding the customers’ willingness to pay. Journal of Revenue and Pricing Mana- gement, 11, 562-566.

u m a ( r E ) E n g E n h a r I a D O C O n S E n S O : O jO r n a l na C I O n a l E a C O B E r T u r a D a S

‘ jO r n a D a S D E ju n h OD E 2 0 1 3 n O Br a S I l a r E - E n g I n E E r I n g O f C O n S E n S u S : T h E JO R N a L Na C i O N a L a n D T h E n E w S C O v E r a g E O f T h E ‘ jO u r n E Y S O f ju n E

O f 2 0 1 3 I n Br a z I l

Keila C. G. Rosa1 [email protected] Universidade de Coimbra, Faculdade de Letras ORCID: https://orcid.org/0000-0002-5629-7304?lang=pt

Resumo: A história da imprensa é constituída por um desafio ininterrupto de trabalhar por meio de uma engenharia do consenso no espaço público. E não por acaso, o modelo negócio de Notícias se tornou uma importante instituição social como definida por Lippmann em 1920. Atualmente a sociedade se encontra cada vez mais ‘mediada’

e ‘midiatizada’. Com o engendramento de novas tecnologias da in-formação e comunicação alguns acontecimentos parecem irromper com força capaz de redemocratizar o espaço público, promovendo, assim, uma tensão na fabricação de consensos. A fim de trazer um contributo para este debate, esta investigação procurou identificar rupturas na estrutura da programação da imprensa televisiva brasi-leira veiculada em junho de 2013 – período em que ocorreram várias manifestações no país, articulada em torno da seguinte pergunta:

em que medida acontecimentos populares são capazes de promover um contra-agendamento na imprensa mainstream? A metodologia aplicada utiliza argumentos do modelo de análise de conteúdo pro-postos por Bardin (2002). As edições do Jornal Nacional (TV Globo) de 6 a 20 de junho de 2013 formam o corpus de análise.

1 Doutoranda em Ciências da Comunicação na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FLUC). Mestre em Comunicação e Sociedade – Universidade de Brasília (UnB).

https://doi.org/10.14195/978-989-26-1891-3_5

88

Palavras-chave: Jornalismo; opinião pública; Jornal Nacional; imprensa

Abstract: The history of the press is an uninterrupted challenge of working through consensus engineering in public space. And not by chance, the business model of News became an important social institution as defined by Lippmann in 1920. Today society is incre-asingly ‘mediated’ and ‘mediatized’. With the development of new information and communication technologies, some events seem to erupt with force capable of redemocratizing the public space, thus promoting a tension in the fabrication of consensuses. In order to make a contribution to this debate, this research sought to identify ruptures in the structure of Brazilian television press programming published in June 2013 – a period in which several demonstrations took place in the country, articulated around the following question:

to what extent popular events are able to promote a reverse-agenda in the mainstream press? The applied methodology uses arguments from the content analysis model proposed by Bardin (2002). The editions of Jornal Nacional (TV Globo) from June 6 to 20, 2013 form the corpus of analysis.

Keywords: Journalism; public opinion; Jornal Nacional; press

rE a l I Da D E m E D I a Da E m I D I aT I z a Da

“a vida é um mundo, e a vida vista dos jornais é outra.”

Gilbert Chesterton

O fato de o mundo ser hoje cada vez mais ‘mediado’2 e ‘midiati-zado’3 parece promover transformações significativas nos processos

2 A expressão ‘mediado’ é utilizada aqui em seu caráter mais genérico em que corresponde “a um processo em que um elemento é intercalado entre sujeitos e ou ações diversas, organizando as relações entre estes” (Braga, 2012, p. 32)

3 Ao falar de um mundo mais ‘midiatizado’ estamos nos referindo às ações comu-nicativas alargadas, dada a participação de uma parcela representativa da população na produção, consumo, dosagem e redirecionamento das informações que implicam

89

de construção do senso comum. O cenário midiático atual é, evi-dentemente, efeito de longas e complexas variações na forma de acesso ao mundo que poderemos situar, desde logo, na invenção de Gutenberg, que alterou o rumo da história das sociedades ao permi-tir alargar de maneira surpreendente o processo de reprodução das informações. Com efeito, o aprimoramento desta invenção fomentou novas formas de disseminação do conhecimento e das informações, implicando, sobretudo, novas relações sociais, como o vínculo entre mídia (produção) e sociedade (consumo). Nesta perspectiva, sabe-se bem que a maneira como se vê e/ou percebe o mundo altera-se na medida em que a realidade apresenta-se num sucessivo movimento de ‘mediatização’ (Correia, 2009; Lippmann, 2010). Simplificando, nas palavras de Thompson (2014, p. 265) trata-se de um “conheci-mento não local”, isto é, uma realidade em que os indivíduos têm acesso às informações sobre ela sem precisar estar no local. Por exemplo, podemos conhecer a Rússia sem aí nos deslocarmos, ape-nas por meio de livros, cinemas e ou ainda por meio da imprensa.

Em outras palavras, o retrato de um acontecimento real é capturado por um elemento externo (indivíduo, instituição, etc.) e este, com o intermédio de aparatos da comunicação, partilha esta “fotogra-fia” com a sociedade, que por sua vez, passa, então, a ter acesso e

‘conhecimento’4 daquilo que foi produzido e mediado. Neste caso, há uma caracterização da realidade a partir de um ponto de vista específico, o que, por sua vez, não consiste em dizer que é o único, podendo ainda ser alterada a cada mediação realizada.

Ao longo dos anos, fatores como o desenvolvimento de grandes economias mundiais, o crescente investimento em tecnologias da comunicação e informação (TIC), em paralelo à urbanização e à

na troca das formas simbólicas capazes de influenciar na a nossa compreensão de mundo, espaço antes reservado às instituições da indústria cultural. (Braga, 2012;

Thompson, 2011, 2014)

4 ‘Conhecimento’ no sentido de ter ‘familiaridade com’.

90

abertura do comércio global, permitiram à imprensa transformar-se em um grande negócio – no sentido empresarial e mercadológico do termo, mas também a constituir-se numa importante instituição social, quando se trata da construção da realidade e da formação da opinião pública (Luhmann, 2009). Trata-se, pois, de um mercado em que a notícia é o seu principal produto. Neste mercado, a notícia, conforme descrita por Park na década de 1940 (2009, p. 46), deve ser entendida como algo que faz as pessoas falarem e que tende a possuir o caráter de um documento público, geralmente limitada de um modo característico a eventos e que causam “mudanças súbi-tas e decisivas”. Além disso, ainda na visão de Park (2009, p. 49), podemos considerar que “a função da notícia é orientar o homem e a sociedade no mundo real”, dando, assim um valor significativo às notícias como forma de conhecimento.

Seja como for o cenário e os meios pelos quais, hoje, acessamos às noticias e obtemos o conhecimento, todavia, vem se alterando (Patterson, 2003). Já neste século XXI assistimos a um forte progresso tecnológico nas sociedades que produziu diferentes suportes de transmissão da informação com a chegada da internet, provocando não apenas um alargamento das audiências das notícias, mas também possibilitando a maximização dos lucros das empresas de comuni-cação e atribuindo assim à notícia um valor de ‘escala’ de mercado.

En g E n h a r I a E (r E)E n g E n h a r I a D O C O n S E n S O

Sediada nas grandes empresas privadas e com importante poder/

capital social, a imprensa consolidou-se, ao longo dos últimos sécu-los, como importante agente produtor da realidade social (Brandão, 2002; Thompson, 2014). Nessa condição, concordamos com que “a relação entre as instituições noticiosas e a sociedade revela uma estrutura imanente aos enunciados jornalísticos que mantém uma

91

certa relação com o senso comum e que ajuda a orientar os consu-midores na sua relação com o mundo” (Correia, 2009, p. 172). Essa orientação, de que fala Correia, já era entendida, em na década de 1920 por Dewey (2004), como um elemento indispensável para a crição de uma opinião pública assente na ideia de uma Grande Comunidade. Já em Lippmann (1922), a imprensa não podia produzir mais do que uma orientação para o senso comum estereotipado, resultando numa opinião pública que poderia ser facilmente mani-pulada. Na verdade, como lembra Sue Curry Jansen (2013), Walter Lippmann era muito crítico dos agentes governamentais e da publi-cidade corporativa como propagandistas e censores, mas isso não impediu que Edward Bernays (1955) enganosamente alegasse que Lippmann forneceu a teoria e que ele forneceu a prática das Relações Públicas, olhando para a imprensa como algo que poderia produzir uma engenharia do consenso. O intuito da imprensa, neste caso, seria manter-se no quadro social como uma instituição relevante na construção da opinião pública e os agentes de relações públicas deveriam precisamente engendar o consenso através dela. Numa perspetiva muito crítica do papel da imprensa norte-americana, anos mais tarde Edward Herman e Noam Chomsky (1988) falariam também de um “fabrico do consenso” produzido por esta mesma imprensa.

Embora com sentidos muito distintos e até opostos nestes autores, é precisamente esta ideia de que a imprensa engendra um consenso manipulável que nos interessa explorar aqui, atendendo, sobretudo, às atuais transformações do espaço público e, portanto da opinião pública.

Com efeito, se Lippmann, Bernays e até mesmo Herman e Chomsky se referiam à construção da Opinião Pública a partir da imprensa, hoje encontramos muitas outras fontes possíveis de for-mação da opinião pública nos ambientes on-line – espaços onde pessoas comuns publicam informações de qualquer natureza sejam de ordem política, social, ecológica, ideológica, particular, etc. Isso

92

é possível, dentre outros fatores, devido às facilidades encontradas nos aparelhos multifuncionais da comunicação de baixo custo, auto didáticos, que possibilita o compartilhamento de textos e arquivos em tempo real (ao vivo), sem muitas restrições técnicas ou ope-racionais. Desta forma, de blogs pessoais às páginas dos maiores jornais do país, notícias são produzidas e acessadas pela internet praticamente sem barreiras (Keen, 2007). Esses novos espaços vir-tuais provocam uma desterritorialização da notícia tradicionalmente produzida pelos telejornais, jornais, revistas e rádios, de instituições amplamente conceituadas no papel (restrito) de mediador dos fatos do mundo (imprensa mainstream). Em suma, a internet constitui--se, hoje, num espaço onde a sociedade tem conhecimento dos fatos de qualquer lugar, a qualquer momento, e numa esfera, sobretudo portátil e móvel (Castells, 2015; Castells, Cheta, & Cardoso, 2009).

Apesar disso, como tem sido amplamente demonstrado, assu-mimos que as notícias produzidas pelo jornalismo continuam a desempenhar um papel significativo na constituição da opinião pública – por exemplo, ao projetar na esfera pública uma pauta nos moldes da Teoria da Agenda de McCombs (2009; 2014)5. O que não poderá ser deixado de ter em conta, no entanto, é também que, hoje, o engendramento de novas ferramentas tecnológicas da informação e comunicação acessíveis ao grande público, alguns acontecimentos irrompem como uma possível força capaz de moldar o discurso que forma a opinião pública podendo mesmo, desta forma, produzir um

‘contra agendamento’ frente à mídia mainstream (Cervi & Barretta, 2014). Decorrente deste movimento que se pode contrapor forte-mente ao discurso da imprensa, surge o que denominamos aqui de re-engenharia do consenso, ou seja, uma nova ação, ou uma

5 McCombs (2009) explica em sua obra “A Teoria da Agenda: a mídia e a opi-nião pública” a atuação da imprensa (mainstream) ao promover e/ou estabelecer na esfera pública determinados assuntos transformados em temas amplamente discutidos pelas suas audiências, resultando na formação de uma opinião pública.

93

reação da imprensa no sentido de manter como suas, as audiências já alcançadas, através do discurso, marcadamente por determinadas técnicas de linguagem, diante daquilo que parecia estar consolidado.

A fim de contribuir para este debate, partimos do pressuposto de que manifestações populares, articuladas fortemente com o auxilio de modernos instrumentos tecnológicos, sobretudo, com as redes sociais digitais, aparecem como forças capazes de provocar, na esfera pública, o contra agendamento frente à grande imprensa, de forma a compeli-la a alterar a sua intencionada programação. Para tanto, este trabalho se debruça sobre o tema a partir da seguinte ques-tão: em que medida eventos/acontecimentos sociais populares são capazes de promover um contra-agendamento na imprensa mainstream? Portanto, para dar conta desta interrogação, esco-lhemos como objeto empírico a cobertura noticiosa produzida pelo Jornal Nacional (JN), telejornal da TV Globo/Brasil que apresentou índices de maior audiência quando das grandes manifestações que ocorreram em junho de 2013 no Brasil.

A escolha deste caso surge no âmbito de uma investigação maior sobre o protagonismo discursivo do Movimento Passe Livre – SP (MPL-SP)6 e do Jornal Nacional nas manifestações de junho de 2013.

Na ocasião a pesquisa empírica demonstrou uma ruptura no padrão da estrutura do telejornal JN, no entanto, a preocupação que guiava aquela investigação era outra. Por outro lado, as inquietações sobre a descontinuação das regras de programação do telejornal se inten-sificavam nas literaturas sobre a temática.

Para ilustrar, a socióloga Maria da Glória Gohn (2014) em seu o livro “Manifestações de Junho de 2013 no Brasil e Praças dos

6 O Movimento Passe Livre – SP, formado em sua maioria por estudantes, foi o responsável pela mobilização das manifestações que aconteceram, principalmente, na capital paulista. Para saber mais sobre a atuação do movimento nas manifestações de junho de 2013 no Brasil ver Ermínia Maricato et. al. (2013) “Cidades Rebeldes”, São Paulo: Boitempo: Carta Maior e Pablo Ortellado (2013). et. al. Vinte Centavos:

a luta contra o aumento. São Paulo: Veneta.

94

Indignados no Mundo”, em um esforço de compreensão das manifes-tações, aponta, dentre outros fatores, para uma mudança de tom na cobertura midiática. Neste caso, inferimos da análise de Gohn (2014) que a imprensa mainstream, dotada da autoridade de narradora e mediadora dos acontecimentos, descreveu os eventos primeiramente de forma a criminaliza-los, em seguida tentou apoia-los e ao final preferiu adotar a postura da neutralidade, configurando, assim, em uma atitude de transmutação de ‘mood’7 por parte do emissor da mensagem.

Outro apontamento que nos chamou a atenção foi elaborado pelo professor Fausto Neto (2015). O autor põe em perspectiva a atuação do telejornal JN “ao excluírem da cobertura noticiosa a presença discursiva dos atores sociais enquanto seu co-enunciador” e ressalta o movimento ‘equilibrista’ do programa jornalístico para dar conta da cobertura dos eventos (Fausto Neto, 2015, p. 8). Neste caso, a análise do autor aponta para “(...) a própria confissão televisiva em não se sentir equipada para gerar a cobertura de eventos que são tecidos para além de suas rotinas e metodologias”, fato demonstrado a partir do “desinstalar do acontecimento-programado” (Fausto Neto, 2015, p. 12;19). Quer dizer, houve o reconhecimento, por parte do JN, da necessidade repentina, não programada, não preparada, de uma alteração na programação.

T v: u m S I S T E m a S O C I a l

A imprensa ampliou muito a sua área de alcance com a chegada da televisão. Hoje, a televisão é o canal de comunicação por onde a maioria das pessoas tem acesso aos acontecimentos locais, regionais, nacionais e do mundo. Embora as redes sociais tenham um impacto

7 Estado de espírito

95

incontrolável, nosso objeto de análise é a TV. Assim, procuramos traçar se forma sumária o aparecimento da televisão e de um novo tipo de noticiário, o telejornal.

O aparelho de TV foi uma invenção patenteada em 1938, nos Estados Unidos, pela empresa RCA, como televisão econômica. No entanto, a sua comercialização se deu apenas após a Segunda Guerra Mundial. Por volta dos anos 1950, principalmente nos Estados Unidos e na Europa, o produto começou a ser disseminado entre as popu-lações medianas. Antes disso, possuir um aparelho de televisão era símbolo de status (DeFleur & Ball-Rokeach, 2010). Já na época, a novidade era anunciada como um veículo mais eficiente que o rádio para vender produtos. Como efeito da sua idealização na sociedade experimentou-se, para além da publicidade ampliada, a transfor-mação na forma de transmissão, produção e consumo da notícia.

A televisão como novo meio de comunicação de massa resul-tou principalmente da cobertura abrangente, alcançando em pouco tempo quase a totalidade da população. Os dados sobre como o meio se propagava já eram sinais de sua importância, não apenas econômica, mas, sobretudo, como um sistema social, concebida com um princípio democrático moderno ao incluir ‘a maioria’ na esfera pública. Mais tarde passou a influenciar a política, a cultura e os modos de socialização, marcadamente, nos local aonde se esta-belecia como principal meio de comunicação (Brandão, 2002; João Pissarra Esteves, 2009). Sobre o cenário, Barbier e Bertho-Lavenir (2007, p. 287) descrevem:

[…] entre 1950 y 1960 la televisión se convierte en un medio de masas en los Estados Unidos. En 1950, se cuentan tres millo-nes de televisores; en 1961, 57 millomillo-nes. Es, también, un negocio rentable; el beneficio neto de una red como la CBS se duplica en cinco años, pasando de 25 millones de dólares en 1959 a 49 en 1964. Esta televisión ‘para el gran público’ no se dirige, durante

No documento Media, information and literacy (páginas 82-105)

Documentos relacionados