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DIMENSÃO I: CONTEXTO DE TRABALHO E SAÚDE

Capítulo 3: CONTEXTO DE TRABALHO E SAÚDE DOS TRABALHADORES DAS AGROINDÚSTRIAS

3.1 O contexto agroindustrial no oeste catarinense

A atual organização econômica e social do oeste catarinense34 está intrinsecamente atrelada ao processo de agroindustrialização que ocorreu na região a partir de 1970. Este, de acordo com Paim (2003), foi impulsionado pelas políticas agrícolas adotadas no Brasil desde o referido período, as quais visavam à expansão industrial do país e à sua competitividade no mercado internacional. Estas políticas priorizaram a agricultura empresarial de larga escala em detrimento da agricultura familiar, a qual predominava na região em questão, mudança que segundo Veiga (2003) produziu as condições necessárias para o crescimento do setor agroindustrial que se operou desde então.

O período de 1970 a 1990, de acordo com Espíndola (1999), consagrou a expansão das agroindústrias no oeste catarinense e selou a dependência econômica dos municípios da região a estes empreendimentos, de modo que, conforme Campos (1987), as crises do setor agroindustrial passaram a representar crises na economia regional. Isso porque o crescimento das referidas indústrias também determinou a

34 “Entenda-se por Região Oeste Catarinense a área que compreende as microrregiões de São

Miguel D’oeste, Chapecó, Xanxerê, Joaçaba e Concórdia. Trata-se de uma região com cerca de 27.218 Km² [...]. O Oeste catarinense é caracterizado na economia nacional, como o maior pólo de frigorificação de carnes suínas e avícolas” (Espíndola, 1999, p. 17). De acordo com Lins e Coletti (2010), o IBGE denomina esta área como Mesorregião Oeste Catarinense, sendo que a mesma engloba 117 municípios.

expansão de outras atividades produtivas relacionadas a estas, como o setor metal mecânico, que se voltava ao transporte da produção e o setor de serviços, que visava atender ao novo contingente de trabalhadores assalariados (Goulart Filho, 2002).

A partir da década de 1990, a indústria de alimentos viveu um processo de reestruturação produtiva, que teve como pano de fundo a modernização tecnológica, a diversificação produtiva e a centralização do capital no setor (Espíndola, 1999). A modernização tecnológica foi possibilitada pela emergência de um conjunto de tecnologias no campo da microeletrônica e da biotecnologia, que foram incorporadas ao processo de produção. Exemplo disso são as inovações em relação ao material genético dos animais que permitem o seu crescimento mais rápido e a automatização de partes do processo de produção.

Já a diversificação produtiva está relacionada a aspectos como a mudança de hábitos alimentares e a própria expansão do setor no país. Assim, embora a atividade principal das agroindústrias da região seja o processamento de carnes de aves e suínos, segundo Lins e Coletti (2010), a partir de 2000, essas empresas passaram a fabricar outros produtos alimentícios, como margarinas e congelados.

A centralização do capital ocorreu em sintonia com os processos de globalização e geraram, ainda de acordo com Lins e Coletti (2010), fusões e aquisições que conduziram a novas mudanças nas estruturas produtivas. Entre essas se destaca o maior controle sobre a produção agrícola e a desnacionalização do capital agroindustrial. A fusão das empresas Perdigão e Sadia em 2009, que deu origem à Brasil Foods, é um exemplo do processo referido. Essa junção, segundo reportagem do jornal Folha Salvador de 200935, deu origem “à maior processadora de carne de frango do mundo em faturamento [...] com uma receita líquida anual aproximada de US$ 9,5 bilhões”, o que é um indício do poder econômico que detém este setor produtivo.

A importância econômica que vem assumindo o setor agroindustrial no Brasil é demonstrada pelo relatório da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (CEPAL/FAO, 2009), o qual aponta o país como terceiro maior produtor de aves do mundo e como o maior exportador, detendo um terço do comércio global. Nesse contexto, o estado de Santa Catarina liderava, até 2008, a

35 Reportagem disponível em:

<http://folhasalvador.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=1807:sadia-e- perdigao-se-unem&catid=126:cesta-basica&Itemid=265>.

produção e exportação de aves no cenário nacional (Reche & Sugai, 2008).

O município de Chapecó ocupa lugar de destaque nesse contexto, sendo considerado, segundo os autores anteriormente referidos, o mais importante centro agroindustrial do país, o que lhe rendeu o título de capital brasileira da agroindústria. Este ainda é símbolo da cidade, mesmo ante a expansão do setor de serviços, que hoje já representa 71,25% do PIB municipal36. Atualmente Chapecó sedia grandes empresas do setor, como Aurora Alimentos, Brasil Foods e Bondio Alimentos. Estas, juntamente com agroindústrias de menor porte, de acordo com os dados do IBGE (2009), empregam aproximadamente 18% da força de trabalho ocupada do município, como já apontado na introdução deste trabalho.

A força de trabalho atualmente empregada nas agroindústrias é em sua maioria oriunda do êxodo rural-urbano suscitado pelo modelo econômico imposto pelo capital agroindustrial. Nesse sentido, Talamini e Kinpara (1994) destacam a inserção da agricultura familiar no sistema de integração, o qual se caracteriza como uma “parceria” entre o produtor rural e a indústria de alimentos, especialmente na criação das aves e suínos destinados ao abate. A implementação deste sistema, de acordo com Paim (2003), contribuiu para o empobrecimento dos pequenos produtores familiares, já que gradativamente as indústrias de alimentos foram assumindo o controle de toda a cadeia produtiva, determinando quanto, como e onde se devia produzir. Esse processo conduziu também a uma especialização da atividade do trabalhador integrado, que, de acordo com Goulart Filho (2002), culminou com a grande redução no número destes a partir da década de 1990.

Ante este cenário os pequenos agricultores que não se adaptam às novas condições de produção, de acordo com Reche e Sugai (2008), migraram para cidades maiores como Chapecó, em busca de melhores condições de vida, sendo muitas vezes incorporados à linha de produção das agroindústrias. Estes trabalhadores, de acordo com Paim e Oliveira (2004), geralmente são os membros mais jovens das famílias que têm a agricultura familiar como atividade econômica principal e

36 Os dados da Prefeitura Municipal de Chapecó demonstram que a participação do setor

secundário na economia do município em 2009 foi de 22,24% contra 71,25% do setor terciário. Prefeitura Municipal de Chapecó (2012). Chapecó em dados. Recuperado em

13.abr.2012 de

<http://www.chapeco.sc.gov.br./attachments/site_chapeco_dados/1/chapecoemdados- marco2012.pdf>.

residem tanto no interior de Chapecó quanto nos municípios vizinhos. O que apontam os autores vai ao encontro da trajetória de trabalhadores participantes desta pesquisa, como ilustra a fala do entrevistado 15: “Nós trabalhávamos na agricultura, mas nós fazíamos só pra nos manter, daí quando completei idade eu disse pro pai, eu vou tomar meu rumo, não dava, daí que eu vim embora pra Chapecó, eu tinha o meu irmão mais velho que já morava aqui, ele já trabalhava em uma agroindústria, daí eu vim embora pra cá e entrei lá também”.

Observa-se ainda que dos dezessete trabalhadores entrevistados na pesquisa, nove são ex-agricultores que migraram de municípios vizinhos em busca de trabalho em Chapecó. Esses, assim como o entrevistado 15, mencionaram que a dificuldade em viver das atividades agrícolas levou à busca de melhores condições de vida em uma cidade com mais oportunidades de trabalho. Nesse sentido, a agroindústria é apontada como um local “mais fácil de conseguir emprego” especialmente pela baixa escolaridade dos trabalhadores do setor, e pela familiaridade com o manejo de animais, inclusive nas atividades de abate devido à procedência do meio rural, relação também observada por Graf (2009) e Graf e Coutinho (2010). É recorrente ainda nas falas dos entrevistados que grande parte dos colegas de trabalho têm trajetórias semelhantes, o que também é mencionado por diversos profissionais de saúde que trabalham no Centro Integrado de Saúde que fez parte deste estudo.

Segundo Ben (2006), também há uma preferência das fábricas do setor agroindustrial pela contratação de ex-agricultores, já que essas prezam pela constituição de uma força de trabalho livre de vícios e com formação familiar para este tipo de atividade. Neste sentido, o entrevistado 17 diz: “Eu trabalhava no carregamento e naquela época não tinha as máquinas como tem hoje, era tudo na base da força física, mas sabe, pra gente que vinha da roça tudo parecia fácil, você não tem muita experiência, e eu continuei trabalhando, até que fiquei doente”.

Os trabalhadores que conseguem se inserir nas agroindústrias, segundo Ben (2006), acabam residindo no seu entorno, constituindo bairros de operários, como é o caso do local em que foi realizado o estudo, região que, segundo a autora mencionada, anteriormente, chamava-se Vila Sadia. Assim, são recorrentes as falas dos profissionais de saúde do CIS de que o bairro em questão é constituído por trabalhadores da agroindústria, como diz uma agente de saúde: “quem mora aqui, ou trabalha ou já trabalhou em frigorífico” (notas do diário de campo).

A força de trabalho constituída predominantemente por migrantes oriundos do campo facilitou a implementação dos modos de trabalho no interior das fábricas, bem como a prática dos baixos salários do setor agroindustrial. Segundo Paim e Oliveira (2004), também favoreceu esse processo a incipiente organização sindical e a “passividade” e “docilidade” destes trabalhadores. A colocação do referido autor vai ao encontro do que afirma Braverman (1981), de que os trabalhadores que provêm de contextos de trabalho distintos como o meio rural, ao chegarem à cidade se inserem em uma realidade nova e desconhecida, o que influencia para que eles admitam a organização do trabalho sem discutir.

A partir das colocações anteriores se pode apontar que a história do setor agroindustrial confunde-se com a história recente do município de Chapecó, cujo crescimento econômico e expansão demográfica estão intimamente relacionados a esta atividade. Nesse sentido, o considerável contingente de trabalhadores empregados no setor compõe o quadro de usuários dos serviços de saúde do município, como a Atenção Básica, sendo que o adoecimento destes trabalhadores evidencia as problemáticas do trabalho nesse contexto. Por outro lado, a importância econômica que o capital agroindustrial assume na região ao longo do tempo vai se constituir em um atravessamento importante para o exercício das políticas voltadas à saúde e à segurança do trabalhador e consequentemente à produção de cuidado.