2 ABORDAGENS TEÓRICAS DO DESENVOLVIMENTO REGIONAL
2.4 O Contexto Atual do Processo de Globalização
Como então definir o processo de globalização? Veltz (1999) considera que existem três aspectos essenciais. Para as empresas, a globalização é um conceito estratégico que consiste na adaptação progressiva, pois foi acelerada ao longo da última década, de uma visão mais ampla da demanda e da competência, apoiada sobre um enfoque mais global da diversidade das situações nacionais e regionais, das limitações que se exercem sobre os mercados e das próprias demandas. Do ponto de vista das organizações, essa ótica estratégica pode materializar-se de múltiplas maneiras, porque se relaciona com uma apreensão mais ampla dos recursos internos e externos disponíveis, que se formula, basicamente, em termos de patrimônio de competências ou de tecnologias. Do ponto de vista geográfico, a globalização não é posta em marcha de uma rede de unidades perfeitamente interdependentes, substituíveis. O processo de globalização adquire formas geográficas muito variadas. Pode apoiar-se em uma divisão do trabalho e ampliar-se no seio de uma rede muito extensa.
Em relação a globalização Santos & Silveira (2006), destacam que:
A dinâmica da globalização não apaga restos do passado, mas modifica seu significado e acrescenta, ao já existente, novos objetos e novas ações características do novo tempo. Agravam-se diferenças e disparidades, devidas em parte, aos novos dinamismos e a outras formas de comando e dominação. Onde carregava a indústria esse papel motor, agora é a informação que ganha tal papel.
Uma das mudanças mais significativas, a partir da década de 80, envolve o cenário da globalização que, de acordo com Clemente e Higachi (2000), possui dois fenômenos correlacionados que se manifestam e se difundem rapidamente no âmbito mundial: a produção flexível e a globalização financeira e produtiva. Nessa perspectiva, o paradigma fordista/taylorista de produção em massa e de separação rígida entre o pensar e o fazer dá lugar à flexibilização generalizada: a indústria passa a concorrer com base em sua capacidade de adaptação às constantes mudanças de preferência do mercado. Todos os recursos produtivos (trabalhadores, máquinas e materiais) precisam ser versáteis para adaptações rápidas e de baixo custo, visando a atender as mudanças quanto à quantidade e à qualidade dos produtos. Esse novo requisito implica seletividade na decisão locacional, na medida em que as diferentes localizações oferecem recursos produtivos com flexibilidade variável, especialmente trabalho. A globalização financeira e produtiva apresenta-se como um processo de intensidade crescente, possibilitada por uma enorme redução de custos de transportes e de comunicações e por uma clara tendência à convergência entre os mercados.
A globalização, segundo Moreira (2006; 1994), é um conceito recente e polissêmico que, malgrado o vastíssimo e sempre crescente acervo bibliográfico que lhe é dedicado, está longe de se poder considerar consolidado e de aceitação universal. Nesse texto, a globalização é entendida como o resultado de um processo dialético e desigual de compreensão do espaço e do tempo que envolve um sistema de forças muito diversificadas. Forças econômicas, sociais, políticas, ideológicas e até religiosas que, desde as últimas três décadas do século XX, vêm modelando e remodelando a divisão internacional do trabalho, favorecendo a acumulação de capital e promovendo a homogeneização dos comportamentos e dos consumos humanos ou a elas se opõem. No contexto de globalização, Colpo (2006, p. 33) ressalta que:
a sociedade pós-moderna passa por constantes alterações. O espaço geográfico se deslocou das fronteiras e divisas dos países e passou a se concentrar no espaço financeiro, gerando novas cadeias hegemônicas que tentam disseminar sua forma de trabalho e buscam para si os maiores valores econômicos, dentro da dinâmica de acumulação capitalista.
Em relação à globalização, Beck (1997, p. 11) ressalta que: “a principal questão que ora enfrentamos é se a simbiose histórica entre o capitalismo e a democracia – que caracterizava o Ocidente – pode ser generalizada em uma escala global, sem consumir suas bases físicas, culturais e sociais”.
Por trás do processo da globalização, Boisier (1999) entende que é possível distinguir dois elementos básicos: a microeletrônica, como tecnologia genérica que faz tecnicamente possível a globalização, e a nova ordem política internacional, caracterizada pela
“monopolaridade política”, pela “multipolaridade econômica”, e pelo “regionalismo aberto”, segundo a expressão criada pela Comissão para América Latina e o Caribe (CEPAL) para descrever a atual simultaneidade e multiplicidade dos acordos comerciais dos países.
Com a globalização, segundo Silveira (2010), instalam-se numerosos nexos extrovertidos, já que a necessidade de exportar conduz a uma lógica competitiva que privilegia as relações externas das empresas globais responsáveis pela demanda. O número de empresas globais é diferente segundo as nações, assim como o ritmo de expansão e os setores econômicos, pois dependem do grau de maturidade de cada economia e do grau de inserção de cada país na divisão internacional do trabalho.
A ordem internacional globalizada, de acordo com Secretaria da Coordenação e Planejamento do Rio Grande do Sul (2006), é considerada como uma nova determinação para o planejamento, pois, ao assumir qualquer decisão, nenhum ator econômico, social ou político, com expressão no cenário nacional, pode desconhecer a dimensão internacionalizada das ações que se processam no território nacional. As cadeias produtivas, os serviços, as informações e o conhecimento, os grupos de pressão, as decisões corporativas – todas essas realidades superpostas e relacionadas – têm uma referência altamente internacionalizada.
Portanto, já não faz sentido contrapor o nacional ao internacional, como realidades estanques, onde as fronteiras políticas regulem a interação que surge nos processos de circulação de produtos e serviços.
O marco do início da globalização é definido por Dupas (1999) como sendo a partir da década de 1980, quando pode ser observada uma intensificação do processo de internacionalização das economias capitalistas. O autor destaca, como características distintivas desse processo, a enorme integração dos mercados financeiros mundiais e um crescimento singular do comércio internacional, viabilizado pelo movimento de queda generalizada das barreiras protecionistas, principalmente dentro dos grandes blocos econômicos. Um dos traços mais marcantes é a crescente presença de empresas transacionais.
A intensidade e a velocidade das transformações econômicas, políticas, sociais e culturais do mundo moderno, segundo o Ministério do Planejamento e Orçamento – MPO (1997), através da Secretaria Especial de Políticas Regionais, desestabilizaram todo o aparato institucional e todo um instrumental intervencionista sobre o qual se assentavam políticas de promoção do desenvolvimento em países e regiões subdesenvolvidas. Dessa maneira, dogmas e tabus velhos foram superados, sem uma clara definição dos novos paradigmas que deveriam substituí-los. Os objetivos das políticas e os novos métodos de trabalho tradicionais perderam expressão, criando um vazio não preenchido adequadamente por novas estratégias e
instrumentos modernos de intervenção. Nesse contexto, impõe-se uma profunda reflexão crítica sobre os rumos das políticas de desenvolvimento do Brasil e, em particular, das políticas de desenvolvimento regional. A conjugação de dois fatores catalisou o processo de globalização, conforme observa Clemente e Higachi (2000, p.189):
a) o crescente movimento de desregulação dos mercados e, sobretudo, a desregulação dos sistemas financeiros e dos mercados de capitais, que permitiram maior mobilidade de fluxos de capitais de curto e de longo prazos;
b) o desenvolvimento e a difusão do novo paradigma tecnoeconômico das tecnologias da informação, que requerem maior colaboração entre as empresas e, ao mesmo tempo, favorecem rápidas mudanças nas estruturas de pesquisa, produção e comercialização.
Giddens (1997) destaca que a fase da “modernização reflexiva”, marcada pelos processos concomitantes da globalização dos mercados e da busca de contextos de ação mais tradicionais, altera o equilíbrio entre tradição e modernidade. À primeira vista, a globalização parece um fenômeno “externo”, o desenvolvimento de relações sociais de um tipo global bem afastado das preocupações da vida cotidiana. A globalização é uma questão do “aqui”, que afeta até os aspectos mais íntimos de nossas vidas – ou, preferivelmente, está relacionada com elas de uma forma dialética. Na verdade, o que hoje em dia chamamos de intimidade – e sua importância nas relações pessoais – foi criado, em grande parte, por influências globalizadoras.
Para Clemente e Higachi (2000), a globalização e a formação de mercados comuns representa um desafio para o analista regional, na medida em que enormes regiões de grande complexidade estão se formando. Pode parecer pretencioso e arriscado estender o conceito de região a esses novos espaços, porque as regiões tradicionalmente foram vistas como espaços subnacionais. Pode ser observado, nesse novo cenário, que as relações econômicas entre países assumem a forma que antes eram de exclusividade das relações econômicas internas de cada país e torna-se evidente a necessidade de se admitirem regiões supranacionais.
O processo de globalização dos mercados e as mudanças das condições competitivas, segundo Costa (2001), aceitam um aumento da importância das economias externas locais na eficácia produtiva e organizacional das empresas em geral e, muito especialmente, das pequenas e micro empresas (PMEs). Segundo a autora, os estudos realizados sobre as novas formas de organização revelam a necessidade de se adotar categorias que integram, no território, economias da produção e da formação de mão-de-obra. Em outros termos, isso supõe que o meio incide decisivamente na competitividade das empresas, diante do enfoque convencional da teoria e da política econômica. O uso dos termos “ambiente” ou “meio” é
associado ao âmbito local e regional, ou seja, à área em que existe uma tendência à concentração de grupos de indústrias.
A globalização, na visão de Buarque (2002), é um processo acelerado de internacionalização do capital com conotações muito particulares que resultam de dois fatores básicos: a natureza e intensidade da revolução cientifica e tecnológica – que transformam as bases da competitividade internacional, com redução das distâncias físicas e quebra das barreiras e fronteiras territoriais – e a integração dos mercados de bens e serviços (incluindo tecnologia e informação) e de capital, com a formação de megablocos econômico-comerciais.
As transformações nos processos produtivos e na organização econômica ocorrem numa velocidade e ritmo acelerados e inusitados, que intensificam as disputas competitivas e o redesenho da economia mundial, obrigando as economias nacionais e locais a manterem-se permanentemente atualizadas.
Becker (2009) afirma que o processo de globalização configura o movimento de transnacionalização dos espaços econômicos; o processo de localização do desenvolvimento conforma a regionalização dos espaços sociais e o processo de flexibilização política.
Enquanto processos podem ser considerados dialeticamente, como movimentos contrários e/ou como movimentos contraditórios.
Em relação à globalização e ao desenvolvimento territorial, Linck (2006) destaca que esta distinção delimita o campo problemático que enlaça globalização e território. A globalização, vista como movimento que se sustenta em uma negação do político e que circunscreve a economia no universo unidimensional das trocas mercantis, encontra-se na antítese dos territórios: os avanços da globalização instruem, inevitavelmente, um processo de desconstrução dos territórios. Nessa perspectiva, o território tem que se definir, fundamentalmente, como espaço (ou recurso) apropriado coletivamente. Temos que vê-lo assim, não só porque se trata da dimensão mais relevante, mas sim, e antes de tudo, porque é uma dimensão ameaçada.
De acordo com Silveira (2010), com a globalização, a divisão internacional do trabalho ganha novos dinamismos, sobretudo nos países subdesenvolvidos. A lógica das grandes empresas, internacionais ou nacionais, constitui um dado da produção da política interna e da política internacional de cada país. Não raro, nesse contexto, confunde-se a lógica da grande empresa que quer estabelecer-se no território nacional, com a lógica do denominado mercado global.
Linck (2006) ainda considera que o território pode abrir alternativas para construir o desenvolvimento, reabilitar os territórios e pressupõe, como primeira evidência, a reinvenção
de um diálogo entre o econômico (a produção de riquezas) e o político (a construção de decisões coletivas para o manejo compartilhado dos recursos). Um e outro pleiteiam uma exigência de densificação das interações sociais. Na escala dos territórios, tanto a construção do desenvolvimento como a produção da sociedade têm que se sustentar na produção de recursos coletivos. Porém, nessa perspectiva, a reapropriação dos territórios define a etapa prévia e necessária do processo.
No território, são instaladas divisões territoriais do trabalho particulares, próprias de grandes corporações, cujo território e equação de lucro são planetários. Nessa dinâmica, as regras da competitividade referem-se mais ao produto global do que às demandas das firmas.
De outro modo, a tendência às fusões empresariais reduz o número de polos decisórios, concentra ainda mais os vetores de mercado e torna mais rígidas as relações entre áreas polarizadoras e áreas polarizadas. Dessa forma, como a fusão de empresas tende a ampliar a presença de capitais e de firmas globais no território, aumenta, ao mesmo tempo, os desequilíbrios e as novas formas de manifestação do setor externo da economia, em detrimento do setor interno (SILVEIRA, 2010, p. 78-79).
Através da revisão teórica, é possível verificar que as teorias clássicas ou “de dentro para fora” após auge nas décadas de 50, 60 e 70, perderam importância relativa devido a vários fatores históricos, políticos, econômicos e sociais. Desta forma discorda-se do arcabouço teórico clássico devido que o desenvolvimento deixou de ser explicado a sua ocorrência de acordo com estas teorias, e será usado nesta tese, para explicar o desenvolvimento da Metade Sul do Estado do Rio Grande do Sul a teoria do desenvolvimento endógeno.
3 O PROCESSO HISTÓRICO DA FORMAÇÃO TERRITORIAL DA METADE SUL