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O CONTEXTO BRASILEIRO

No documento CURITIBA 2009 (páginas 55-59)

Conforme Loureiro (2006, p. 24), desde o século XVII, existiam relatos documentados de pensadores levantando questões que denotavam a existência de preocupações com a preservação ambiental na Europa, nos Estados Unidos e no Brasil. Mesmo assim, não era possível uma definição mais imediata desses posicionamentos, principalmente em se tratando de movimentos de amplo espectro vinculados às questões sociais.

No Brasil, pesquisadores da história ambiental mencionam o nome de frei Vicente Salvador, e de sua obra “História do Brasil”6, como pioneiro deste segmento, uma vez que nesta obra contém uma análise crítica ao nome que nosso país recebeu: “Pois o pau-brasil não era uma árvore qualquer, mas sim o primeiro elemento da natureza brasileira, possível de ser explorado em larga escala, para benefício do mercantilismo europeu” (Frei Vicente citado por Pádua, 1987, p. 28) .

Loureiro (2006, p. 25), ressalta que outros nomes também são lembrados, como os de José Bonifácio de Andrada e Silva e de André Rebouças, no século XIX, que através de um discurso realizado, com teores positivistas, defendiam o uso da natureza de forma racional. Já no início do século XX, surgem figuras como Alberto Torres, Caio Prado Júnior e Gilberto Freyre, que nos apresentam modelos alternativos de desenvolvimento, sempre com preocupações ligadas à questões relacionadas ao meio ambiente. Mas, apesar de tudo, estas tendências não receberam o crédito merecido, sendo ignoradas em virtude da necessidade da impulsão rumo à industrialização e devido à crença falha de inesgotabilidade dos recursos naturais e/ou de sua rápida e eficaz recuperação, tudo perfeitamente presente em nosso país na década de 50. Somente na passagem dos anos 70 para

6 Escrito na Bahia em 1627, trata do descobrimento do Brasil, costumes dos naturais, aves, peixes animais e do mesmo Brasil. Frei Vicente escreveu neste livro a história do Brasil, antes mesmo de existir um Brasil.

os anos 80 é que tal discussão recebe um novo fôlego em nosso país, já perfeitamente presente em dimensões mundiais, principalmente quando se refere à crítica mundial estabelecida pelo movimento ambientalista.

Outro autor que bem explana a história do ambientalismo no Brasil é Carneiro (2003, p. 15), quando narra a história de Henrique Luís Roessler7 e a fundação por este, em 1955, da União Protetora da Natureza. O autor também escreve sobre a importância do papel de Nicolau A. Campos na fundação em 1971 da AGAPAN - Associação Gaúcha de Proteção Ambiente Natural - ONG que, segundo Carneiro, foi a pioneira da luta ambientalista por todo o país. Ele ainda acrescenta que: “A orientação de luta dos iniciadores, somada à capacidade de Lutzenberger8 em fazer conferências, projetaram a AGAPAN nacional e internacionalmente”, demonstrando ser uma organização muito eficiente e útil ao movimento ecológico.

Não se pode deixar de reconhecer que nos anos 50 a preocupação com a degradação já mostrava uma incipiente manifestação por parte da sociedade civil.

Em 1958, foi criada no Rio de Janeiro a Fundação Brasileira para a Conservação da Natureza (FBCN), organização que nasceu vinculada à entidade suíça criada em 1947. Ela tinha como preocupação central a preservação da fauna e da flora, mas também defendia a criação de parques nacionais e convidava os cientistas para participarem de discussões. Porém, a questão ambiental brasileira, nessa época, não atraía a opinião pública de maneira significativa, o que restringiu muito a atuação da FBCN, nos anos 60. Os interesses da classe média na proteção da natureza não se faziam em grandes proporções e não possuíam vínculos com os interesses políticos, quer de situação, quer de oposição. Em dimensões nacionais, o ponto principal dos debates circulava sobre a estrutura de distribuição de terras no país, ponto marcante na atmosfera política brasileira republicana pós Estado Novo e

7 Roessler (1896-1963) era um funcionário público de São Leopoldo (RS). Fiscalizava fontes poluidoras dos curtumes, derrubada de matas nativas, caça clandestina, sempre denunciando na imprensa os danos ao ambiente.

Ele se interessava pela defesa da natureza, de forma incipiente no Brasil, fazendo Educação Ambiental através de boletins. Ele usava as possibilidades dentro de sua repartição e posteriormente pediu auxilio financeiro às empresas comerciais para custear seus impressos. Ao escrever crônicas publicadas no jornal de maior circulação no Estado, ficou conhecido e admirado por milhares de pessoas.

8 José A Lutzenberger formou-se engenheiro agrônomo pela UFRS, trabalhou em empresas de adubos químicos (Brasil) e na BASF (Alemanha), pediu demissão por não poder mais conciliar sua visão ecológica com as práticas da agro-química. Ao constatar os estragos causados pelos agrotóxicos na agricultura brasileira, assim como a devastação ambiental em geral, ajudou a fundar um movimento ambiental militante, a AGAPAN, onde ficou conhecido no Brasil inteiro.

antes dos governos militares.

Assim, percebe-se que o movimento ambientalista teve início, enquanto movimento dotado de caráter histórico, na década de sessenta, decorrente dos primeiros movimentos pacifistas, antinucleares, dentre outros, em resposta ao padrão adotado pelos Estados Unidos da América, sempre ancorado no autoritarismo, na sua indiscutível belicosidade e no seu estilo de vida baseado em um consumo absurdo de supérfluos. Entende-se tal padrão de movimento ambientalista como um movimento calcado na recusa, na falsa felicidade proporcionada pelo consumo, no trabalho insano e desmedido, no desenvolvimento vinculado exclusivamente à produção e no infeliz progresso armado. Observando-se, desta forma, a diversidade de perspectivas levantadas pelo movimento neste período.

A primeira metade dos anos 70 é marcada pelo “Brasil Grande”, traduzido em obras como a construção da Ponte Rio - Niterói, do Metrô nas capitais, da Usina de Itaipu, da Transamazônica, do Pró-Álcool, da Ferrovia do Aço e do Programa Nuclear. Sob a bandeira do “milagre”, a política econômica incentivava a transferência para o Brasil de tecnologias que estavam sendo rejeitadas pela opinião pública dos países do hemisfério Norte, tendo como exemplo as questões relacionadas com a energia nuclear, tanto para os EUA como para a Europa Ocidental.

O governo brasileiro continuava a reforçar o posicionamento apresentado na Conferência de Estocolmo9. A declaração de nossos delegados, de que nosso ponto principal era o desenvolvimento, de forma acelerada, e que cabia aos países ricos recuperar os danos ambientais não gerou reações da opinião pública contrárias às decisões proferidas na Conferência. O ponto relevante deu-se no sentido de que o Brasil, dentre os países latino-americanos, foi aquele no qual, de forma mais rápida, surgiram organizações que incorporaram e difundiram a questão e o discurso ambientalista. Assim, quanto mais o milagre econômico se concretizava, mais forte se tornavam os discursos e as temáticas ligadas às questões ambientais.

9 Conferência realizada em 1972 na Suécia, destacou-se como um grande marco ambiental, pois chamou a atenção do mundo para a gravidade da situação neste setor. Nessa Conferência, os representantes brasileiros lideraram os movimentos contrários às propostas de parada no crescimento e transformação dos recursos naturais em patrimônio da humanidade. Tal posicionamento foi defendido como sendo uma manobra dos países mais abastados para impedir o progresso de outras nações, dentre elas do Brasil.

Chama-se a atenção para dois fatos merecedores de destaque por se tratarem de acontecimentos que foram decisivos para a aproximação entre os ambientalistas brasileiros e os movimentos ecológicos europeus. Primeiro, o acordo nuclear entre Brasil e Alemanha. O presente acordo, que visava à produção de energia nuclear no Brasil contribuiu para que ocorressem contatos entre brasileiros que lutavam em prol da defesa do meio ambiente e o movimento verde. O outro fato a ser destacado refere-se aos exilados políticos da “geração de 68”, dentre eles Fernando Gabeira, Carlos Minc, Lizt Vieira e Alfredo Sirkis. Tais militantes retornaram do exílio em 1980 e trouxeram para o Brasil uma visão ecologista adquirida nos movimentos pacifistas que presenciaram na Europa em fins dos anos 70, tais como os movimentos verdes e os movimentos antinucleares.

A luta contra os agrotóxicos também figura entre as passagens importantes do ambientalismo brasileiro. Os estados da região Sul do Brasil destacaram-se neste embate, mas nacionalmente, o sucesso desta luta viu-se um tanto tímido, pois a força exercida pelo setor industrial de agrotóxicos deu-se mais forte.

Em 1981 introduziu-se na legislação brasileira a obrigatoriedade da realização de estudos e de relatórios de impacto ambiental, social e econômico para os empreendimentos que possam causar alterações ambientais. Em 1986 foi criado o CONAMA10 e, na Constituição de 1988, introduziu-se, como resultado do trabalho do grupo ambientalista da constituinte, o capítulo VI, que faz menção às questões referentes ao meio ambiente.11

Não se pode deixar de mencionar que o combate à poluição e o apoio à preservação de ecossistemas naturais encerravam a perspectiva da problemática ambiental, que girava pelo Brasil nas duas décadas antecessoras da ECO-92, considerada por Viola (1992, p. 52), como o ponto fundamental da questão ambiental brasileira. A separação entre economia e ecologia era um marco fundamental das reivindicações dos ambientalistas, que não contemplavam discussões sobre eficácia e exaustão no uso dos recursos naturais, nem sobre as relações que faziam menção a respeito do crescimento populacional, da degradação

10 O Conselho Nacional do Meio Ambiente - CONAMA é o órgão consultivo e deliberativo do Sistema Nacional do Meio Ambiente-SISNAMA, foi instituído pela Lei 6.938/81, que dispõe sobre a Política Nacional do Meio Ambiente, regulamentada pelo Decreto 99.274/90.

11 CAPÍTULO VI. Do Meio Ambiente. Art. 225. Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao poder público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.

ambiental, da justiça social e do desenvolvimento econômico. Só no final dos anos 80 é que a dissociação entre economia e ecologia começou a sofrer alterações. Nos anos 90, toda a problemática ambiental passou a ser colocada para além do que se tratava de combate à poluição e da preservação dos ecossistemas, pontos predominantes à fundação e à solidificação do ambientalismo em nosso país.

No documento CURITIBA 2009 (páginas 55-59)