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Não entendo o ciberespaço como uma esfera dissociada dos embates sociais concretos. Como cogitar transformações radicais sem referências objetivas às tradições sociais? Volto a dizer que percebo uma relação de confluência, de acréscimo e de sinergia entre o concreto e o virtual, resultante, de um lado, da progressiva hibridação tecnológica e, de outro, do somatório de possibilidades que nenhuma das partes, isoladamente, alcançaria (Dênis de Moraes).

1 – O desenvolvimento da Internet

A Internet é uma estrutura tecnológica que vem se destacando nas últimas décadas. Desde meados da década de 1990 ela rompe os limites de sua esfera gestacional e passa a ser comercializada, o que possibilita sua difusão na sociedade civil. E assim como outros meios de comunicação – como o telefone, telegrama, radioamadorismo, etc. – é uma tecnologia que ajuda a pensar a transformação da sociedade a nível social e espacial e das comunidades que se formam a partir das possibilidades que essas tecnologias oferecem – como as comunidades em rede, sobre as quais dissertaremos ainda neste capítulo. Todavia, ainda que a tecnologia seja relevante para se refletir sobre a sociedade, ela não determina a sociedade, não há um determinismo tecnológico. “Nem a sociedade escreve o curso da transformação tecnológica, uma vez que muitos fatores, inclusive criatividade e iniciativa empreendedora, intervêm no processo de descoberta científica, inovação tecnológica e aplicações sociais, de forma que o resultado final depende de um complexo padrão interativo” (Castells, 2000: 25). Ou seja, assim como não há um determinismo tecnológico, a sociedade não escreve o curso da transformação tecnológica. Há, pois, um complexo de fatores que estão por detrás da relação entre tecnologia e sociedade na qual uma influencia a outra sem gerar uma relação determinista. No que diz respeito à relativização do determinismo tecnológico, é importante lembrar que o próprio modo como cada um se relaciona com a tecnologia a transforma: as pessoas e as instituições se apropriam e reorientam as tecnologias (Wellman, 2005), elas determinam como a tecnologia será utilizada (Rainie; Wellman, 2012). Assim, há o desenvolvimento tecnológico e a apropriação dessa tecnologia, onde não existe um determinismo tecnológico e não é a

10 sociedade que escreve o curso da transformação tecnológica; há uma sinergia entre tecnologia e sociedade.

A estrutura básica do que hoje se conhece como Internet surge em 1969, nos Estados Unidos, avançando de modo significativo nas décadas seguintes. “What started in 1969 as a network between four computers in Southern California has morphed 35 years later into a global system of rapid communication and information retrieval” (Wellman;

Hogan, 2004)7, nasce por meio de uma mistura rara entre estratégia militar, cooperação

científica e inovação contracultural (Castells, 2000; 2004). As duas bases que compõem o núcleo de agentes que desenvolvem o início da Internet, o establishment militar/científico e uma corrente contracultural computacional, tiveram como sustentáculo comum o mundo universitário de elite dos Estados Unidos.

Em 1969 se estabelece neste país a primeira rede de computadores pela ARPA (Agência de Projetos de Pesquisa Avançada), fundada em 1958 pelo Departamento de Defesa dos EUA com o intuito de mobilizar recursos provenientes do mundo universitário para alcançar a superioridade militar diante da União Soviética que acabava de lançar seu

primeiro Sputnik8. E na plataforma da ARPA havia um programa menor chamado

ARPANET (Advanced Research Projects Agency Network). A justificativa para sua construção foi a de que a ARPANET seria um meio de “repartir o tempo de trabalho online dos computadores entre os vários centros de informática interativa e grupos de investigação da agência” (Castells, 2000: 26) e não construir um sistema de comunicação militar capaz de sobreviver ao ataque nuclear. Segundo Castells (2004), este nunca teria sido o

verdadeiro objetivo por detrás da ARPANET (Castells, 2004)9. Em 1971 havia o total de

quinze computadores conectados a esta rede; o próximo passo do projeto se deu em 1973 com a ligação da ARPANET a outras redes que a ARPA estava criando – PRNET e

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“O que, em 1969, começou como uma rede entre quatro computadores no sul da Califórnia, 35 anos mais tarde se tranformou em um sistema global de rápida comunicação e recuperação de informações” (Wellman; Hogan, 2004).

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Sputnik foi um programa da União Soviética responsável pelo lançamento dos primeiros satélites artificiais soviéticos e que, entre outras utilidades, serviu para preparar a primeira viagem espacial tripulada. O primeiro satélite deste programa, Sputnik I, orbitou a Terra durante três meses e transmitia um sinal que podia ser sintonizado por radioamador.

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Embora Castells (2000) tenha afirmado em livro anterior, A sociedade em rede, que o objetivo presente no projeto da ARPANET era construir um sistema de comunicação militar capaz de sobreviver ao ataque nuclear – cf. Castells, 2000: 366, ou mesmo na p. 342 da versão em inglês (Castells, 1996).

11 SATNET –, o que possibilitou a concepção de “rede de redes” entre computadores. Em 1980 a ARPANET fez a união com a rede da UNIX, a USENET, no mesmo ano em que a mesma disponibiliza gratuitamente uma versão melhorada de seu programa de comunicação entre computadores – uma comunicação de computadores fora da ARPANET. UNIX é um sistema operacional criado pelos Laboratórios Bell (AT&T), da GE (General Eletric), e MIT (Massachussets Institute of Technology), disponibilizado às

universidades em 1974 juntamente com seu código fonte10 e autorização para que este

sistema fosse modificado. O UNIX se desenvolveu de modo paralelo à ARPANET e tinha uma perspectiva aberta e colaborativa – como é o caso de possuir um código fonte aberto, o que possibilita a intervenção de usuários que, por sua vez, poderiam colaborar com o desenvolvimento do sistema. Esse posicionamento aberto cooperou de modo significativo

com a universalização do que iria se chamar Internet11, o que evidencia a importância de

bases alternativas para a construção da global rede de redes. E é a partir de utilizadores e

desenvolvedores do UNIX que surge o sistema operacional Linux12 e se populariza a noção

de copyleft13. Ou seja, o elemento aberto e colaborativo faz parte da base da Internet, de

uma espécie de ideologia libertária por meio da qual as informações sobre a constituição de um sistema operacional, software, entre outros, são disponibilizados aos demais usuários que podem auxiliar no desenvolvimento de um sistema operacional, software, etc. Esta postura diante das novas tecnologias é fundamental até hoje para o desenvolvimento do sistema operacional Linux e suas mais diversas variações criadas por seus usuários, assim

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Conjunto de palavras ou símbolos em linguagem de programação que contém instruções da sua construção.

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“O controle do governo norte-americano sobre a ARPANET-INTERNET constituía um obstáculo para a sua ligação com as redes de outros países. As redes que se baseavam no UUCP [UNIX-to-UNIX copy, programa que permitia copiar arquivo de um computador para outro] globalizaram-se muito antes da Internet, criando assim as bases para a sua universalização, enquanto as redes puderam ligar-se umas às outras” (Castells, 2004: 43).

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“Em 1984, Richard Stallman, um programador do Laboratório de Inteligência Artificial do MIT, como reação contra a decisão tomada pela AT&T de reclamar direitos de autor sobre o UNIX, criou a Free Software Foundation e propôs a substituição do conceito de copyright pelo de copyleft (...) Stallman criou um sistema operativo, o GNU, como alternativa ao UNIX e colocou-o na net com uma licença que autorizava a sua utilização desde que o utilizador respeitasse o estipulado na cláusula do copyleft. Em 1991, Linus Torvalds, um estudante de 22 anos da Universidade de Helsínquia, desenvolveu um novo sistema operativo baseado no UNIX, que denominou LINUX e difundiu-o gratuitamente na Internet, pedindo aos utilizadores que o aperfeiçoassem e publicassem as suas modificações e melhoramentos na net” (Castells, 2004: 31).

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Modo de usar a legislação de direito autoral com a finalidade de retirar barreiras contra a difusão, utilização e modificação de uma obra criativa, exigindo que esse direito esteja presente em todas as versões que forem modificas.

12 como para outros sistemas operacionais, softwares, hardwares, etc. que se pautam numa ideologia libertadora e colaborativa.

No ano de 1983 cria-se a rede MILT-NET, destinada apenas a funções militares. A ARPANET transforma-se em ARPANET-INTERNET e passa a ser destinada exclusivamente à investigação universitária. Esta divisão se deu pautada na difícil coexistência de perspectivas diferentes em uma mesma rede: estratégias militares e investigações universitárias (Castells, 2004). No ano seguinte, a NSF (Fundação Nacional da Ciência), responsável pela desmilitarização e posterior privatização da Internet, cria sua própria rede de comunicações, a NSFNET, a qual passa a utilizar a partir de 1988 a ARPA- INTERNET como sua espinhal dorsal. E desde 1990 a maior parte dos computadores dos EUA já possuía condições técnicas de se conectar à rede. Em 1992 há uma expansão global da rede e uma necessidade de tornar a Internet independente do governo norte-americano.

Neste ano surge a Internet Society14, organização sem fins lucrativos que foi a responsável

pela abertura da rede para o acesso da sociedade como um todo. E foi a partir deste mesmo ano que a sociedade civil foi autorizada a utilizar a Internet. Em 1995 nasce a Internet: “Apesar de a Internet estar já na mente dos informáticos desde os princípios dos anos 60, de em 1969 se ter estabelecido uma rede de comunicações entre computadores e, desde final dos anos 70, se terem formado várias comunidades interativas de cientistas e hackers, para as pessoas, as empresas e para a sociedade em geral, a Internet nasceu em 1995” (Castells, 2004: 33).

Segundo a visão otimista de Castells, “o resultado foi uma arquitetura de rede que, como queriam seus inventores, não pode ser controlada a partir de nenhum centro e é composta por milhares de redes de computadores autônomos com inúmeras maneiras de conexão, contornando barreiras eletrônicas” (Castells, 2000: 26). Em síntese:

A criação e desenvolvimento da Internet é uma extraordinária aventura humana. Mostra a capacidade das pessoas para transcender as regras institucionais, superar as barreiras burocráticas e subverter os valores estabelecidos no processo de criação de um novo mundo. Serve também para reafirmar a ideia de que a

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Organização sem fins lucrativos dedicada a garantir que a Internet permaneça aberta, transparente e definida por seus usuários. Cf. <http://www.internetsociety.org/who-we-are>.

13 cooperação e a liberdade de informação podem favorecer mais a inovação do que a concorrência e os direitos de propriedade (Castells, 2004: 25).

Assim, torna-se evidente a importância de uma perspectiva libertária no processo de construção da Internet, presente em contribuições que se agregaram ao projeto da ARPA e na própria ARPANET, pois esta possuía um grau considerável de autonomia para o desenvolvimento de seus projetos (Castells, 2004). De modo geral, Castells (2004) coloca a liberdade como condição para o desenvolvimento da Internet.

Outro fator a se ressaltar sobre a história da Internet é a importância do Estado para a inovação tecnológica. Pois o Estado tem a capacidade de financiar projetos incertos de grandes investimentos, os quais podem ou não alcançar resultados significativos, como a criação da Internet. O Estado foi um agente fundamental para a construção da rede mundial

de computadores15; e ela não teve sua origem no mundo empresarial: “Todos os avanços

tecnológicos chave, que desembocaram na criação da Internet, são fruto do trabalho de instituições governamentais, grandes universidades e centros de investigação. A Internet não teve sua origem no mundo empresarial” (Castells, 2004: 07).

A presença do Estado pode ser notada também no MINITEL francês, considerado o dispositivo que iria conduzir a França à sociedade de informação. O MINITEL era um serviço de videotexto criado na França em 1982 que possuía grande financiamento do Estado francês e fornecia serviços telemáticos que, em seu auge, atingiu

25 milhões de usuários. Ele chega a seu fim em 201216. No que concerne à participação do

Estado francês no desenvolvimento de novas tecnologias, Castells considera que este fornecedor de serviços telemáticos “estava baseado no conceito de uma rede informática centralizada e controlada pelo governo” (Castells, 2004: 44-5), ao contrário do que o autor

afirma ter acontecido nos Estados Unidos com a Internet17.

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“O que deve ser guardado para o entendimento da relação entre a tecnologia e a sociedade é que o papel do Estado, seja interrompendo, seja promovendo, seja liderando a inovação tecnológica, é um fator decisivo no processo geral, à medida que expressa e organiza as forças sociais dominantes em um espaço e uma época determinada” (Castells, 2000: 31).

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Cf. França despede-se do Minitel: <http://pt.euronews.com/2012/06/29/franca-despede-se-do-minitel/>. O Minitel chegou a ser implantado no Brasil em 1982 com o nome de “Videotexto”, mas durou apenas seis anos. Cf. <http://www.infopedia.pt/$minitel>.

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14 A partir do que foi colocado acima, pode-se verificar que um dos elementos presentes na ARPANET é sua capacidade de conexão com outras redes, entre elas a USENET, o que possibilitou a expansão da rede de comunicação, a expansão desta rede de redes; o financiamento do Estado aparece também como um fator fundamental para o desenvolvimento da Internet; os primeiros passos da Internet se deram em uma base comum, o centro universitário, o qual agregou contribuições não apenas do establishment militar/científico como também de uma perspectiva contracultural computacional – como as colaborações realizadas por meio do UNIX bem como a criação do Linux, etc.; e a presença de uma perspectiva libertária também se coloca com importante papel para a Internet18.

No desenvolvimento da Internet no Brasil, o Estado também possuiu papel fundamental para sua chegada, estruturação e difusão, sendo inicialmente uma rede nacional de âmbito acadêmico e depois uma rede para a sociedade como um todo. A Internet chega ao Brasil por meio da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e do LNCC (Laboratório Nacional de Computação Científica), os quais em

1988 estabelecem conexões com instituições dos Estados Unidos por meio da BITNET19

(Henning, 1993). Segundo Getschko (online): “Nós buscamos conexão com redes, primeiro a BITNET e depois de uma rede física de alta energia chamada HEPNET (High-Energy Physics Network)”. No ano seguinte, a UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) conectou-se à Universidade da Califórnia também pela BITNET. “Logo, até maio de 1989, o País já possuía três ilhas distintas de acesso à BITNET” (Stanton, 1998). Somente em 1991 que o Brasil se conecta à Internet, o que se efetuou, como colocado, por meio da FAPESP (Stanton, 1998). No entanto, dada a infraestrutura de redes entre computadores

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Em relação a este ponto, é válido frisar que existe uma distinção da “liberdade” entre a autonomia relativa que a ARPA possuía frente ao Estado no que se refere ao desenvolvimento de seus projetos; a perspectiva libertária no desenvolvimento de sistemas computacionais com código fonte aberto; e o resultado da Internet como uma arquitetura de rede que não poderia ser controlada de nenhum centro e composta por milhares de redes de computadores autônomos. Estas três “liberdades” estariam presentes na geração e desenvolvimento da Internet. Mas, como será demonstrado no próximo capítulo, é possível contrapor esta presença da liberdade na Internet por meio da existência do controle em sua infraestrutura.

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Rede criada em 1981 com vistas a conectar o meio acadêmico de um modo barato e rápido. Com o tempo, foi suplantada pela Internet.

15 que precedeu a Internet no Brasil, as mensagens de correio eletrônico passaram a ser trocadas antes da Internet:

As primeiras mensagens de correio eletrônico na FAPESP aconteceram no início de 1989 e um grupo específico recebia as mensagens. Uma menina chamada Ana Paula conversava, por meio de mensagem, com um estudante da Pennsylvania State University. Eles trocavam duas ou três linhas em inglês sobre suas profissões e o que mais gostavam de fazer. As cartinhas do rapaz tinham no final :-), e nós nos perguntávamos: o que seria isso? Eram as caretinhas. Nós não sabíamos que isso existia, que possuía um sentido na Internet. Você vira 90 graus e a imagem se torna uma caretinha (Getschko, online).

Em 1989 surge, por iniciativa do Ministério da Ciência e Tecnologia, a Rede Nacional de Pesquisa (RNP), cujo objetivo era “construir uma infraestrutura de rede Internet nacional de âmbito acadêmico” (Rede Nacional de Ensino e Pesquisa, online). E além de ser responsável pela construção dessa infraestrutura, a RNP divulgou os serviços da Internet à comunidade acadêmica, realizou treinamentos, estimulando a construção de

uma consciência sobre a importância estratégica da Internet para o país20. Em 1995 o

Ministério das Comunicações em conjunto com o Ministério da Ciência e Tecnologia se propuseram a implantar uma rede de Internet global e integrada, a qual abrangeria seus diversos usos (Rede Nacional de Pesquisa, 1996). Isso fez com que a RNP redefinisse seu papel, alargando seus serviços de acesso para todos os setores da sociedade. Neste mesmo ano, os dois ministérios criaram o Comitê Gestor da Internet (CGI) visando “tornar efetiva a participação da Sociedade nas decisões envolvendo a implantação, administração e uso da

Internet” (Comitê Gestor da Internet no Brasil, online)21

. E a estratégia adotada pelo CGI foi a de “coordenar e integrar todas as iniciativas de serviços Internet no país, promovendo a qualidade técnica, a inovação e a disseminação dos serviços ofertados” (Comitê Gestor da Internet, online). Assim, em 1995 surge a oportunidade de as pessoas que estão fora do âmbito acadêmico obterem acesso à Internet. Temos então que embora cada um dos agentes que contribuíram para a formação da Internet em seus primeiros momentos nos Estados Unidos e para a sua implementação no Brasil possuam motivos variados para corroborar com a elaboração dessa tecnologia, há uma sinergia entre eles, onde o resultado foi a

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Cf. Rede Nacional de Ensino e Pesquisa. Histórico: <http://www.rnp.br/rnp/historico.html>.

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16 estrutura inicial da Internet, a qual passa por constantes transformações quando se desenvolve algum elemento que possa se anexar a ela.

Estes são, de modo sintético, os processos históricos primeiros que edificam as bases da Internet a nível internacional e nacional. Estudar seu primeiro momento de existência, sua disposição inicial, contribui com a compreensão da Internet hoje, na medida em que serve como referência para as alterações ocorridas nessa rede de redes até o momento. Assim, nas próximas páginas nossa atenção estará focada nas novas possibilidades que se abrem a nível social com o advento da Internet e as alterações que ela contribuiu para gerar na sociedade. Deste modo, compreender-se-á introdutoriamente não apenas a genealogia da Internet, mas como essa tecnologia da informação e comunicação foi e é agregada à sociedade, e as possibilidades que se abrem a partir dela.

2 – Penetração e desdobramento da Internet na sociedade

A Internet é considerada por Castells (2004) a base tecnológica da forma organizacional que caracteriza a sociedade contemporânea, ela é vista como a alavanca da sociedade em rede na qual as pessoas se encontram mais conectadas, e essas conexões passam a ser fundamentais para sua existência. Esse novo modelo de comunicação é formado pela integração de texto, imagens e sons dentro de um mesmo sistema que muda de modo fundamental o caráter da comunicação, possibilitando a existência de um elemento que faltava nos meios de comunicação de massa: interação mais imediata entre emissor e receptor. Ou seja, “enquanto as mídias de massa, desde a tipografia até a televisão, funcionavam a partir de um centro emissor para uma multiplicidade receptora na periferia, os novos meios de comunicação social interativos funcionam de muitos para muitos em um espaço descentralizado” (Lévy, 2012: 13). E com a possibilidade de cada usuário se tornar produtor de conteúdos, crítico, editor de vídeos, textos, imagens, etc., há uma quebra dessa concepção de mídia massiva na qual a produção e distribuição de informação era monopolizada por grandes empresas midiáticas, pois cada usuário pode assumir o papel que desejar e, assim, contribuir com a circulação de informação e influenciar a opinião pública:

17 A transformação da esfera midiática pela liberação da palavra se dá com o surgimento de funções comunicativas pós-massivas que permitem a qualquer pessoa, e não apenas empresas de comunicação, consumir, produzir e distribuir informação sob qualquer formato em tempo real e para qualquer lugar do mundo sem ter de movimentar grandes volumes financeiros ou ter de pedir concessão a quem quer que seja. Isto retira das mídias de massa o monopólio na formação da opinião pública e da circulação de informação (Lemos; Lévy, 2012: 25); No ciberespaço, a ênfase está na criação de formas de comunicação mais amplas, abertas, multidirecionais, diferente das funções massivas que são baseadas apenas na divulgação de informação para um público homogeneizado (Lemos; Lévy, 2012: 55).

E quanto mais as pessoas se comunicam pela Internet, mais elas se comunicam com o global (Wellman; Hogan, 2004). Mas a Internet não apenas aumenta o número de pessoas com quem passamos a nos comunicar, “the internet adding to the overall volume of communication, helping to maintain the kinds of relationships that have existed for

decades” (Boase; Wellman, 2004: 16)22

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Dada a presença desta rede mundial de computadores na vida das pessoas, o