Entrevista com Silvio: Realizada em 28/05/2015, por volta das 9 horas.
Conforme combinado por telefone, Silvio estava me esperando, enquanto cuidava de seu netinho de um ano de idade. Assim que entramos, sua esposa tomou a criança nos braços, e, nós ficamos na sala. Silvio conta que está aposentado, porém, está trabalhando em outro posto de combustível, das 13h às 20h. Desta forma, aumenta a renda da família, justificando que “tudo está muito
caro, a gente tem que se virar”. Ainda comenta sobre seu desconforto de ficar em
casa, sem trabalhar. Diz que estava ansioso para se aposentar e descansar, mas que depois que passou uns dias em casa, não queria mais ficar sem fazer nada. Sentia-se mal, incomodado. Quando um amigo seu lhe contou da vaga de frentista (posto mais perto de casa, aproximadamente 1 km – e ele desloca-se de bicicleta), ele logo se ofereceu e foi contratado.
Posteriormente, ele ouviu atentamente minha leitura do termo de consentimento livre e esclarecido, assinou, e iniciamos a entrevista. No final, agradeci pela disponibilidade em me atender novamente, e acolher-me dentro de sua casa. Ele disse que sentiu-se grato e que “parecia que ele era importante”, por ter participado de um estudo da faculdade.
Sobre a entrevista ser gravada, percebi que de início Silvio olhava muito para o celular que estava sendo usado, porém, como as perguntas tornaram-se uma
conversa, pareceu que ele “esqueceu” por muitos momentos da gravação. No entanto, torna a olhar várias vezes para o aparelho.
Entrevista com Aline: Realizada em 03/06/2015, por volta das 9 horas.
Ao chegar à casa de Aline percebi que havia 2 casas no mesmo lote, ambas de madeira, aparentemente muito antigas, sem pintura e pequenas, cercada de arame. Havia muito lixo no terreno, como plásticos, móveis (sofás, fogão, sanitário) deteriorados, muitas sacolas com lixo, peças de bicicletas velhas, ferro velho. Seis crianças brincavam ali, junto de cachorros e gatos. Logo que me avistaram, vieram até a cerca, perguntando quem eu era. Falei que era uma amiga de Aline, perguntei por ela, e uma das crianças foi chamá-la na casa ao lado. A me ver, Aline pareceu envergonhada, falei que poderia voltar outro dia para realizar a entrevista, e ela concordou.
No dia combinado, Aline recolheu-me por outro portão, o qual levava diretamente à sala de sua casa. Desta maneira, não passamos pelos entulhos no pátio. Sua casa cheirava à limpeza, os móveis eram bastante desgastados, e aparentemente, passaram por alguns reparos improvisados. Logo iniciamos a leitura e assinatura do termo, assim como a entrevista. Aline pareceu não se importar com o celular que gravava a conversa.
Entrevista com Neide: Realizada em 05/06/2015, por volta das 15 horas.
Ao perguntar por Neide no portão de sua casa, seu marido atendeu-me e foi chamá-la. Ela estava dormindo, pois como havia trabalhando durante a noite, passava parte da manhã descansando. Ao explicar sobre a entrevista, ela pediu-me para retornar na sexta-feira, pois seria feriado e ela poderia me atender com calma. Eles moram na casa dos fundos (meia água), no mesmo terreno da casa de sua sogra.
No dia combinado, Neide estava fazendo faxina em sua casa quando cheguei. Ela acolheu-me se desculpando pela bagunça, e foi trocar de roupas, pois ela estava molhada por lavar as roupas em um pequeno tanque do lado de fora da casa. Apressadamente sentou-se ao meu lado, novamente pedindo desculpas, dizendo que precisa aproveitar o fim de semana e feriado para organizar a casa. A
entrevista teve início após a leitura e assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido. Neide não pareceu constrangida pelo fato da conversa estar sendo gravada.
Entrevista com Seu Neto: Realizada em 05/06/2015, por volta das 18h50min.
Quando cheguei até a residência de Seu Neto, ao anoitecer, ele estava terminando de tratar suas criações (cavalo, burro, vaca, galinhas, cachorro). Ao mencionar sobre a entrevista, Seu Neto logo pediu-me para entrar, para que fizéssemos logo, assim eu não teria de retornar. Ele não foi grosseiro, mas percebi que eu estava incomodando.
Sua esposa me recolhia e perguntava sobre o que se tratava, enquanto eu explicava, Seu Neto terminava de cuidar de seus animais. Ele entrou em casa dizendo que não iria sentar-se no sofá, pois estava muito sujo, então, permaneceu em pé ao meu lado e ao lado de sua mulher, que ficou junto de nós. Ao ler o termo, Seu Neto assinou, mas ficou muito incomodado com o aparelho celular para gravação. Era muito perceptível seu constrangimento, sua vergonha. Falei que tentasse não prender sua atenção no celular, porque seria uma conversa e depois de gravada nós poderíamos ouvi-la juntos. Ele sorriu, mas estava ansioso. Acredito também, que além da gravação, o incômodo seria talvez pelo fato de sua esposa não ter conhecimento que eu já havia feito algumas trajetórias o acompanhando. Ao iniciarmos a entrevista, vagarosamente Seu Neto foi falando mais entre uma pergunta e outra, porém, percebi que estava tímido, aflito, desconfortável do início ao fim.
Ao terminar, agradeci, desculpei-me pelo incômodo, e ele dizia que não foi incômodo. Sua esposa levou-me até o portão, também agradeci por ter me deixado entrar em sua casa, novamente falei da importância de trabalhadores como Seu Neto, ela me abraçou ao despedir-se.
As questões abordadas durante as entrevistas serão discutidas a seguir, onde apresentar-se-ão os apontamentos dos 4 entrevistados, de maneira conjunta. Acredita-se que as entrevistas complementaram o trabalho realizado durante os trajetos etnográficos, bem como durante as primeiras observações. Desta maneira, as experiências vivenciadas durante estas três fases, foram de fundamental importância às compreensões que nortearam o presente estudo.