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O Contexto das Indústrias e Carreiras Criativas

1 COMPROMETIMENTO COM A CARREIRA NO CONTEXTO DAS INDÚSTRIAS

1.5 O Contexto das Indústrias e Carreiras Criativas

Teóricos da escola de Frankfurt introduziram o termo “indústria cultural”, no período pós- guerra como uma crítica radical ao entretenimento em massa. A intenção de Theodor Adorno e Max Horkheimer era chocar, já que “cultura” e “indústria” eram termos antagônicos (BENDASSOLLI, 2007). Já o termo “indústrias criativas” surgiu para designar setores nos quais a criatividade é uma dimensão essencial do negócio e está associado a movimentos ocorridos a partir dos anos 1990 em alguns países industrializados. Surgiu na Austrália em 1994 mas foi dado maior importância no Reino Unido em 1997, quando o governo através do seu Departamento de Cultura, Mídia e Esporte (DCMS) criou algo como o Ministério das Indústrias Criativas (BENDASSOLLI; WOOD JR.; KIRSCHBAUM; CUNHA, 2009).

As indústrias criativas compreendem, entre outras, atividades relacionadas ao cinema, ao teatro, à música e às artes plásticas (BENDASSOLLI et al., 2009). Bendassolli e colaboradores (2009) agrupam as indústrias criativas em três grandes blocos: o primeiro bloco refere-se a uma forma de produção que tem a criatividade como recurso-chave, que valoriza a arte pela arte, que fomenta o uso intensivo de novas tecnologias de informação e de comunicação, fazendo uso extensivo de equipes polivalentes; o segundo bloco abrange os contornos específicos dos produtos gerados, tais como a variedade infinita, a diferenciação vertical e a perenidade; e o terceiro bloco representa uma forma particular de consumo, que possui caráter cultural e apresenta grande instabilidade na demanda.

A UNCTAD (2010) classificou as indústrias criativas em 4 grandes grupos: Patrimônio cultural, Artes, Mídias e Criações funcionais, retratadas na Figura 3.

Figura 3 - Classificação das Indústrias Criativas

Fonte: UNCTAD (2010)

O primeiro grupo do modelo Unctad (2010), Patrimônio Cultural, está identificado como origem de todas as formas de arte. Nele está contido os aspectos históricos, antropológicos, étnicos, estéticos e sociais que influenciam a criatividade. O grupo subdivide-se em expressões culturais tradicionais (artesanato, festivais e celebrações) e locais culturais (sítios arqueológicos, bibliotecas, exposições).

O grupo das Artes é representado pelas artes cênicas (performáticas) e artes visuais englobando respectivamente música ao vivo, teatro, dança, ópera, circo, teatro de fantoches; e pinturas, esculturas, fotografia e antiguidades. O terceiro grupo caracteriza-se pelo uso de tecnologias em sua produção e elevado alcance de comunicação com grandes audiências. São as mídias audiovisuais - filme, televisão, rádio e demais radiodifusões - e mídias impressas e editoras, tais como livros, imprensa e outras publicações (UNCTAD, 2010).

O modelo da Unctad (2010) traz ainda um último grupo, Criações funcionais, que compreende bens e serviços orientados pela alta demanda e orientada por serviços com propósitos funcionais. Aqui destacam-se o design: interiores, gráfico, moda, joalheria e brinquedos; as novas mídias: softwares, videogames, conteúdo digital criativo; e por fim, os

serviços criativos como arquitetônico, publicidade e pesquisa e desenvolvimento criativos. Nas indústrias criativas, cada projeto ou produto é único e advém da combinação não- rotineira de inputs, demandando habilidades criativas e flexibilidade na promulgação dessas habilidades e carreiras. Dois filmes ou duas óperas não são iguais, mesmo se baseadas em desempenhos anteriores. Carreiras nas indústrias criativas como filme, música, moda, arquitetura e publicidade são construídas em torno de projetos. Projetos são o veículo para produtos criativos e para a carreira de um participante, definida por Faulkner e Anderson (1987) como a sequência de projetos temporários incorporados à uma linha de crédito identificável (JONES, C., 2002).

O conceito apresentado por Arthur e Rousseau (1996) refere-se à ausência de fronteiras organizacionais na estruturação de carreiras. Tradicionalmente focada no link com os mundos das profissões e organizações, os estudos de carreira mudaram sua atenção para sem fronteiras e arranjos de carreira proteana1 (ARTHUR; ROUSSEAU, 1996; HALL et al., 2002). Enquanto no modelo tradicional é a organização que gerencia a carreira do profissional, na carreira proteana é o próprio indivíduo quem gerencia a sua carreira, podendo ser redirecionada de tempos em tempos para atender às demandas e suprir às necessidades do indivíduo.

Gunz, Evans e Jalland (2002) sugerem que as fronteiras reduzem o potencial criativo. Eles afirmam que se as soluções criativas e inovadoras de problemas ocorrem quando o problema é visto através de vários quadros de referência, e limites estão sob prismas semelhantes, o cruzamento de fronteiras deve resultar em perspectivas integrando múltiplas abordagens. Criatividade, portanto, claramente sofre em um mundo limitado, e deve ser liberada em um mundo ilimitado. Novos modelos de carreira em que as pessoas desenvolvem competências não vinculadas a qualquer organização devem reinar - na verdade, já estão fazendo isso - no lugar de formas mais antigas e tradicionais. Gunz e colaboradores. (2002) defendem que para maximizar a criatividade as carreiras devem tornar-se sem fronteiras. Moulin (1997) afirma

1 A carreira proteana de Hall está vinculada ao Deus da mitologia grega Proteus que era capaz de

mudar de forma pela sua própria vontade. Entende-se que essa carreira é administrada pelo indivíduo e não pela organização, se estendendo por toda a vida como uma série de mudanças de identidade, transições e aprendizado contínuo.

que, em geral, predominam empregos casuais e contingentes, caracterizados pela instabilidade e pela descontinuidade.

A criatividade aplicada à carreira refere-se a capacidade de um indivíduo participar, de forma dinâmica e contínua, e se beneficiar da aprendizagem de vida para realizar auto avaliações e reflexões críticas de suas forças e capacidades na execução do atual trabalho, de forma eficaz para ajustar o seu plano de carreira em resposta a mudanças no ambiente interno e externo. Além disso, significa olhar para além da atual experiência de trabalho e objetivos de carreira para novas oportunidades tanto dentro como fora da atual organização. Assim, existem vários componentes da carreira criativa: aprendizagem e mudanças ao longo da vida, auto reflexão e auto invenção, e revisão eficaz de objetivos da carreira e abertura a novas oportunidades (HALL et al., 2002).

Bendassolli e Wood Jr. (2010) questiona: o que leva tantos indivíduos a buscar o trabalho nas indústrias criativas? Entre as diversas razões estão:

• Existe um “amor pela arte”, relacionado ao que ele identifica como vocação (KRIS; KURTZ, 1987);

• Prevalece a noção de que a auto realização e o reconhecimento dos pares são mais importantes que o sucesso material;

• Costuma-se perceber o trabalho artístico como um contraponto ao trabalho formal representando o “fazer o que se gosta”;

• Há a possibilidade de aprendizado ou de ser autodidata, pois ao exercer um trabalho cultural ou criativo, o indivíduo se descobre, se forja e se revela para si mesmo e para os outros (MOULIN, 1997);

• O gosto pessoal pela instabilidade e pela ausência de rotinas – tal condição parece funcionar como estímulo para buscar novas competências e, com isso, revelar novos talentos.

London (1987) destaca que os traços de personalidade determinam o porquê e como determinado indivíduo escolhe uma carreira profissional. Além disso, também determina como ele se ajusta à carreira e como ele a percebe ao longo de seu desenvolvimento profissional. Kris e Kurtz (1987) representam os indivíduos que seguem a carreira artística como um “marginal” à sociedade, que trabalha por vocação e amor, pondo sua vida pessoal

em segundo plano e que dificilmente se submete às normas mercadológicas existentes. Caves (2000) supõe que os trabalhadores das indústrias criativas são proposital e intencionalmente racionais em suas atividades, assim como qualquer outro. Eles, porém, têm diferentes focos, podendo ser menos empresariais ou possuir menor habilidade de negociação.

Bendassolli e Wood Jr. (2010), nas suas pesquisas sobre as carreiras artísticas ou criativas, afirmam que elas são criadas em processos contínuos de conexão entre o indivíduo e o ambiente das indústrias criativas. Os autores propõem duas possibilidades para entender as ambivalências e a dinâmica implicadas nessas relações. A primeira díade refere-se ao amadorismo e ao profissionalismo, no sentido de que durante a construção da sua carreira, a pessoa pode escolher pela manutenção da atividade artística como um hobby, algo que se possa fazer nas horas vagas. Essa alternativa pode lhe propiciar maior liberdade e flexibilidade; porém, o desenvolvimento de sua carreira artística terá de competir com a necessidade de uma outra profissão, para garantir sua sobrevivência.

A segunda díade ocorre entre a opção por uma valorização intrínseca do trabalho ou, em contrapartida, por uma valorização extrínseca. Na valorização intrínseca, o artista poderá ser guiado pelos atributos pessoais de seu trabalho, como a concepção de arte e criação como um “fazer arte” de insights que nem sempre conectam com as demandas e o timing exigidos pelos espectadores ou pelo “mercado consumidor”. Em contrapartida, na valorização extrínseca, o valor atribuído pelo público depende de um processo de significação extrínseca, cabendo ao artista ou profissional um esforço de identificação e adaptação. O desencontro entre essas duas formas de significação do trabalho pode gerar frustração no artista ou no público. Ou seja, a relação do artista com sua forma de trabalho e vínculos de comprometimento podem influenciar, tanto negativa quanto positivamente, a expectativa do público no que tange aos resultados esperados.