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O CONTEXTO DE 1868 E A QUEDA DO GABINETE ZACARIAS

No documento thomazsantosleite (páginas 112-115)

A volta de Zacarias ao poder, em 1866, era complicada, tendo em vista que “as condições para o exercício do poder político mantinham-se precárias e sua relação com a Câmara dos Deputados era bastante intrincada” (RIBEIRO, 2015, p.9). O tema da emancipação já estava em discussão desde 1866 e Pimenta Bueno já vinha produzindo seu trabalho acerca da reforma do estado servil desde então, do qual Zacarias, como mostramos anteriormente, foi grande articulador, cobrando dos conselheiros as atas e movimentações quanto aos trabalhos da comissão.

Por outro lado, desde 1864, o Brasil estava envolvido na Guerra do Paraguai, acontecimento que, além de mobilizar diversas discussões políticas, sobretudo na imprensa, exigia uma grande quantidade de investimento financeiro por parte do Estado, o que colocou o país em uma grave crise econômica, muito devido aos empréstimos feitos com os bancos ingleses.

Zacarias de Góis e Vasconcelos nasceu na Bahia e se formou pela Faculdade de Direito de Olinda. “Afilhado político do futuro barão de São Lourenço (Senador Francisco Gonçalves Martins), iniciou-se na vida pública no Partido Conservador, do qual se retiraria em 1861, para ingressar na Liga Constitucional” (VAINFAS, 2008, p.531).

Expoente do Partido Progressista, que naquele contexto estava junto com os liberais, Zacarias vinha, desde a sua posse, enfrentando problemas, pois, segundo Filipe Nicoletti, folhas situacionistas publicavam um enxame de ataques à Caxias, general conservador responsável pela guerra com o Paraguai. Além disso, discordâncias na condução da guerra tornavam a relação entre Caxias e Zacarias cada vez mais problemática. Mesmo com a tentativa de defesa do progressista, que dizia que o seu governo não tinha relação com os ataques feitos a ele na imprensa, a relação do general com o gabinete foi cortada, ao pedir exoneração de seu posto. (RIBEIRO, 2015, p. 9)

Em 1868, a guerra já durava quatro anos, e, apesar das vitórias brasileiras, não se conseguia dar um fim ao conflito. Sem dúvida, um dos motivos que levaram à saída de Zacarias do poder estava ligado à guerra com o Paraguai, que mobilizava as atenções do Estado. As

críticas feitas ao general Caxias, por não conseguir vencer ou mesmo por fim ao conflito, também eram estendidas ao governo, e, consequentemente, ao presidente do gabinete, Zacarias.

Depois de tentativas fracassadas de reconciliação entre Caxias e o gabinete, o governo tinha duas possibilidades: aceitar a decisão de rompimento e trocar o presidente do gabinete, o que representaria uma clara quebra na ordem hierárquica, ou sustentar Zacarias, em detrimento do general Caxias, e colocar em risco o prosseguimento da Guerra do Paraguai. Segundo Nicoletti, essa foi uma controvérsia nunca vista antes.

O ineditismo de tal controvérsia estava em sua própria natureza, caracterizando-se como uma escolha entre a manutenção de uma lógica do Estado que historicamente priorizara os poderes civis sobre os interesses militares, e com a confirmação de Caxias no cargo, a subversão dessa lógica, avalizando o que para muitos políticos do período representava uma perigosa ameaça às instituições. (RIBEIRO, 2015, p.10)

Em consulta, os conselheiros do Conselho de Estado foram, em maioria, contra a decisão de seguir a opção de Caxias, mas o imperador se mostrava disposto a realizar concessões. As semanas posteriores à consulta ao Conselho seriam decisivas, tendo em vista que a relação do governo com o gabinete se tornava mais e mais delicada. Com a disseminação desse impasse, a Câmara se tornou dividida e o governo tendia para a questão do Prata. A estratégia de Zacarias foi não referendar a escolha de Francisco Salles Torres Homem, o visconde de Inhomirim, que, como vimos, atuou no Conselho de Estado na questão da emancipação, para o cargo de senador pela província do Rio Grande do Sul, “atribuindo sua queda à falta de confiança manifestada pela Coroa” (RIBEIRO, 2015, p.10).

Zacarias não escolheu o seu sucessor para a chefia do gabinete, ato que era incomum, rompendo simbolicamente com a Coroa. O imperador então escolheu um conservador para o lugar, mesmo que o partido não tivesse maioria na Câmara. O nome escolhido foi o de Joaquim José Rodrigues Torres, o visconde de Itaboraí, conhecido na historiografia por fazer parte da trindade Saquarema120, e também velho conhecido na discussão da questão da emancipação no Conselho de Estado, conforme exposto no capítulo anterior. Ele sabia da dificuldade que encontraria pela frente ao assumir o gabinete em um momento tão inoportuno, como nos mostra Sergio Buarque de Hollanda:

120 Quanto à nomenclatura dos conservadores enquanto Saquaremas, corroboramos com uma historiografia que

com que o Presidente do Conselho se apresentou à Câmara, e nada faz supor que tivessem um sentido apenas convencional. Aprovada com larguíssima diferença – 85 votos contra 10 – a moção que a 17 de julho justificou José Bonifácio [...] ‘hoje, do dia para a noite, um Ministério cai no meio de numerosa maioria Parlamentar e inopinadamente surgem os nobres Ministros como hóspedes importunos que batem fora de horas e pedem agasalho em casa desconhecida’ (HOLLANDA, 2004, pp. 13,14 ).

A composição do gabinete contava com Itaboraí, como presidente do Conselho e ministro da Fazenda; Paulino José Soares de Sousa Filho, filho do visconde do Uruguai, também participante da trindade saquarema, como ministro do Império; José de Alencar, como ministro da Justiça, sendo substituído, em 1870, por Joaquim Otávio Nebias; José Maria da Silva Paranhos (Rio Branco), como ministro dos Negócios Estrangeiros, substituído, em 1869, pelo barão de Cotegipe; barão de Muritiba, como ministro da Guerra; Joaquim Antão Fernandes Leão, como ministro da Agricultura, substituído, em 1870, por Diogo Velho Cavalcanti de Albuquerque. (NABUCO, 1997, p. 1175)121

Dessa composição, além de Itaboraí, que já estava no Conselho de Estado, outros expoentes da instituição estiveram presentes, tal como José Maria da Silva Paranhos, assíduo nas discussões dos projetos de Pimenta Bueno, e Nabuco de Araújo. Paranhos esteve no gabinete até 1869, quando foi escolhido pelo imperador para ir ao Paraguai negociar o fim da guerra, feito que o deu o título de barão do Rio branco. Por último, o barão de Muritiba, que não discutiu os projetos de São Vicente, mas apareceu nas discussões do projeto da comissão do Conselho de Estado, presidida por Nabuco de Araújo.

De certa maneira, após a posse do Gabinete Itaboraí, a questão no Prata começou a se desenvolver para o fim da guerra. Como vimos, em 1869, o conselheiro Paranhos já estava em uma missão diplomática para finalizar o conflito, fato esse ocorrido no início do ano de 1870. Apesar disso, outro tema de tamanha importância precisava de solução: a questão da reforma do elemento servil.

Como mostramos anteriormente, a maior parte do Conselho de Estado acreditava que era melhor esperar a resolução do conflito com o Paraguai para se iniciar as discussões acerca da questão da reforma do estado servil. Itaboraí era um dos que corroboraram com essa perspectiva. Porém, desde que esteve à frente do gabinete, a discussão sobre a emancipação e

o projeto do Conselho de Estado estava parada nas instituições políticas, mas, em contrapartida, ficou a todo vapor na imprensa e na sociedade (FAÇANHA, 2014)122

Percebemos, nesse período, a publicação de panfletos diversos acerca da emancipação do ventre, como A viagem imperial e o ventre livre, que mostramos na introdução desta dissertação, A escravidão no Brasil e as medidas que convem tomar para extingui-la (1869), de Adolfo Bezerra de Menezes, Ideias por coordenar a respeito da emancipação (1871), de Maria Josephina Mathilde Durocher, entre outros.123 O tema da emancipação voltou às instituições políticas por intervenção de um deputado, em 1870, como veremos adiante.

No documento thomazsantosleite (páginas 112-115)