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O CONTEXTO DE EMERGÊNCIA DO MOVIMENTO DA BOA

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O CONTEXTO DE EMERGÊNCIA DO MOVIMENTO DA BOA NOVA:

DO PRÉ-CONCILIAR AO PÓS-CONCILIAR.

O objetivo deste capítulo é apresentar uma análise dos processos sociais que redunda- ram na constituição e consolidação do Mobon. Na primeira parte, apresento uma análise da formação da Congregação dos Missionários Sacramentinos de Nossa Senhora, onde os funda- dores do Mobon estudaram – essa instituição influenciou na formação e atuação dos missioná- rios do Mobon. Na segunda parte, faço uma análise da atuação do Mape (Movimento Aposto- lado dos Pioneiros do Evangelho) – Movimento do qual surgiu o Mobon. Na última parte, mostro como a formação do Mobon está diretamente relacionada ao Concílio Vaticano II (1962-1965).

1.1 O Seminário dos Missionários Sacramentinos: a formação de um catolicismo militante.

Os missionários do Mobon realizaram seus estudos na Congregação dos Missionários Sacramentinos de Nossa Senhora1, em Manhumirim-MG. Assim, é importante passar pelo histórico dessa Congregação para compreender a formação e o modo de atuação do Mobon.

A congregação de Missionários Sacramentinos de Nossa Senhora foi fundada pelo Pa- dre Júlio Maria de Lombarde, o qual nasceu na Bélgica, em 1878, e era filho de uma família muito católica; cresceu numa cidade em que muito da vida social, política, cultural e religiosa se imbricavam. Naquela região, havia tradição de jovens católicos que seguiram carreira mis- sionária. A legitimidade vinha da atuação do Papa Leão XIII (1878-1903), defensor dessa prática e incentivador da modernização do catolicismo (Botelho, 1994).

As primeiras missões de Júlio Maria foram realizadas na África. Teria retornado à Eu- ropa devido a problemas de saúde e deu continuidade à sua formação, tendo como principal mentor intelectual o Pe. João Batista Berthier, um Francês descrito como sendo de “um tem- peramento vivo, apaixonado e autoritário; um caráter sanguíneo e, quando encontrava oposi- ção, o sangue lhe fervia nas veias” (Botelho, 1994: 55): características que foram marcantes na carreira de Júlio Maria.

O padre belga, em 1912, recebeu convite para realizar missões no Brasil. Chegou a Macapá-AP para realizar seus trabalhos, colaborando com a formação religiosa daquela regi- ão. Contava com o aval do bispo local para tal intento e exerceu diversos cargos políticos2 pelo estado. Segundo Botelho (1994: 106), muitos religiosos “não olhavam também com bons olhos os seus arrojos e o prestígio de que ele gozava perante o Governo. Não deixava de ferir

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Há uma foto da sede da Congregação na Figura 1, página 71. 2

Botelho (1994) não qualifica esses cargos e os conflitos pelos quais passou Júlio Maria na região norte do Bra- sil.

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suas suscetibilidades vê-lo ocupando diversos cargos, igualmente em nível municipal e esta- dual”.

Ele se envolveu em decisões políticas locais e, por volta de 1919, muitos conflitos se tornaram públicos e, com isso, alguns padres começaram a escrever cartas ao bispo e ao Supe- rior Geral, classificando-o como sendo “o todo poderoso, o plenipotenciário, o tirano de Ma- capá” (Botelho, 1994: 106). Os espaços de Júlio Maria nos postos de poder foram diminuindo gradativamente e os conflitos se acirraram.

Nesse contexto, havia poucas possibilidades de Júlio Maria realizar o sonho de “fun- dar uma Congregação de Padres missionários” (Botelho, 1989: 172). Na visão de Botelho (1989: 172): “lamentavelmente, ele não conseguiu contar com o aprazimento dos Bispos do norte do país para tal empreendimento”.

A fundação de uma Congregação de missionários se deu em meados da década de 1920, na Diocese de Caratinga-MG. Essa iniciativa era valorizada pelo Bispo local, D. Carlo- to, que objetivava formar agentes do clero – já que havia escassez dos mesmos na Diocese (Botelho, 1994)3:

tomando conhecimento de seu projeto, interessou-se grandemente por ele. Sua diocese precisava demais de clero, e as aspirações do Pe. Júlio Maria despertaram-lhe a atenção.

Escreveu-lhe, convidando-o para vir realizar a obra em sua diocese e lhe ofe- recia todo apoio e ajuda. O velho missionário exultou de alegria e, com plena anuência de seus Superiores, veio para Caratinga (Botelho, 1989: 172).

Pe. Júlio Maria se interessou em fundar a Congregação em Manhumirim-MG, pois es- sa localidade não possuía paróquia e “o povo era muito frio em matéria de religião” (Botelho, 1989: 172). A escolha do espaço era uma forma de expandir o catolicismo para espaços da Diocese onde essa instituição tinha presença frágil. A situação de desamparo espiritual é rela- tada:

Não havia nenhuma Irmandade canonicamente ereta. Tão-só umas quinze senhoras com a fita do Coração de Jesus que faziam a comunhão mensal no primeiro domingo. Existiam umas dezoito Filhas de Maria, que nem apare- ceram no princípio, e tinham somente a fita e o véu, mas sem nenhuma or- ganização. As crianças não tinham catecismo e o Cura não era dado a prega- ções, nem mesmo nas missas dominicais. Por aí se vê e se entende o estado de ignorância religiosa do povo (Botelho, 1989: 173-174).

O pároco que precedeu Júlio Maria é descrito como incapaz de imprimir um ritmo ca- tólico ao município. Não teria conseguido êxito na proposta de organizar grupos católicos que dessem conta de tornar a cidade com práticas de um catolicismo pujante4. Na descrição de

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O padre Dermeval Alves Botelho é historiador e faz parte da Congregação dos Missionários Sacramentinos. Sua narrativa é utilizada neste texto como uma das documentações importantes para a compreensão do período anterior à formação do Mobon.

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“O Cura de Manhumirim, anterior ao Pe. Júlio Maria, era o Pe. Frederico de La Barrera, de nacionalidade es- panhola. Ainda que de vasta cultura, manejava muito mal o português e com forte sotaque castelhano. Seu estilo de apostolado se pautava pelo de seus predecessores. Era, não resta dúvida, um Sacerdote de vida íntegra, humil- de e piedoso, porém acomodado à situação. Muito comunicativo, de fina educação, mas de temperamento pacífi- co. Queria a paz com todos. Não tinha coragem de chamar a atenção do povo sobre os abusos em matéria de religião. Faleciam-lhe, outrossim, ânimo e ardor pastoral para dinamizar a vida cristã de seu rebanho e enfrentar o avanço do protestantismo. Além do mais, era muito condescendente e compactuava com a influência e domí-

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Botelho (1989), profundo admirador de Júlio Maria, este seria o agente capaz de colocar a cidade dentro das normas e propósitos católicos, pois teria outro perfil:

Ele era completamente diferente do seu predecessor. Um missionário ardo- roso, vibrante com a Igreja, um tipo dinâmico, de personalidade cativante, dotado de grande eloqüência e dominava bem o português. O povo se entusi- asmou logo com seu novo chefe religioso. A igreja, anteriormente vazia, en- cheu-se. A atividade e o peso do Cura recém-chegado, tornou-se notícia que se comentava na cidade e redondeza (p.174).

A presença de Júlio Maria e da Congregação se revelaria profícua dentro dos propósi- tos católicos de buscar crescimento do número de adeptos da religião católica, procurando diminuir os espaços de atuação dos agentes protestantes, investido do propósito católico de agregar a todos.

Bourdieu (2005), ao analisar o campo religioso, ressalta que o sacerdote é o agente da religião estabelecida, aquele que reproduz um sistema de crenças e ritos sagrados, de modo que a religião se incorpore a cada membro dessa sociedade e torne-se um hábito que ninguém questiona. Esses especialistas buscam alcançar o máximo de pessoas, trazendo a eles próprios leigos de todas as classes e tornando-os consumidores de seus bens simbólicos.

Segundo Bourdieu (2005: 58), o sacerdote tende sempre “a impedir de maneira mais ou menos rigorosa a entrada no mercado de novas empresas de salvação (como, por exemplo, as seitas e todas as formas de comunidades religiosas independentes), bem como a busca indi- vidual de salvação”.

A Igreja visa ao monopólio dos meios de produção, reprodução e distribuição dos bens de salvação através do sacerdote, que teria “monopólio da distribuição institucional ou sacramental e, ao mesmo tempo, de uma autoridade (ou de uma graça) de função (ou institui- ção)” (Bourdieu, 2005: 58). Padre Júlio Maria, investido de suas funções institucionais, bus- cou levar suas propostas de evangelização por todas as partes.

A atuação de Júlio Maria alterou a organização local pré-existente e houve uma acirra- da disputa no município entre católicos, protestantes e maçons. No município havia: “uma Loja maçônica e dois templos evangélicos – um presbiteriano e outro batista. Uma outra de- nominação, talvez uma congregação iniciante, funcionava em casa particular” (Botelho, 1989: 173). Segundo Botelho (1989), a presença da Igreja Católica era precária e não conseguia acompanhar os núcleos colonizadores que foram se formando naquela região, sendo muitos destes eram protestantes:

Estes foram erguendo seus templos e escolas onde se instalavam. Os Padres eram escassos e, vez por outra, percorriam os patrimônios em formação para a desobriga e, mesmo assim, não conseguiam atingir a todas as famílias. Os Pastores evangélicos eram mais numerosos, mais insistentes e marcavam mais presença na região junto às famílias. Conseguiram, por isso, mais su- cesso nos seus trabalhos (p. 178).

Botelho (1989) ressalta o domínio protestante e enfatiza a precariedade do catolicismo ali estabelecido antes da chegada de Júlio Maria5. Essa ênfase deve-se à grande valorização

      

nio dos maçons nos movimentos da igreja. A vida cristã do curato era fria, sem entusiasmo e sem definição” (Botelho, 1989: 178).

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“Pelo que se tem notícia, os Padres, que passaram por Manhumirim, desde os tempos de Pirapetinga, seguiam mais a linha de uma pastoral de atendimento, sem aquele espírito genuinamente missionário e de uma evangeli-

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positiva da atuação do fundador de sua congregação. Ele procura ressaltar as realizações do padre no município, até mesmo para justificar a expressão de que Manhumirim teria passado por dois momentos díspares, referindo-se à atuação de Júlio Maria: “ANTES e DEPOIS dele, como disse um eminente político desta terra” (Botelho, 1989: 67).

Botelho (1989) afirma que Júlio Maria revolucionou “aquele chão”. A atuação inicial do padre teria se centrado no fortalecimento do catolicismo. A partir disso, foi iniciado um longo conflito político-religioso com protestantes e praticantes da maçonaria. Na maçonaria de Manhumirim, congregavam pessoas abastadas do município, que, a princípio, não criaram dificuldades para o trabalho do pároco:

Eram 127 homens de classe abastada ‘iniciados’. Todos os empregados pú- blicos eram filiados à Loja local. Nos primeiros tempos, não criavam difi- culdades para a ação apostólica do Padre, e ajudavam muitos nos movimen- tos paroquiais (Botelho, 1989: 196).

Na fase inicial, o Padre Júlio Maria não intervinha nas atividades dos maçons. Mais tarde, iniciou uma tentativa de agregar-lhes a um catolicismo “mais puro”, demarcando fron- teiras com outras formas de expressão. O objetivo de Júlio Maria era impossibilitar que agen- tes fossem católicos e maçons ao mesmo tempo, com o objetivo de fortalecer sua influência no município:

mostrar-lhes que não era possível pertencerem à maçonaria e tomaram a se indispor e a se opor às propostas do Vigário. Suas primeiras reações foram cercear-lhe a ação pastoral e jogá-lo contra a comunidade. As posições se a- cirraram de lado a lado. Daí veio toda aquela seqüela de atos e atitudes ge- rando a malfadada guerra político – religiosa (Botelho, 1989: 196).

O conflito teve seu apogeu no final da década de 1920. A Maçonaria queria construir uma loja, e o Vigário interveio para que isso não acontecesse no espaço central no município, obtendo êxito. No relato de Botelho (1989), fica explícita a insatisfação de Júlio Maria em relação à atuação dos políticos maçônicos. Nesse contexto, é que “o campo político-religioso só vai dividir-se em dois depois que o Pe. Júlio Maria começou a definir a posição dos católi- cos e indicar-lhes uma direção nova e definida – ‘não se pode ser, ao mesmo tempo, católico e maçons’”(p.74).

O padre Júlio Maria professava sua fé católica e revelava seu objetivo católico de ten- tar uma conversão dos maçons ao catolicismo. O conflito com os maçons era religioso, mas também colocava em disputa o domínio político do município; o padre queria fazer valer sua influência de forma mais ampla.

Caso o padre conseguisse mais legitimidade no campo religioso, desqualificando e diminuindo a legitimidade e influência dos grupos maçons, obteria maior domínio no campo religioso e poderia expandir seus ganhos de capital religioso para o campo político. Nesse sentido, é importante destacar que o questionamento da maçonaria e suas obras na cidade só se deram depois que ele já tinha exercido papel importante na reorganização católica do mu- nicípio. A tentativa de Júlio Maria de se ver em posição mais proeminente no município esta- va relacionada e legitimada pelo contexto católico nacional.

As disputas municipais ocorreram num contexto em que Igreja Católica procurava uma “Recristianização” da sociedade, caracterizada por uma “Militância” e “Restauração Ca-

      

zação mais ampla e profunda” (Botelho, 1989: 67). Pirapetinga é o nome da localidade que, mais tarde, veio a ser denominada Manhumirim.

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tólica”, que seguia as diretrizes de Pio XI (1922-1939), que objetivava “uma presença ativa em uma sociedade cada vez mais laicizada” (Soares, 2011: 10). Nesse contexto, Dom Sebasti- ão Leme argumentava que o Brasil era uma nação católica, por isso, a Igreja Católica deveria marcar uma maior presença na vida social, cristianizando as principais instituições sociais nos moldes católicos. Para isso, investia na criação de um quadro de intelectuais católicos e ali- nhava práticas religiosas populares aos procedimentos ortodoxos (Mainwaring, 1989: 41).

Na década de 1920, havia uma postura mais firme do clero contra a laicidade do Esta- do, com o objetivo de conter grupos contrários à fé católica. O termo “Recristianização do Brasil”:

era muito difundido na imprensa da década de 1920, caracterizava-se por uma postura mais enérgica do clero em relação ao avanço da laicidade do Estado brasileiro, bem como para fazer frente ao avanço ‘dos inimigos da fé católica’ como o protestantismo, a maçonaria, o espiritismo, entre outros. Exigia-se do clero uma atitude militante e, em muitos casos, a aproximação com governos fortes e autoritários; todos os instrumentos deveriam ser utili- zados nessa empreitada. (Soares, 2011: 14-15).

Era iminente o objetivo da Igreja Católica de se fazer presente nos mais diversos espa- ços da vida social e transmitir a imagem de “religião do Brasil”, com o objetivo de recuperar seu status, perdido em função da Proclamação da República. Isso se destacou pelas mobiliza- ções do início década de 1930.

A Constituição de 1934, num documento que começava com a frase: “depositando nossa confiança em Deus”, três concessões levariam à união entre nação e fé:

primeiro, o casamento religioso foi inteiramente reconhecido pela lei civil e o divórcio foi proibido; segundo, foi facultada a educação religiosa em esco- las públicas durante o período de aulas; terceiro, foi permitido ao Estado fi- nanciar escolas da Igreja, seminários, até hospitais e quaisquer outras ativi- dade e instituições relacionadas e legalmente designadas como de ‘interesse coletivo’ (Della Cava, 1975: 15).

Antes dessa constituição, foi formada a LEC, Liga Eleitoral Católica, para mostrar o poder de mobilização da Igreja Católica:

para mobilizar o eleitorado católico e endossar, dentre os candidatos à As- sembléia Constituinte de 1933 e ao Congresso Nacional de 1934, somente aqueles que apoiassem o programa mínimo da hierarquia (inicialmente im- presso em abril de 1931, tendo circulado em forma de panfleto e, mais tarde, naquele memorável Outubro, submetido formalmente a Vargas pela hierar- quia). A LEC continuou seu trabalho eleitoral nos anos 40 e 50, mas, por es- ta época, sua vitalidade havia arrefecido (Della Cava, 1975: 16).

Nesse contexto de busca dos católicos por maior influência no espaço público, Júlio Maria busca maior influência no município de Manhumirim-MG. “Pe. Júlio granjeara, desde os começos, a admiração, o respeito e a estimativa do povo, suplantando, assim, a liderança do Presidente da Câmara, quando os campos entraram numa fase de definição e divisão” (Bo- telho, 1989: 74). O padre havia construído, através de sua atuação religiosa, uma considerável reputação e poder de influência que estaria “ofuscando” a liderança política do presidente da Câmara.

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A proeminência de Júlio Maria seria colocada à prova no campo político. Ele esperava ter sua influência reconhecida e exercer, de fato, seu poder no município. A forma concreta de fazer isso era levar os católicos a abandonarem a maçonaria:

homens eminentes da sociedade, filiados à Loja maçônica, mediante as ori- entações pastorais do Vigário, abjuravam-na a fim de se tornarem católicos verdadeiros e praticantes. Este fato implicava, na prática, o rompimento polí- tico com os chefes do município (Botelho, 1989: 74-75).

A escolha religiosa significava, na prática, uma escolha política. Romper com a maço- naria era escolher a facção política do município que se agregava em torno do Padre Júlio Maria, em detrimento dos políticos mais proeminentes da maçonaria. Até aquele momento, a cidade não tinha esses conflitos, que são justificados como uma necessidade, pois “a religião não passava de algo indefinido; a vida cristã era fria e sem expressão; os atos religiosos apre- sentavam mais um aspecto social; era a Maçonaria que dava as cartas, mesmo nos movimen- tos de Igreja” (Botelho, 1989: 75).

Os conflitos têm uma justificativa centrada na religião, pois a vida cristã “era fria” e a maçonaria predominante. Destaca-se o incômodo do pároco em viver numa localidade onde os maçônicos “davam as cartas”. O que estava em disputa nos campos político e religioso era a definição do comando municipal, seja em relação às normas de conduta, seja na regulação das decisões políticas. Até aquele momento, os membros da maçonaria exerciam seus poderes no município sem resistência organizada, mas, com a atuação de Júlio Maria, houve uma con- sistente disputa política:

O novo Vigário sentiu que não poderia, em consciência, ser conivente com aquela situação de mistura religiosa e de religião sem vida. Diante de suas propostas, a Maçonaria se abespinhou. Ele tentou contornar o problema, po- rém, com firmeza e coragem. O resultado foi que as posições endurecem, de lado a lado, e os caminhos, para o diálogo, foram bloqueados. Destarte, não era mais possível um entendimento. Manhumirim dividiu-se em duas fac- ções: CATÓLICOS e MAÇONS, posto que houvesse os que nadavam nas duas águas. Os protestantes cerraram fileira em torno dos maçons. Deu-se, nessa ocasião, início a uma luta político religiosa bem declarada (Botelho, 1989: 75).

A cidade encontrava-se no principal momento de divisão político-religiosa de sua his- tória, e os conflitos eram publicamente declarados e sentidos. Alguns maçônicos deixaram suas atividades e se vincularam ao padre; outros continuaram maçônicos e se ligaram aos gru- pos protestantes da localidade. O padre se apoiava no catolicismo como ponto de legitimação de suas demandas políticas, formando-se, assim, um conflito: protestantes rechaçavam con- cepções religiosas dos católicos e estes, em posição homóloga, no campo religioso, faziam o mesmo.

Nesse sentido, cabe remeter a Bourdieu (2007a: 223-224), porque, segundo ele, os pontos de vista dos agentes sociais no campo são, por definição, diferentes e concorrentes. Para ele, não se pode invocar uma natureza agressiva dos agentes no campo, tampouco uma necessidade de poder; o que os coloca em concorrência é a própria estrutura do campo, onde os agentes buscam mais capitais e espaços para ocupar melhores posições no campo.

Os dois grupos, os católicos e protestantes, que, por vezes, também eram da maçonari- a, firmaram um amplo conflito nos campos religioso e político com o propósito de apropria- ção do máximo possível de capital nos dois campos. Nesse contexto de disputas, foi lançado,

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por adversário de Júlio Maria, “um folheto de ataque ao culto católico à Mãe de Jesus, em forma de desafio agressivo, e ‘exigido’ que o Cura provasse pela Bíblia diversas coisas pro- fessadas pelos católicos e negadas por eles” (Botelho, 1989: 179). Essa disputa faz sentido para esses agentes que tinham internalizado as lógicas das disputas de “verdade” do campo religioso e estavam de acordo com o fato da Bíblia ser uma fonte de verdade para eles.

A legitimidade católica era colocada à prova, num contexto em que: “tanto os grandes apóstolos da Igreja Católica como os Pastores evangélicos de maior renome eram hábeis es-

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