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CAPÍTULO 1 – O LIVRO 11

1.4 O contexto de uso do artefato

A Escola é um centro convergente para várias situações de „aquisição‟ de conhecimento paras as crianças e jovens. Neste ponto o livro é um instrumento de grande valia para os educadores. As informações sobre costumes sociais, práticas culturais e outras condutas são facilmente encontradas em muitas das publicações voltadas ao público infantil.

Para este fim o Livro Paradidático torna a atuação do professor mais eficaz quando amplia o espaço de atuação do processo ensino/aprendizagem que não se restringe apenas à Escola. Entretanto, existe um problema real e de difícil solução, a obrigatoriedade.

Muitos dos livros „recomendados‟ para a leitura complementar da criança são encarados como tarefas reais comparadas às dos livros didáticos. A obrigatoriedade que o ato da leitura exerce sobre os jovens inibe a capacidade de apreciar o conteúdo a sua maneira e, a partir de então, fazer um julgamento próprio.

Mesmo cientes do desagrado que a leitura impõe à maioria das crianças, os mestres e pais ainda insistem em métodos de intimidação para conseguir seu objetivo: que a criança leia uma publicação escolhida por eles e que, teoricamente, é ideal.

Sobre isto Cunha diz:

Se, fundamentada na área apreciativa, é uma opção, até que ponto é legítimo impormos ao aluno uma obra [escolhida pelo professor], a ser cobrada através de processo determinado pelo professor, em um dia D, do calendário escolar? E mais: é lícito impor a leitura?

Estrategicamente, se queremos „fazer a cabeça‟ dos alunos para formar, se possível, 30 leitores em 30 crianças, a técnica da coerção funciona? [CUNHA, 1986:43].

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Tratam-se, então, de grandezas conceitualmente incompatíveis. A obrigatoriedade praticamente poda o desejo e, conseqüentemente, o prazer do indivíduo que adquire o livro. A liberdade de escolha, ou antes, a possibilidade, por menor que seja, de prender a atenção do leitor é uma „arma‟ potencialmente poderosa que os responsáveis pela confecção e aquisição do livro devem estar atentos.

Os ambientes escolares, bibliotecas e mesmo os pais, muitas vezes, não têm a capacidade de dar aos seus alunos, freqüentadores e filhos a opção de escolha. No caso de escolas e bibliotecas os recursos econômicos lideram a lista de motivos negativos. Quanto aos pais, o fator econômico está, em alguns casos, aliada à desconhecimento dos conteúdos e das necessidades reais de seus filhos.

Num estudo simples Cunha [1986] mostra o julgamento dos professores – profissionais diretamente envolvidos com o público infantil e, por isto, mais próximos do julgamento infantil – sobre textos de autores considerados ícones da literatura infantil e que têm altas cotações no conceito dos órgãos governamentais. Em meio aos julgamentos ocorrem discordâncias entre as opiniões dos professores e os conceitos atribuídos pelo governo sobre a eficácia da obra. Enquanto um livro é considerado ideal para o aprendizado da criança pelos especialistas, os professores os classificaram de modo contrário ou, no mínimo, não aprovaram sua indicação.

Esta situação reflete uma discrepância de valores, certa desorganização e desdém ao indivíduo mais interessado no processo, o próprio público infantil.

Talvez por este motivo, meios de comunicação como televisão, rádio e cinema sejam tão bem sucedidos no que diz respeito a prender a atenção dos jovens ao ponto de rejeitarem os livros. A comunicação em massa tende a se preocupar com os gostos de seu público e tenta agradá-lo e assim prender sua atenção indefinidamente [e não é obrigatória].

Este quadro não é reconhecido quando observamos mais detalhadamente a relação da criança com o livro. As publicações existem, são expostas às crianças e mesmo que elas não as aprovem são „obrigadas‟ a lê-las. Tratam-se das expectativas sociais que definem padrões-chave de comportamento e que versam sobre a necessidade de conhecer determinados conteúdos.

É preciso ressaltar, pois, que essa cultura de leitura é fruto da relação social que o próprio leitor brasileiro tem com os livros. A cultura de consumo tanto dos leitores individuais quanto dos dispositivos governamentais molda a atual conjuntura dos hábitos literários da população.

De acordo com a Associação Brasileira de Difusão do Livro [2009] a pesquisa „O livro do orçamento familiar‟ realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e

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Estatística [IBGE], e encomendada por várias instituições de incentivo à leitura, aponta que no período entre 2002 e 2003 apenas 7,47% da população brasileira adquiriu livros não relacionados diretamente à Educação [não-didáticos]. A pesquisa ainda aponta que esse percentual corresponde a 0,05% da renda familiar.

A pesquisa ainda sugere que o gasto anual médio com livros não-didáticos por família é de apenas R$ 11,00. Isso equivale a ¼ do gasto dispensado a revistas, por exemplo. Antes de tudo, esses índices revelam a preocupante realidade sobre a cultura de consumo do livro como um todo e em específico do setor não-didático no ambiente familiar.

Outra pesquisa revela os significativos números relacionados ao mercado do livro no Brasil. Os dados mostram que em 2008 o faturamento das vendas pela indústria editorial foi de 3,30 bilhões de reais, dos quais apenas 869,35 milhões foram AM transações com o Governo. O índice corresponde a 26,30% de toda transação realizada no período contra 73,70% com outros setores do mercado. [Mercado do livro no Brasil, 2009].

A crua realidade dos números é um forte indício do baixo índice de subsídios financeiros destinados ao incentivo à leitura nas próprias escolas. Mesmo dispensando milhões de reais para a obtenção de livros para formar o acervo das instituições de ensino, as instâncias governamentais ainda estão muito longe de competir com o mercado interno.

O baixo investimento na aquisição de exemplares abre brechas para questionamentos sobre os requisitos básicos considerados importantes, tanto ao indivíduo quanto ao governo, no momento da decisão de adquirir o livro. Será que pais e educadores prezam pela qualidade do conteúdo informacional em detrimento do preço final do produto? Será que as necessidades básicas para o desenvolvimento cultural das crianças estão sendo supridas pelos livros que lhe são apresentados?