A apresentação e discussão dos resultados desta tese estão sistematizadas em três eixos, relativos às variáveis do contexto, aos elementos cognitivos das propostas e as redes de relações entre os atores. Essa orientação segue a abordagem proposta por Campbell (2005), que considera esses elementos como os principais mecanismos que afetam o aparecimento e a performance de movimentos sociais. Neste capítulo, procuramos analisar elementos do contexto brasileiro que podem funcionar como estimuladores ou limitadores das propostas de implantação de um Sistema Brasileiro de Comércio Justo e Solidário.
No âmbito da produção agrícola, são apresentadas as características da agricultura familiar, principal atividade a ser considerada numa perspectiva de segurança, soberania alimentar e desenvolvimento local, representada por uma das plataformas do movimento brasileiro. Considerando que a proposta do Comércio Justo se insere num ambiente em que outros atores estão negociando objetivos convergentes e, algumas vezes divergentes, são enfocadas algumas iniciativas desses atores, avaliando-se em que medida elas se relacionam com os objetivos do movimento brasileiro. Na última seção, no intuito de fornecer alguns elementos para situar a proposta do movimento brasileiro no âmbito das iniciativas de Comércio Justo Norte-Sul, apresentamos as principais características dessas intervenções, relativas aos atores, às organizações de produtores envolvidas e aos produtos comercializados. 3.1 – A Agricultura Familiar
Os produtores familiares, os artesãos e os trabalhadores organizados em médias e grandes plantações constituem os principais destinatários das iniciativas do Comércio Justo Norte-Sul. Nesta tese, dentre este público-alvo do movimento, optou-se pela categoria de agricultor familiar42 por duas razões. Em primeiro lugar, pelo recorte da pesquisa onde,
42
O conceito de agricultura familiar tem sido discutido por diversos autores, os quais buscam enquadrar a atividade de produção familiar a partir de diferentes parâmetros, como tamanho da propriedade, renda anual,
dentre os produtos comercializados no Comércio Justo, buscou-se incluir apenas os alimentícios, tanto pela característica do Brasil como grande produtor de alimentos como pela necessidade de se visualizar em que medida tais produtos poderão se viabilizar no contexto da criação de um mercado doméstico. Em segundo lugar, pelo fato de que as principais plataformas voltadas para a criação de um mercado nacional para os produtos do Comércio Justo e Solidário são orientadas para a produção e o consumo de alimentos, reforçando, por um lado, a necessidade de apoiar a pequena produção e, por outro, um posicionamento voltado para a soberania e segurança alimentar.
Uma fonte de dados mais fidedigna e completa da agricultura familiar no Brasil são os Censos Agropecuários do IBGE, que constituem uma das pesquisas mais aprofundadas sobre o meio rural, possibilitando um recorte específico das características da atividade. Entretanto, a não realização do Censo, que foi programado para o início do ano 2000, deixou uma lacuna muito grande em relação ao panorama mais recente da agricultura brasileira e, em especial, da produção familiar. Os levantamentos mais recentes ou fazem uso e projeções a partir dos dados do Censo Agropecuário de 1995/96 (IBGE, 1998a), ou tratam de recortes mais locais, no nível de cada estado da federação, tornando difícil a sua comparabilidade em termos de Brasil. Nesse sentido, no âmbito dessa tese, os dados da agricultura familiar tiveram como referência o Censo Agropecuário acima citado, a pesquisa FAO/Incra (GUANZIROLI et. al., 2000) , realizada no ano de 2000 (a partir dos dados do Censo Agropecuário) e estimativas da produção familiar a partir de pesquisas periódicos do IBGE, como o Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (LSPA)
De acordo com os dados do Censo Agropecuário 1995/96, existiam no Brasil 4.859.864 estabelecimentos rurais, com uma área total de 353,6 milhões de hectares e um Valor Bruto da Produção Agropecuária (VBP) da ordem de R$ 47,8 bilhões43. Do total dos estabelecimentos rurais, a agricultura familiar era responsável por 4.139.369 imóveis, ocupando uma área de 107,8 milhões de hectares e gerando um VBP de R$ 18,1 bilhões. administração do imóvel, percentual de trabalhadores contratados em relação ao grupo de trabalho familiar, entre outros, a depender da importância dada a variáveis como renda, trabalho e o fator terra. Tudo isso ainda tem que ser ponderado pela diversidade de condições onde se opera a atividade de produção familiar rural num país com grandes diferenças regionais e uma extensão continental como o Brasil. Adotou-se aqui a caracterização de agricultura familiar definida pelo estudo MDA/FAO/INCRA (Brasil, 2000), segundo a qual o estabelecimento rural familiar é aquele em que a direção dos trabalhos é exercida pelo produtor, o trabalho familiar é superior ao trabalho contratado e a área máxima corresponde a no máximo 15 módulos fiscais, segundo a tabela do INCRA. De acordo com o citado trabalho, a área média dos estabelecimentos familiares rurais era de 26 hectares, enquanto a média dos estabelecimentos patronais situava-se em torno de 433 ha.
43
Apesar de o Censo ter ocorrido há mais de 10 anos, não há outro levantamento da agricultura brasileira mais completo e fidedigno do que este. Assim, optou-se por incluir essas informações aqui num contexto estrutural, sendo que dados mais recentes sobre a conjuntura produtiva serão apresentados tendo como base outra pesquisa
Essas cifras demonstram a importância socioeconômica da agricultura familiar já que, com apenas 30,5% da área agrícola, ela representou 85,2% dos estabelecimentos e 37,9% do VBP da agropecuária (Tabela 2).
Tabela 2 – Estabelecimentos, área e valor bruto da produção agropecuária no Brasil
Área (ha)
Número % Total % Média R$ mil % VBP/ha
Familiar 4.139.369 85,2 107.768.000 30,5 26,0 18.117.725,00 37,9 168,12 Patronal 554.501 11,4 240.042.000 67,9 432,9 29.139.850,00 61,0 121,39 Outros 165.994 3,4 5.801.000 1,6 34,9 538.894,00 1,1 92,90 TOTAL 4.859.864 100,0 353.611.000 100,0 72,8 47.796.469,00 100,0 135,17 VBP Estabelecimentos Tipos Fonte: IBGE (1998)
Contando com apenas 25% do crédito e 30,5% da área total ocupada com a agropecuária, a produção familiar contribui com 37,9% da produção de alimentos e fibras, mesmo considerando a grande superfície de atividades extensivas ou as que ocupam grandes áreas como soja, cana-de-açúcar e pecuária de corte, comum nos grandes estabelecimentos. Em termos de valor Bruto da produção (VBP), a agricultura familiar responde por grande parte da produção, conforme demonstrado na Tabela 3. Esses dados não incluem a produção extrativa vegetal da Amazônia e de outras regiões do País, onde uma diversidade de produtos, entre nozes, essências, óleos e plantas medicinais, constituem importante fonte de renda para a população e de divisas para o País.
Tabela 3 - Participação dos principais produtos da agricultura familiar no Valor Bruto da Produção (VBP) agropecuária no Brasil.
Produção Vegetal % VBP Produção Vegetal (cont.) % VBP
Fumo 97 Arroz 31
Mandioca 84 Laranja 27
Cebola 72 Café 25
Feijão 67 Cana-de-açúcar 10
Banana 58
Milho 49 Produção Animal % VBP
Uva 47 Suinocultura 58
Trigo 46 Pecuária de Leite 52
Algodão 33 Produção de Aves e Ovos 40
Soja 32 Pecuária de Corte 24
No levantamento do perfil da agricultura familiar realizado pelo convênio FAO/INCRA, com base os dados do Censo Agropecuário de 1996 (GUANZIROLI et al.., 2000), os produtores familiares das diversas regiões brasileiras foram caracterizados de acordo com a renda, nível de especialização produtiva e grau de inserção no mercado. No primeiro caso, a tipificação tomou como base o custo de oportunidade da mão-de-obra (VOC), correspondente a 260 dias de trabalho/ano ao valor da diária regional + 20%. Dessa forma, os agricultores familiares foram assim tipificados: tipo A, renda total superior a 3 vezes o VOC; tipo B, de 1 a 3 vezes o VOC; tipo C, renda acima da metade até 1 vez o VCO; e D, renda igual ou inferior ao VOC.
No que se refere à renda total do trabalho, verificou-se que, na média nacional, quase metade dos produtores insere-se na categoria de menor renda (D), representando 46,3%; as categorias intermediárias (B e C) compreendem 24% e 20%, respectivamente, e a categoria de maior renda (A) representa apenas 9,8% (Tabela 4). Entretanto, o valor de cada categoria varia de forma significativa de acordo com as regiões. Por exemplo, enquanto no Nordeste a média da categoria A fica em torno de R$ 10.550,00, na região Sudeste o valor se eleva para R$ 19.816,00. Ou seja, o que é considerado como patamar de renda de uma determinada categoria em uma região pode ter classificação diferente em outra.
% Uso de Insumos
Coopera tivismo
Número % Total Mone- tária Total Monet ária Por Imóvel Ha por Posto Assist. Técnica Energia Elétrica Adubos e Corretivos Associa dos (%) A 88.397 4,3 10.555 7.730 170 125 4,9 12,7 8,2 34,0 37,4 7,0 B 331.138 16,1 2.283 1.397 76 46 4,0 7,5 4,0 22,4 23,3 3,8 NE C 420.558 20,5 997 520 62 32 3,5 4,6 2,5 17,6 16,4 2,1 D 1.215.064 59,1 226 54 23 6 2,9 3,3 2,1 17,0 13,8 1,5 Total/Média 2.055.157 100,0 1.159 696 70 42 3,3 4,6 2,8 18,7 16,9 2,2 A 22.919 14,1 19.216 16.297 121 103 4,2 37,8 39,4 69,8 55,9 24,7 B 44.814 27,7 4.210 2.959 51 36 3,6 23,1 24,7 51,8 39,5 15,2 CO C 30.320 18,7 1.816 1.074 30 18 3,3 18,0 19,9 37,3 28,8 10,0 D 64.009 39,5 -374 -710 -5 -10 3,0 23,4 22,2 35,7 25,4 8,4 Total/Média 162.062 100,0 4.074 3.043 48 36 3,4 24,3 24,9 45,3 34,2 12,9 A 40.080 10,5 12.855 9.346 134 97 5,1 18,9 9,0 15,7 15,0 5,1 B 132.816 34,9 3.225 2.149 54 36 4,3 13,7 5,6 8,9 10,0 3,4 N C 94.468 24,8 1.432 836 31 18 3,8 12,2 4,4 7,1 7,1 2,5 D 113.531 29,8 240 -19 5 0 3,5 14,2 5,7 9,4 7,4 2,9 Total/Média 380.895 100,0 2.904 1.934 51 34 4,0 14,0 5,7 9,3 9,0 3,2 A 87.350 13,8 19.816 14.975 347 262 4,1 13,9 38,7 77,1 82,1 33,5 B 159.851 25,2 3.797 2.642 112 78 3,4 9,9 25,4 64,0 70,9 21,9 SE C 110.651 17,5 1.557 958 67 41 3,2 7,3 17,6 51,3 58,2 13,5 D 275.768 43,5 -316 -448 -15 -21 2,8 7,4 18,2 47,1 48,8 11,1 Total/Média 633.620 100,0 3.824 2.703 129 91 3,2 8,9 22,7 56,2 60,6 17,3 A 167.545 18,5 17.162 12.502 465 338 3,9 9,5 74,7 88,9 94,0 57,1 B 325.132 35,8 4.581 2.631 220 126 3,3 6,4 54,3 81,8 86,6 42,9 S C 167.550 18,5 1.871 906 119 58 2,9 5,4 34,6 68,1 71,9 28,7 D 247.408 27,3 -9 -377 -1 -24 2,6 6,0 27,6 55,7 56,9 20,9 Total/Média 907.635 100,0 5.152 3.315 241 155 3,1 6,7 47,2 73,5 77,2 36,9 A 406.291 9,8 15.986 11.898 269 200 4,3 13,8 44,0 66,1 69,2 34,2 B 993.751 24,0 3.491 2.172 103 64 3,7 9,2 25,1 48,0 50,6 19,9 BR C 823.547 19,9 1.330 714 60 32 3,4 6,5 11,9 31,9 32,7 9,4 D 1.915.780 46,3 98 -104 6 -6 2,9 5,7 8,6 26,5 24,4 5,7 Total/Média 4.139.369 100,0 2.717 1.783 104 68 3,3 7,5 16,7 36,6 36,7 12,6 Geração de Empregos Disponibilidade (%) Renda por Imóvel
(R$) Renda por Hectare (R$) Região Tipo de Produtor Imóveis
Tabela 4- Características da produção familiar no Brasil.
Essa variação de renda regional indica que, na consideração dos agricultores familiares como alvo de políticas públicas ou de intervenções do Comércio Justo Norte-Sul, o fator localização assume importância primordial se, no âmbito do Estado, o objetivo for políticas redistributivas e, no contexto do movimento, beneficiar os produtores em desvantagem.
Com relação ao grau de especialização produtiva, cerca de 75 % dos produtores familiares situam-se entre especializados (30%) e diversificados (45%). Apenas em torno de 11% a 12% podem ser considerados, respectivamente, como muito especializados e muito diversificados. Os agricultores da categoria A parecem refletir melhor esse perfil do que os da categoria D. Ou seja, o grau de especialização parece estar mais relacionado com a renda e, assim, quanto maior esta for, maior o nível de especialização (Figura 4). Dentro de cada categoria, enquanto um maior percentual da renda dos produtores do grupo A deve-se a um elevado grau de especialização, nos produtores do grupo D a especialização produtiva mostrou-se negativa (prejuízo) e o maior percentual da renda foi decorrente do maior grau de diversificação. A especialização produtiva em sistemas monoculturais tem se apresentado como um fator de risco para a produção familiar devido às oscilações dos preços dos produtos e à possibilidade de ocorrência de pragas e doença decorrente das populações homogêneas de plantas. Nesse caso, a especialização produtiva demanda, por sua vez, maior intensidade de uso de insumos modernos e um nível de capacitação técnica, geralmente incompatível com a escala dos empreendimentos familiares.
0,0 10,0 20,0 30,0 40,0 50,0 60,0 Geral A B C D Categoria do Produtor % d e Di versif icaçao
Muito Especializado Especializado Diversificado Muito Diversificado
Fonte: Guanziroli et al. (2000).
Figura 4 - Nível de especialização e diversificação em função da renda dos produtores familiares
Isso levanta uma questão importante relativa ao Comércio Justo Norte-Sul, que é a sua característica de baixa diversificação, focando seus incentivos em atividades monoculturais e
especializadas. Esse perfil tende não apenas a excluir os produtores em maior desvantagem econômica como a colocar em risco a situação dos atuais participantes, pelas possibilidades de queda de preços ou a ocorrência de problemas ligados a ataques de pragas e doenças nas lavouras44.
No que tange ao nível de integração ao mercado, ela mostrou-se maior entre os produtores de renda mais alta e mais especializados. À medida que a renda se reduz (de A para D) e, conseqüentemente, o grau de especialização, o nível de integração ao mercado por parte dos produtores familiares diminui (Figura 5). O que pode se depreender desse quadro é que os agricultores de renda mais baixa são, em geral mais, diversificados (aí se incluindo rendas não-agrícolas ou multifuncionais, venda de dias de serviços a terceiros, etc) e menos integrados ao mercado. Uma hipótese que pode se levantar é que a integração ao mercado nas classes de renda mais baixas, a depender da região considerada, pode estar se dando a partir de produção excedente ao consumo (próximo ao conceito de camponês) e do sacrifício de parte dela que seria destinada à família, redirecionando sua venda para a compra de outros bens essenciais. -20,0 -10,0 0,0 10,0 20,0 30,0 40,0 50,0 60,0 70,0 Geral A B C D
Categorias de Renda (Geral e de A a D)
% R e nda M é di a por G ra u de E s pe ci a liz aç ão
Muito Especializado Especializado Diversificado Muito Diversificado
Fonte: Guanziroli et al. (2000)..
Figura 5 - Influência na renda de produtores familiares decorrente do nível de integração ao mercado.
44
O problema da queda de preços se torna relevante com relação à parcela não absorvida pelos mercados do Norte e que é comercializada no mercado doméstico. No caso da ocorrência de doenças e pragas, ela tende a ser menor em sistemas diversificados a exemplo dos sistemas agroflorestais, e maior em sistemas monoculturais, mais ligados ao nível de especialização produtiva demandada pelo Comércio Justo Norte-Sul.
Na medida em que os produtores de baixa renda caracterizam-se por um maior nível de diversificação, as intervenções do Comércio Justo Norte-Sul voltadas para a especialização e eficiência produtiva tornam-se dissociadas da realidade econômica desses atores. Embora considerando que o Comércio Justo não é, e nem pretende ser, a única opção de empoderamento econômico para esses produtores, é preciso refletir que sua especialização produtiva pode representar uma maior dependência em relação aos circuitos de comercialização Norte-Sul, já que o elemento diferencial e estimulador dessa produção é o sobrepreço e o acesso aos mercados. Apesar de o sobrepreço funcionar como elemento disciplinador da demanda em regiões onde a atuação de intermediários seria especialmente desfavorável aos pequenos produtores, ele pode contribuir para a formação de enclaves locais (os consumidores não podem pagar o preço justo e ficam fora do circuito comercial) e, ao mesmo tempo, estimular uma maior dependência dos mercados do Norte.
A integração ao mercado é favorecida nas propriedades com renda mais alta, pelas possibilidades de elevação da escala de oferta, negociação com compradores e um maior acesso à informação. No caso das propriedades com renda mais baixa, seu grande potencial de oferta esbarra, na maioria das vezes, em limitações de demanda, seja em mercados locais, regionais ou mesmo nacional, em decorrência da necessidade de melhorar o padrão de qualidade dos produtos ou reduzir perdas, e também devido a problemas ligados à infra- estrutura inadequada à produção em muitas regiões. Também concorrem para isso as deficiências na área de tecnologia apropriada e assistência técnica, o crédito insuficiente ou inadequado e a desorganização da oferta. Limitações de renda e da quantidade demandada nos mercados consumidores, baixos preços obtidos pelos produtos em esquemas de comercialização onde há pulverização da oferta e a atitude inescrupulosa de intermediários levam à redução drástica da renda potencial das famílias de renda mais baixa.
O nível de tecnologia e assistência técnica da agricultura familiar fica aquém de suas demandas em termos de fatores de competitividade, seja em comparação à agricultura patronal como também em relação a sistemas agrícolas adotados em países mais desenvolvidos. Sabe-se que apenas 16,7% dos produtores têm acesso à assistência técnica, a eletrificação rural atinge somente 36,6% das propriedades, a tecnologia mecânica ou mecânica/animal existe em apenas 27,5% das propriedades, enquanto a tração animal é adotada em 22,7% e os trabalhos exclusivamente manuais prevalecem em metade das propriedades. No que se refere ao uso de adubos e corretivos, apenas 36,7% dos agricultores têm acesso a esses insumos e as técnicas de conservação de solos atingem em média somente 17,3% das propriedades (GUANZIROLI et al., 2000). Como agravante, do total de crédito
disponível para a agricultura em geral, os agricultores familiares só tiveram acesso a 25,3%, sendo que os agricultores patronais, mais capitalizados, absorveram os restantes 74,7%. Disparidades na alocação de recursos e serviços que atingem principalmente regiões como o Nordeste também contribuem na redução da renda média por hectare.
Além desses fatores, a falta de uma base ou cultura associativista na maioria das regiões concorre para um baixo nível de coordenação das cadeias produtivas, onde setores além da porteira da fazenda passam a constituir gargalos importantes, por inviabilizarem a pequena produção através de preços que os favorece, em detrimento dos produtores familiares (MASCARENHAS, 2002). Tais problemas poderiam ser amenizados, ao menos parcialmente, através da organização dos produtores, os quais, agregados em cooperativas e associações, tornam-se mais capacitados para enfrentar esses desafios, seja através da aquisição de insumos a preços mais baixos, acesso a informações, tecnologias e ao crédito ou pela agregação de valor aos produtos e ganhos de escala e promoção na comercialização.
Essas características, sobretudo as relativas aos agricultores familiares de renda mais baixa que, teoricamente, constituem o público-alvo do Comércio Justo, mostram que a sua participação no Comércio Justo deveria se fazer a partir de uma nova perspectiva. Para valorizar a sua característica de oferta diversificada, a ampliação do leque de produtos e a integração ao mercado através da geração de diferenciais para os produtos (criação de valor através das características do território, descomoditização e sistemas de produção socio- ambientalmente orientados).
Após essa breve descrição do contexto da agricultura familiar, serão apresentadas e discutidas, nas próximas seções, algumas iniciativas e movimentos brasileiros cujas propostas, por visarem o empoderamento de produtores, guardam forte convergência com os atores e plataformas que defendem a implantação de um Sistema Brasileiro de Comércio Justo e Solidário no Brasil.
3.2 – Iniciativas e Movimentos Convergentes
Dentre as diversas iniciativas visando reduzir o quadro de vulnerabilidade da produção familiar no Brasil, e buscando promover o consumo solidário e sustentável de alimentos e outros produtos, estão os movimentos ligados à economia solidária, à agricultura orgânica e agroecologia, à reforma agrária e ao movimento sindical no campo, bem como frentes ligadas ao consumo responsável e à responsabilidade social das empresas. Essas iniciativas e movimentos serão detalhados nas seções a seguir.
3.2.1 - O Movimento da Economia Solidária
A proposta da Economia Solidária tem fortes convergências com o Comércio Justo e, no contexto do movimento brasileiro, contribuiu com o rearranjo (bricolagem) e adaptação de alguns dos seus elementos originais para o contexto do País. Entre as diretrizes comuns à Economia Solidária adotadas pelo movimento brasileiro estão a ênfase nos mercados locais, a inclusão apenas de pequenos produtores ou de empresas solidárias (autogestionárias) nas cadeias de produção e a participação em políticas públicas redistributivas e estruturantes no âmbito do Estado.
A definição de Economia Solidária, no âmbito da Secretaria Nacional de Economia Solidária (SENAES), do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), é referente a "um grupo de atividades econômicas, envolvendo produção, distribuição, consumo, poupanças e crédito, organizado na forma de auto-gestão" (BRASIL, 2004a). Embora várias iniciativas ligadas aos fundamentos da Economia Solidária já tenham sido desenvolvidos no Brasil desde os anos 80, uma representação nacional e a articulação deste movimento começou durante a organização do I Fórum Social Mundial (FSM), quando ONGs, vários grupos organizados e o Governo do Estado do Rio Grande do Sul decidiram criar o Grupo de Trabalho (GT) brasileiro para Economia Solidária.
Esse GT foi criado em 2001, com o objetivo de mediar a participação de redes nacionais e internacionais de Economia Solidária durante esse Fórum, e foi formado por 12 organizações e redes, como: a Rede de Brasileira de Socio-Economia Solidária (RBSES); a Federação de Órgãos para Assistência Social e Educação (FASE), Associação Nacional dos Trabalhadores em Empreendimentos Autogestionarios (ANTEAG); Instituto Brasileiro de Análises Socio-Economicas (IBASE); Caritas do Brasil, Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST/Concrab); a Rede de Universidades de Incubadoras Tecnológicas de Cooperativas Populares (ITCPs); Agência de Desenvolvimento de Social (ADS/CUT); a cooperativa UNITRABALHO; Rede Brasileira de Gerentes de Políticas Públicas na Economia Solidária e a Associação Brasileira de Instituições de Micro-finanças (ABICRED).
Durante a preparação do III Foro Social Mundial, em 2002, a união desses atores em rede e o ambiente político, que sinalizava expectativas de que o próximo presidente brasileiro seria o Lula, candidato convergente com as propostas dos movimentos sociais à época, fez com que essa frente se articulasse em torno de uma carta pedindo ao então candidato a criação e institucionalização da Secretaria Nacional de Economia Solidária (SENAES), a qual seria responsável por desenvolver políticas nacionais ligadas a esse tema. Como um interlocutor da
sociedade civil junto à SENAES foi criado, em 2003, o Fórum Brasileiro de Economia Solidária (FBES), com o objetivo de apresentar demandas e sugerir e acompanhar políticas públicas em Economia Solidária. As plataformas de atuação do FBSES no âmbito da Economia Solidária incluíam: as finanças solidárias, a construção de um marco legal para Economia Solidária, as atividades auxiliares como educação, comunicação, construção de redes de produção, comercialização e consumo, a democratização do conhecimento e tecnologia e a organização do movimento no País. O FBES tornou-se então instrumento principal da articulação do movimento da Economia Solidária no Brasil, atuando como um interlocutor da sociedade civil na recém criada Secretaria Nacional de Economia Solidária, onde são discutidas questões ligadas à definição de políticas públicas, apoios e ações em prol do movimento.
Em junho de 2003, durante a III Plenária Nacional de Economia Solidária, foi aprovada uma carta de princípios que passou a delinear a identidade do movimento e a atuação do FBSES (FÓRUM..., 2005; p. 3):
"A Economia Solidária renasce como um regate da luta histórica de trabalhadores, na luta