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CAPÍTULO 2 – O CURSO DE CIÊNCIAS ECONÔMICAS NA UNICAMP

2.1 O contexto e o propósito da criação da Unicamp

Não foi por acaso que dedicamos, no primeiro capítulo, significativa atenção ao período da Ditadura e da contrarreforma universitária que interrompeu o processo de formação do que poderia ser chamado de Universidade. Isso porque foi nesse processo e, principalmente, amparado pelas ideias daquele projeto, que nasceu a Unicamp como a primeira grande experiência do período de uma universidade “moderna”. Apesar de ter sido uma demanda levantada já na década de 195052 e do primeiro ato legal corresponder a 196253, a implantação da Unicamp

data somente de 1966 com o lançamento da pedra fundamental com a presença do então presidente Castelo Branco, sendo que sua implementação efetiva ocorreu apenas em 1967.

A crescente industrialização do país e, em especial do estado de São Paulo, que detinha quase metade da capacidade industrial e cerca de um quarto de toda a população economicamente ativa do país, criava demanda por força de trabalho qualificada que ia além da formação de profissionais liberais, como advogados, médicos e engenheiros, ao qual se dedicava, até então, o sistema de ensino superior brasileiro. Para dar continuidade ao processo de industrialização era notável a necessidade de uma nova universidade que se dedicasse à pesquisa tecnológica, que estabelecesse uma relação simbiótica com os setores de produção de bens e serviços e que formasse profissionais nesse espectro do mercado. Assim, foi estabelecida, rapidamente, uma articulação entre o projeto de universidade e o setor industrial da região de Campinas, que já constituía o maior polo industrial do interior paulista naquela época. Em setembro de 1966 realizou-se uma primeira reunião entre a nascente universidade e a Federação das Indústrias do Estado, onde foi estabelecido um acordo de utilização da estrutura das oficinas fabris para

52 A lei de criação de uma universidade estadual em Campinas, assinada pelo então governador Carvalho Pinto, correspondia a uma resposta às aspirações de parte da comunidade campineira que desde a década de 1950 reclamava pela instalação de uma escola de medicina na região. Sobre esse assunto, ver Lima (1989) e Gomes (2006).

53 Segundo Lima (1989:72), “O primeiro ato legal que criou a Unicamp foi a Lei Estadual nº7655, com data de 28 de dezembro de 1962.”

estágios e a formação de um grupo de trabalho que contribuísse na construção de anteprojetos dos cursos de graduação de acordo com as demandas de suas empresas54. Assim, o projeto da Unicamp, sob comando de Zeferino Vaz55, foi se

constituindo com base no modelo de uma universidade modernizada que desse conta das novas exigências do desenvolvimento capitalista no Brasil, sobretudo aqueles relacionados à industrialização.

Recursos do governo e de fundações privadas estrangeiras garantiram a construção da Unicamp. A opção pelo financiamento dessas fundações não dizia respeito somente à escassez de recursos disponíveis, mas também à inspiração no modelo das universidades estadunidenses, com seu financiamento via filantropia e sua concepção “modernizadora” de ciência. Os acordos feitos com a Fundação Rockefeller teriam sido conscientes e deliberados, relacionados a uma concepção de produção científica baseada nos valores e ideais dominantes na sociedade estadunidense, como a defesa da livre-empresa, o anticomunismo e o pragmatismo (Toledo, 2015). Em dois anos de existência a Unicamp já possuía uma infraestrutura básica de funcionamento.

O rápido crescimento da Unicamp e o seu projeto ambicioso logo atraiu importantes intelectuais de várias áreas, inclusive aqueles que começavam a ser perseguidos pelo regime militar e que viram a possibilidade de obter um certo refúgio nessa universidade56. Por isso, ao mesmo tempo em que a Unicamp se mostrava

funcional ao projeto de industrialização do regime que se instalava, ela se configurava como uma instituição contraditória para esse propósito por incorporar e necessitar (para construir prestígio acadêmico) de intelectuais competentes

54 Sobre esse aspecto, ver Gomes (2006).

55 Zeferino Vaz foi um dos formuladores e o primeiro Reitor da Unicamp (de 1966 até 1978) e obteve considerável apoio do regime militar para implantação dessa universidade. Isso porque, logo na data do golpe de 1964, ele prontamente declarou-se favorável à “revolução” que conteria uma suposta conspiração para implantação de uma ditadura comunista. Já no dia 15 de abril de 1964, menos de uma semana da invasão da Universidade de Brasília (UnB) por tropas do Exército e da Política Militar, Zeferino Vaz assumiria o cargo de interventor da UnB (Gomes, 2006). Como interventor da UnB, Zeferino permaneceu por dezessete meses, entre 1964 e 1965, para cumprir a tarefa de executar o desmonte exigido pela Ditadura daquela universidade que era tida como a maior experiência na tentativa de construção de uma Universidade genuinamente brasileira, mas considerada um reduto de comunistas pelo novo regime.

56 Costuma-se atribuir à figura de Zeferino Vaz o feito de ter tutelado alguns professores considerados comunistas pelo regime e de ter garantido que a Unicamp não sofresse uma intervenção militar direta. Para Toledo (2015), mais do que a simpatia de Vaz entre os militares, foi a garantia de implantação do projeto vislumbrado pelos militares de uma universidade que cumprisse os objetivos tecnocráticos com ênfase nas ciências exatas e tecnológicas, e de características modernizantes.

academicamente e contrários ou opositores ao regime e a sua forma autoritária. Seu sucesso inicial foi tamanho que a sua estrutura se tornaria referência para a contrarreforma universitária de 1968 (Gomes, 2006), que seria a expressão maior da perspectiva de educação superior do regime militar57. No entanto, a soma

de expectativas ambiciosas, que se propunham a construir algo nos moldes mais modernos dos países centrais, com um crescimento desordenado, frente aos limites impostos pelo subdesenvolvimento, pela dependência e pelas particularidades históricas brasileiras, acabou tornando a constituição da Unicamp mais um episódio da modernização conservadora no Brasil58.