CAPÍTULO 3 – ALFABETIZAÇ Ã O EM PORTUGUÊ S COMO LÍNGUA
3.6. O CONTEXTO ESCOLAR COREANO: IMPLICAÇ Õ ES PARA O
Acerca das especificidades de nosso contexto de imigrantes 43 ,
acreditamos ser de extrema relevância o tema da educação coreana. Evidentemente, o assunto é deveras complexo e, para os interesses específicos desta dissertação, iremos discorrer brevemente sobre a conduta entre alunos e entre aluno-professor. Se a “educação possui uma série de implicações para as identidades e relações dos alunos” (CANAGARAJAH, 1999, p.12; v. também SILVA T, 2005), pensamos em buscar algumas respostas no currículo coreano.
Importa lembrar que todos os alunos estudavam em escolas públicas na Coreia do Sul, assim como a maioria das crianças coreanas. O conteúdo do currículo coreano é cuidadosamente padronizado e supervisionado pelo Ministério da Educação e Desenvolvimento de Recursos Humanos “para garantir oportunidade de educação igual a todos e manter a qualidade” (COREIA, 2007). Diante da dinâmica histórica, social e econômica, os currículos são revisados e alterados quando o Ministério julga ser necessário. A última alteração resultou no
Sétimo Currículo de 1997. Sua aplicação efetiva se deu três anos mais tarde para
o 1º ano e 2º ano do ensino fundamental, seguidos pelo 3º ano e 4º ano em 2001 e, por fim, 5º ano e 6º ano em 200244 (ibidem).
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Segundo Cummins (1980), os alunos que continuam sendo instruídos na LM obtêm maiores progressos linguísticos e acadêmicos em L2.
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Sobre o tema da importância do contexto no planejamento das práticas em sala de aula, ver Heath (1983), Street (1984), Hamel (1988), Kleiman (1995), Hornberger e Skilton-Sylvester (2000), Hornberger (2002,2003,2004),Tfouni (2006), entre muitos outros.
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Não foi possível averiguar se as idades para cada ano escolar são correspondentes ao critério brasileiro de classificação.
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Contudo, no Sétimo Currículo, o Ministério da Educação e Desenvolvimento de Recursos Humanos expressou sua preocupação com o que eles mesmos denominaram de abordagem spoon-fed e short-sighted da educação coreana, cujas traduções se aproximariam de “facilitador em excesso” e “miótica”45
. Em outras palavras, foi assinalada uma crítica ao método de ensino fortemente baseado na memorização do conteúdo (v. ROTHSTEIN, 2001; ROBERTSON, 2002), logo, na falta de oportunidades para despertar e desenvolver nos alunos a voz e a agentividade.
Como veremos no Capítulo 5, não se trata apenas da educação
coreana que valoriza certas “habilidades cognitivas” 46
: classificação, categorização, raciocínio lógico dedutivo e memorização47. Ocorre que o modelo universal de orientação letrada é o Modelo Autônomo (KLEIMAN, 1995), modelo este que prevalece nas escolas em sociedades que concentram poder político e econômico. Por ora, salientamos que esse modelo prevê ainda a existência de somente um tipo de letramento – cujo objetivo é a produção de textos expositivos abstratos – e a suposta neutralidade da escrita: livre da influência do interlocutor e do contexto de produção.
Além dessas informações, atraiu-nos a ênfase do Sétimo Currículo à individualidade, sendo esta a “base do crescimento de toda a personalidade”, sinal da influência do Confucionismo, “a ideologia norteadora da Nação, bem como a cerne da educação” 48
(COREIA, 2002, p.28). Os princípios confucionistas apregoam que o esforço e o aperfeiçoamento individual – conseguidos através do aprendizado constante, que, por sua vez, é conseguido através da educação49 –
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Nossos agradecimentos à profa. Dra. Terezinha de Jesus Machado Maher pelas traduções mais adequadas para os termos.
46
Colocamos o termo entre aspas por não ser possível determinar a execução de uma determinada tarefa a uma capacidade cognitiva ou outra devido à complexidade de fatores envolvidos (SCRIBNER e COLE, 1981).
47 Sobre as “habilidades cognitivas” amplamente valorizadas pela escolarização, ver Scribner e
Cole (1981).
48
Sobre a influência do Confucionismo na cultura coreana, ver, também, Choi (1991) e Robertson (2002).
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O estímulo ao mérito próprio se inicia desde muito cedo. Na sala do primeiro ano do ensino fundamental (antigo pré), havia um painel na parede com os nomes das crianças em coreano e, ao
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são requisitos essenciais para que alguém “conduza uma Nação” (COREIA, Ibidem).
Destarte, no discurso do Sétimo Currículo50 detectamos uma total interpenetração das esferas discursivas da educação, cultura e Nação: passado, presente e futuro parecem dialogar em perfeita harmonia “dentro do espectro maior da cultura” e “baseado(s) na compreensão da cultura nacional”, ratificando o argumento de Hall (2006) sobre o papel da educação nacional enquanto uma das instituições da cultura nacional.
Outro dado que merece atenção é o papel do professor na educação coreana. Um provérbio coreano resume bem a questão: “não se deve pisar sequer na sombra de seu professor”. Figura respeitada, que lhe confere autoridade, a distância entre professor e aluno é bastante marcada, expressa na alteração de registro e de postura por parte do aluno diante do professor coreano.
Os esquemas de significação e representação aos quais estão habituados na Coreia provavelmente repercutiriam nas aulas de apoio em âmbitos vários, desde o ensino/aprendizagem propriamente dito até as relações sociais.
lado deles, pequenas estrelas, luas e outras figuras geométricas que representavam a quantidade de “premiações” de cada aluno.
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O Sétimo Currículo prevê “a imagem desejável de uma pessoa escolarizada”: a) uma pessoa que busca a individualidade como base do crescimento de toda a personalidade (a person who
seeks individuality as the basis for the growth of the whole personality); b) uma pessoa que
demonstra capacidade de criatividade fundamental (a person who exhibits a capacity for
fundamental creativity); c) uma pessoa que abre caminhos para uma trajetória profissional dentro
do espectro maior da cultura (a person who pioneers a carrer path within the wide spectrum of
culture); d) uma pessoa que cria um novo valor baseado na compreensão da cultura nacional (a person who creates new value on the basis of understanding the national culture) e e) uma pessoa
que contribui para o desenvolvimento da comunidade baseada na consciência da democracia civil (a person who contributes to the development of the community on the basis of democratic civil
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