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O contexto escolar da pesquisa

No documento 2016CatiaPereira (páginas 60-64)

Buscando melhor compreender o contexto investigado, realizou-se uma conversa/entrevista com a professora regente da turma a fim de conhecer a sua metodologia de trabalho, suas impressões sobre a turma e sobre o conteúdo abordado na presente pesquisa.

De acordo com os relatos da professora regente, a turma, em sua maioria composta por meninos é passiva e pouco questionadora, porém com bom índice de interação entre os alunos. No decorrer da conversa a docente salienta que procura estar sempre chamando a atenção dos alunos para os detalhes em relação às atividades e que no decorrer das aulas geralmente surgem alguns conflitos que necessitam serem observados e trabalhados, em detrimento do conteúdo que está sendo abordado no momento.

A docente acredita que a atenção dada aos estudantes bem como o estabelecimento de relação entre o conteúdo que está sendo estudado com o cotidiano vivenciado pelos alunos pode auxiliar no processo de aprendizagem e contribuir para a atribuição de sentido às tarefas realizadas.

Em relação à metodologia de trabalho adotada, a professora regente relata que procura trabalhar de forma globalizada, seguindo uma programação, porém atentando para as questões que surgem no decorrer da aula. Como subsidio, utiliza-se do livro didático, além de buscar atividades nos diários de classe de anos anteriores.

Nessa perspectiva, de acordo com Libâneo (1993), o plano de aula é um instrumento que sistematiza todos os conhecimentos, atividades e procedimentos que se pretende desenvolver numa determinada aula, tendo em vista os objetivos que se espera alcançar junto aos alunos. Por essa razão é de suma importância o planejamento docente para que sejam desenvolvidos os conteúdos necessários aos estudantes, bem como a observação, para que não haja uma priorização de determinadas atividades/conhecimentos em detrimento de outros.

Foi solicitado à professora regente que comentasse sobre o desenvolvimento dos conteúdos presentes no plano de ensino, principalmente sobre o bloco de conteúdos tratamento da informação. De acordo com ela, no decorrer do ano foram trabalhados tais conteúdos de forma articulada com outros conteúdos e disciplinas, realizando pesquisas e principalmente interpretação de dados. Porém, destaca que “[...] esse ano [...] fiz só do livro daí pegava os gráficos tudo aqui” (Professora regente), evidenciando a ausência dos

estudantes no processo de coleta, construção de representações e organização das informações a serem exploradas.

Do mesmo modo salienta ainda a importância do trabalho sobre o tratamento da informação, afirmando que esse conteúdo contribui para a construção de conhecimentos nos estudantes, mobilizando-os para a aprendizagem. A docente justifica dizendo que,

[...] gosto de trabalhar gráfico e tabela, porque assim, os alunos da gente, você sabe que os nossos alunos... Eles às vezes não gostam muito de pensar, né, eles querem meio as coisas prontas, [...] então tem que ser de uma maneira gostosa deles querer trabalhar. E uma que instigue também (Professora regente).

Após essa conversa, a professora regente disponibilizou seus Diários de Classe e o caderno de matemática de uma de suas alunas, conforme havia sido solicitado pela pesquisadora para que fossem consultados.

Com vistas à complementar o processo de pesquisa, foram consultados alguns documentos que se fazem importantes no contexto escolar. Para tanto, buscou-se observar a organização do processo de ensino-aprendizagem, compreendida por Libâneo (2012) como currículo, organização dos planos, metodologias, avaliações, entre outros elementos que se fazem imprescindíveis para a aprendizagem dos alunos.

Primeiramente, analisou-se ao Plano de Ensino adotado pela escola, a fim de observar quais os conteúdos estão presentes no currículo da disciplina de Matemática, do 1º ao 5º ano do ensino fundamental. Buscou-se identificar, no documento, quais os conteúdos referentes ao bloco tratamento da informação que fazem parte do currículo dos anos iniciais. Essa busca resultou na identificação dos seguintes dados:

Tabela 1 - Plano de ensino de Matemática dos anos iniciais da E.M.E.F. Ricardo Durigon – Ibiaçá/RS

(continua)

TURMA CONTEÚDO OBJETIVOS/ HABILIDADES E COMPETÊNCIAS

1º ano Gráficos. Compreender tabelas e gráficos simples estabelecendo comparações.

2º ano Gráficos e tabelas Utilizar gráficos e tabelas para facilitar a leitura, organização e interpretação de informações.

3º ano

(não está explicitado o conteúdo referente ao bloco tratamento da informação).

Usar tabelas, gráficos e mapas para obter ou transmitir informação quantitativa.

Tabela 1 - Plano de ensino de Matemática dos anos iniciais da E.M.E.F. Ricardo Durigon – Ibiaçá/RS

(conclusão)

TURMA CONTEÚDO OBJETIVOS/ HABILIDADES E COMPETÊNCIAS

4º ano

(não está explicitado o conteúdo referente ao bloco tratamento da informação).

Interpretar situações do dia a dia que exigem o uso da matemática para sua solução.

Interagir na realidade, formular e resolver problemas, validando estratégias e resultados.

5º ano

Tipos de gráficos. Interpretação de dados. Tabelas.

Utilização do conhecimento matemático (aritmético, geométrico, métrico, algébrico, combinatório, probabilístico), selecionando, organizando e produzindo informações relevantes, para interpretá-las e avaliá-las criticamente.

Fonte: Projeto Político Pedagógico da E.M.E.F. Ricardo Durigon – Ibiaçá/RS

Diante disso, foi possível constatar que, nos primeiros anos (1º a 3º ano) há uma preocupação maior com o desenvolvimento de conteúdos sobre estatística, principalmente no que se refere à interpretação de dados. Já para o 4º e 5º anos, ocorre uma ampliação dos conteúdos, no sentido de serem desenvolvidas atividades que promovam a observação de situações cotidianas que envolvem a estatística tratamento da informação bem como conteúdos referentes à probabilidade e combinatória. Percebe-se que o plano de ensino da escola condiz com as indicações apresentadas nos PCNs, para o primeiro e segundo ciclo do ensino fundamental17.

Vale ressaltar também, com base em Fusari que,

O plano de ensino deve ser percebido como um instrumento orientador do trabalho docente, tendo-se a certeza e a clareza de que a competência pedagógico-política do educador escolar deve ser mais abrangente do que aquilo que está registrado no seu plano (1990, p. 46).

Se faz imprescindível destacar que, para o desenvolvimento de uma proposta de ensino, o professor necessita de determinados suportes. Uma dessas ferramentas que possui considerável destaque é o livro didático, pois “ele faz parte do método e da metodologia de trabalho do professor, os quais, por sua vez, estão ligados ao conteúdo que está sendo trabalhado, tendo em vista o atingimento de determinados objetivos educacionais (pontos de chegada)” (FUSARI, 1990, p. 47).

17

Nos PCNs, o 1º ciclo corresponde a 1º e 2º série do ensino fundamental de oito anos e o 2º ciclo corresponde a 3º e 4º série do ensino fundamental de oito anos (BRASIL, 1997).

Apesar da enorme variedade de materiais curriculares disponíveis, tanto no mercado, quanto no ambiente tecnológico, o livro didático ainda continua sendo muito utilizado para subsidiar a prática pedagógica. Por isso, se fez necessário atentar para esse instrumento, a fim de identificar quais os principais conteúdos e metodologias que estão sendo propostos nesse material.

Buscou-se verificar as coleções didáticas utilizadas na escola participante da presente pesquisa. Das diversas coleções que a instituição disponibiliza, a professora do 5º ano aderiu ao livro “Projeto Buriti” (GAY, 2011), o qual é composto por nove unidades: O nosso sistema de numeração; Adição e subtração; Geometria; Multiplicação e divisão; Números na forma de fração; Grandezas e medidas; Números na forma decimal; Mais geometria; Mais grandezas e medidas.

Ao analisar essa estrutura, foi possível observar que no livro o conteúdo tratamento da informação não possui uma unidade específica, porém apresenta-se integrado a todas as unidades, por meio da sessão “compreender informações”. Percebeu-se então que a metodologia proposta pelo livro possui o objetivo de garantir que todos os blocos de conteúdos sejam trabalhados de forma articulada.

Dessa forma a coleção de livro didático escolhida pela professora apresenta uma proposta condizente, tanto com as exigências dos PCNs, quanto com os objetivos apresentados no plano de ensino de 5º ano. Porém, vale destacar que apesar de o autor dizer que “nesta coleção, em muitas situações-problema que envolvem quantificações, medidas e aleatoriedade, o tratamento dos dados é sugerido na forma de organização em tabelas e gráficos” (GAY, 2011, p. 28), foi verificado que há um número muito reduzido de atividades que sugerem que o estudante realize a coleta e a organização de informações para construção de tabelas ou gráficos.

Tal constatação justifica-se pelo fato que em relação ao conteúdo de estatística, observou-se que grande parte das atividades propostas foram concentradas em completar tabelas prontas e interpretar dados apresentados no livro. Sobre esse aspecto foi possível identificar somente uma atividade, ao final da unidade 4 (Multiplicação e Divisão), que solicita a construção de um gráfico de linha (GAY, 2011, p. 110-111). No entanto, para realizar essa atividade, as informações a serem utilizadas já estão contidas em uma tabela, não instigando os estudantes a realizar a coleta dos dados. Do mesmo modo, para a construção do gráfico, já encontra-se disponível um “modelo” para que seja preenchido com as informações constantes na tabela. Sendo assim, configura-se em uma atividade de completar os dados de uma tabela em um gráfico pré-estabelecido, desconsiderando a

importância do processo de construção do conhecimento estatístico dos estudantes que ocorre por meio da coleta, organização e análise das informações.

Tendo em vista essas constatações, analisou-se o Diário de Classe da professora regente e posteriormente o caderno de Matemática de uma das estudantes da turma a fim de observar as atividades realizadas no decorrer do ano, sobre o bloco de conteúdos tratamento da informação. Diante de tal análise foi possível ratificar as considerações observadas no livro didático e confirmadas pela docente, de que no decorrer do ano letivo, em que foi desenvolvida a presente pesquisa, os alunos do 5º ano desenvolveram somente atividades relacionadas à complementação de dados pré-estabelecidos, evidenciando a ausência de atividades que possibilitassem a coleta, organização e interpretação de informações, bem como a construção espontânea de registros pessoais para comunicação dos dados coletados.

No documento 2016CatiaPereira (páginas 60-64)