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A Constituição da República Federativa do Brasil, promulgada em 5 de outubro de 1988, na Seção I, que trata da educação, já defendera que a educação teria como fim o pleno ―desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho‖14

. A Lei n. 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as Diretrizes e Bases da Educação Nacional, em seu artigo 2º, estabelece que a educação ―tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho‖. No Capítulo II desta lei encontram-se essas disposições tanto no artigo 22 quanto no artigo 36. De acordo com o ―Art.22- A Educação Básica tem por finalidades desenvolver o educando, assegurar-lhe a formação comum indispensável para o exercício da cidadania e

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fornecer-lhe meios para progredir no trabalho e em estudos posteriores‖ (BRASIL, 1996). O art. 36, anteriormente à sua mudança, estabelece como uma das diretrizes curriculares para o Ensino Médio, em seu inciso III, o ―domínio dos conhecimentos de filosofia e de sociologia necessários ao exercício da cidadania‖ (idem).

No entanto, essa referência à Filosofia, na LDB, no formato original do art. 36, não garantiu a sua implantação na grade curricular do Ensino Médio, visto que o referido artigo não obrigava a sua inclusão na grade curricular.

A Resolução CEB n. 3, publicada em 26 de junho de 1998, a qual institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Médio, embora já propusesse três grandes áreas do conhecimento para a constituição da base nacional comum dos currículos do Ensino Médio (Linguagens, Códigos e suas Tecnologias, Ciências da Natureza, Matemática e suas Tecnologias e Ciências Humanas e suas Tecnologias), todas com intuito de desenvolver as famosas ―competências e habilidades‖, não conferiu à Filosofia o caráter de disciplina obrigatória. Tanto os conhecimentos de Filosofia quanto os de Sociologia foram propostos para serem trabalhados de modo ―interdisciplinar e contextualizado‖, ainda que se reconheça sua importância para o exercício da cidadania, como se pode verificar nos parágrafos 1º e 2º do art. 10 da referida Resolução.

Segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) para o Ensino Médio (BRASIL, 2000, p.44), na Área de Ciências Humanas e suas Tecnologias, ‖até um passado recente a educação brasileira privilegiou, ora mais, ora menos, o conhecimento do tipo técnico-científico, em detrimento das humanidades‖. Porém, apesar de se reconhecer a relevância da Filosofia, os PCN propuseram que ela fosse oferecida de forma interdisciplinar, contextualizada com outras disciplinas, ou seja, que fosse tratada como tema transversal.

De acordo com Fávero et all (2004, p.259-260), os argumentos usados para embasar a defesa do ensino da Filosofia como tema transversal foram praticamente a falta de professores habilitados para ministrá-la como disciplina, o suposto impacto financeiro para os estados e municípios que optassem pela sua obrigatoriedade e, por fim, algumas críticas em relação aos moldes em que se organizava a escola de então. Pensava-se que, se a Filosofia é a responsável pelo desenvolvimento crítico do aluno, equipará-la às outras disciplinas, atribuindo-lhe conteúdos pré-determinados, seria, praticamente, condená-la ao fracasso, impossibilitando-a de exercer com os alunos todo o seu potencial crítico.

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Na publicação da Indicação n. 9/2000, do Conselho Estadual de Educação (CEE), que institui as ―Diretrizes para a implementação do Ensino Médio no Sistema de Ensino do estado de São Paulo‖, há uma pequena mudança quanto aos conteúdos de Filosofia e Sociologia que passam a integrar a ―Área das Ciências Humanas e Correlatas Tecnologias‖, juntamente com os demais conteúdos de Geografia, História, Psicologia e as suas Tecnologias. Percebe-se assim, que a Filosofia começa a ganhar mais espaço nas discussões educacionais.

Nessa ―Indicação‖, as escolas passam a ter autonomia na definição de sua proposta pedagógica e, com isso, é a equipe escolar quem irá escolher quais conteúdos farão parte de cada área do conhecimento. Entretanto, essa abertura para que a cada escola optasse ou não pela implementação da disciplina talvez tenha sido um dos fatores que dificultaram e retardaram a efetivação da obrigatoriedade da Filosofia como disciplina no Ensino Médio de São Paulo. Isso porque se poderia alegar que, se desejassem as escolas já poderiam incluí-la em suas grades curriculares, tornando desnecessária a decretação de sua obrigatoriedade. Além disso, acontecimentos na política do país também contribuíram para tal decisão, como se pode constatar a seguir.

De acordo com Alves (2002, p.140), desde 1997 tramitava pelo Congresso Nacional o projeto de lei n. 3.178, de 1997, de autoria do Deputado Padre Roque Zimmermann (PT), que lutava para que a Filosofia fosse convertida em disciplina obrigatória, deixando de ser tratada como tema transversal. Padre Roque queria a alteração do artigo 36 da LDB e propunha a obrigatoriedade da Filosofia e da Sociologia, como disciplinas para o Ensino Médio. O projeto, que foi aprovado pela Câmara dos Deputados em 22/09/1999, seguiu para o Senado Federal, como Projeto da Câmara n. 9/ 2000, onde também foi aprovado em 18/09/2001. Porém, por orientação do então Ministro da Educação, Paulo Renato de Souza, em 08/10/2001, o Presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, vetou-o.

Assim como o governo federal, o governo do estado de São Paulo, que tinha como governador Geraldo Alckimim, adotou a mesma postura e, em 11/10/2001, vetou a aprovação do projeto-lei n.790/99, do deputado estadual Jamil Murad (PCdoB) que estabelecia a obrigatoriedade da Filosofia e Sociologia nas escolas públicas, permanecendo, assim, essas disciplinas como opcionais para cada unidade escolar.

Mesmo com os vetos dos governos federal e estadual, ambos do PSDB, os movimentos pela obrigatoriedade da Filosofia na grade curricular continuaram e, após o término do governo

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de Fernando Henrique Cardoso, o então Presidente da República José Alencar Gomes da Silva, sancionou a Lei 11.684, de 02 de junho de 2008, que ―Altera o art. 36 da LDB, para incluir a Filosofia e a Sociologia como disciplinas obrigatórias em todas as séries do ensino médio‖.

Antes da aprovação desta lei o governo federal já tentara incluir as disciplinas da Filosofia e Sociologia nas escolas públicas. A medida, porém, não era consensual entre os estados. Mediante a Resolução n. 4, de 16/08/2006, da Câmara de Educação Básica, o Conselho Estadual de Educação do estado de São Paulo mostrou-se contrário a essa decisão como se pode observar pela declaração a seguir.

O Conselho Estadual de Educação do estado de São Paulo pronuncia-se pela não obrigatoriedade da introdução da Filosofia e da Sociologia no currículo das Escolas de Ensino Médio, no âmbito de sua jurisdição, no ano de 2007, respeitando o já disciplinado pela Secretaria da Educação para as escolas da rede pública estadual, bem como pelas da rede privada de ensino (SÃO PAULO/CEE, 2006).

Os motivos alegados para a não aceitação do disposto na referida Resolução pautaram-se pela possível ilegalidade da medida, uma vez que implicava interferência na autonomia das escolas e com impactos financeiros decorrentes da implementação das disciplinas em todo o estado. No entanto, em 2008, o governo do estado de São Paulo lançou uma versão preliminar de sua Proposta Curricular, que posteriormente se tornou definitiva para toda a rede estadual, apresentando medidas preocupantes, como a perda da autonomia das escolas, suscitando a necessidade de adaptação às normas e diretrizes traçadas pela Secretaria Estadual de Educação do estado de São de Paulo. Paradoxalmente, a partir dessa proposta, a Filosofia passou a ser incluída na grade curricular como disciplina obrigatória.