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De acordo com o último Censo Demográfico do IBGE28, a população de Juiz de Fora

era de 516.247 habitantes no ano de 2010. O IBGE estima que em 2020 a população era de 573.285 pessoas. Juiz de Fora é um município de médio porte situado na mesorregião da Zona da Mata, na porção sudeste de Minas Gerais. Suas atividades econômicas, como a maioria dos municípios brasileiros no contexto do capitalismo dependente, concentram-se no setor de

26 Secretaria do MEC responsável pelos programas, ações e políticas da Educação de Jovens e

Adultos, Educação Especial, Educação do Campo, Educação Escolar Indígena, Educação Escolar Quilombola, Educação para as relações Étnico-Raciais e Educação em Direitos Humanos.

27 Comissão instituída em 2006 que possuía caráter consultivo e era composta por representantes do governo, dos movimentos sociais e sindicais e por organizações não governamentais. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/ultimas-noticias/204-10899842/5778-sp-1064818279. Acesso em: 20 jan. 2021.

28 IBGE Cidade. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/mg/juiz-de-fora/panorama. Acesso

serviços29, possuindo algumas atividades industriais. Segundo o IBGE, o rendimento médio mensal da população, em 2018, era de 2,5 salários mínimos e a proporção de pessoas ocupadas em relação à população total era de 30,2%. Os domicílios com rendimentos mensais de até meio salário mínimo por pessoa, compõem 29,9% da população. Os dados de ocupação e renda do município oferecem uma pequena mostra da desigualdade social juiz-forana que retratam uma parte da desigualdade no Brasil.

Nesse contexto, as 101 escolas que compõem a Rede Municipal de Ensino de Juiz de Fora estão localizadas, majoritariamente, nas periferias da cidade e destas, 10 situam-se em áreas rurais do município. As escolas municipais atendem a educação infantil, o ensino fundamental anos iniciais e finais e EJA (ensino fundamental e médio). Em 2020, das 101 escolas, 36 possuem turmas de Educação de Jovens e Adultos do ensino fundamental no período noturno, sendo que 1 delas, localizada no Centro da cidade, possui turmas de EJA nos turnos da manhã e da tarde. Além disso, existem 4 postos do Centro de Ensino Supletivo (CESU) que atendem a EJA de modo presencial e semipresencial.

Conforme informações prestadas pela Supervisão de Gestão de Dados Escolares (SGEDE) da Secretaria de Educação, no ano de 2020, a Rede Municipal apresentou o total de

41.272 matrículas, sendo 9.451 na educação infantil, 24.594 no ensino fundamental – 15.274

nos anos iniciais e 9.320 nos anos finais – e 7.227 na EJA. A EJA presencial atende 2.396

educandos e educandas e a EJA semipresencial, 4.831. Na tabela abaixo é possível observar a evolução da matrícula da EJA na Rede Municipal de 2007 a 2020.

29 O setor de serviços inclui: comércio; transporte; atividades imobiliárias; administração, defesa, saúde e educação públicas; e outras atividades (IBGE, 2019).

Ano

Educação de Jovens e Adultos

EJA (Presencial) EJA (Semipresencial)

Total EJA

Ens. Fund. Ens. Médio Total Ens. Fund. Ens. Médio Total

2007 4.627 3.587 8.214 2.290 3.208 5.498 13.712 2008 4.870 3.091 7.961 2.504 2.872 5.376 13.337 2009 4.630 1.701 6.331 2.350 3.300 5.650 11.981 2010 4.297 190 4.487 1.985 3.038 5.023 9.510 2011 3.749 104 3.853 1.810 3.358 5.168 9.021 2012 3.315 87 3.402 1.870 3.767 5.637 9.039 2013 2.908 100 3.008 1.923 3.542 5.465 8.473 2014 2.795 128 2.923 2.020 3.448 5.468 8.391 2015 2.848 135 2.983 1.930 3.622 5.552 8.535 2016 2.667 118 2.785 2.374 3.247 5.621 8.406 2017 2.485 111 2.596 2.026 3.372 5.398 7.994 2018 2.474 115 2.589 1.835 2.934 4.769 7.358 2019 2.460 105 2.565 1.595 2.705 4.300 6.865 2020 2.265 131 2.396 1.913 2.918 4.831 7.227

Tabela 2 – Matrícula da EJA, Rede Municipal de Ensino de Juiz de Fora, 2007 a 2020

Fonte: SGEDE/SE/JF a partir do Censo Escolar/INEP.

A LDB nº 9.394/1996 determina que os municípios deverão oferecer prioritariamente o ensino fundamental e os estados, embora devam assegurar o ensino fundamental, devem oferecer, com prioridade, o ensino médio. Dessa maneira, a Rede Municipal passa a priorizar o atendimento à EJA de ensino fundamental, mas mantém o atendimento à EJA de ensino médio nas unidades do CESU, quase em sua totalidade no modelo semipresencial. Na EJA de ensino fundamental presencial observa-se um constante decréscimo das matrículas a partir do ano de 2008. Já a EJA ensino fundamental semipresencial mantem a matrícula relativamente estável e apresentou o total de matrículas bem aproximado da EJA fundamental presencial.

Os dados do Sistema para Administração e Controle Escolar (SisLAME)30, fornecidos pela SGEDE/SE/JF, possibilitaram verificar as informações de idade e raça/cor dos alunos da EJA no ano de 2020.

Tabela 3 – Taxa de alunos da EJA do ensino fundamental presencial por faixa etária, Rede

Municipal de Juiz de Fora, 2020

Faixa etária Taxa de alunos EJA ensino

fundamental presencial (%)

15 a 18 anos 43

19 a 29 anos 23

30 a 59 anos 25

60 anos ou mais 8

Fonte: Elaborado pela autora (2021), com base nos dados do SisLAME/SGEDE/SE/JF (2020).

A tabela 3 revela que 43% do total alunos da EJA de ensino fundamental, de acordo com os dados do SisLAME, são adolescentes e 23% são jovens entre 19 e 29 anos, somando- se as duas taxas, a rede municipal tem 66% dos alunos da EJA adolescentes e jovens. Os adultos entre 30 e 59 anos perfazem 25% do total de alunos, enquanto os idosos representam 8%. Os dados da faixa etária dos educandos da EJA do ensino fundamental das escolas municipais de Juiz de Fora refletem o fenômeno que vem sendo denominado de juvenilização da EJA.

Além de demonstrarem a mudança no perfil da modalidade, indicam que a EJA vem assumindo um caráter de aceleração de estudos aos educandos que se encontram em defasagem idade-série. Segundo Haddad e Di Pierro (2000, p. 127), este grupo de alunos mantém com a escola “uma relação de tensão e conflito aprendida na relação anterior. Os jovens carregam consigo o estigma de alunos-problema, que não tiveram êxito no ensino regular e buscam superar as dificuldades em cursos aos quais atribuem o caráter de aceleração

e recuperação”.

Outro dado importante apontado pelo SisLAME, refere-se à raça/cor dos educandos da EJA do ensino fundamental presencial. Em 2020, 67% dos matriculados se declararam negros, 27% brancos e 6% não declararam raça/cor. Assim como os dados da EJA nacional,

30 O sistema é desenvolvido pelo Centro de Políticas Públicas e Avaliação da Educação (CAEd) e

utilizado pelas escolas municipais de Juiz de Fora para lançamento de dados referentes aos alunos, turmas e professores.

os dados da Rede Municipal de Juiz de Fora testemunham que os alunos negros representam a maioria dentre aqueles que ainda não lograram concluir o ensino fundamental. Essa característica da EJA demonstra, mais uma vez, a desigualdade racial produzida por nosso passado escravista, seguida pela não reparação social ao povo negro, e continuamente reforçada através dos mecanismos de controle perpetrados pelo Estado e determinados pela ordem capitalista vigente.

Diante dos dados da Educação de Jovens e Adultos na Rede Municipal de Juiz de Fora que revelam o contínuo decréscimo nas matrículas, especialmente no ensino fundamental presencial, ocorreu-me questionar qual era a possível demanda para a EJA no município. Uma vez que os dados nacionais apontam o enorme fosso entre a demanda potencial e o número de pessoas matriculadas na EJA, como esse quadro se apresenta em Juiz de Fora?

Em pesquisa31 da Universidade Federal de Minas Gerais, realizou-se o levantamento

do total de pessoas não alfabetizadas, sem instrução ou ensino fundamental incompleto e sem ensino médio em todos os 853 municípios de Minas Gerais. De acordo com a pesquisa, Minas Gerais possui mais de 1 milhão de pessoas não alfabetizadas, mais de 7 milhões que não concluíram o ensino fundamental e quase 3 milhões de pessoas que não terminam o ensino médio, somando 11 milhões de pessoas sem a educação básica, diante de uma população estimada em mais de 21 milhões em 2020 (DA SILVA, 2020).

Em Juiz de Fora, a mesma pesquisa revelou que 14.340 pessoas compõem o grupo de não alfabetizadas, 146.610 não possuem instrução e têm o fundamental incompleto e 79.880 pessoas não completaram o ensino médio. Considerando que a estimativa da população de Juiz de Fora era de 573.285 em 2020, os dados anteriores apontam que 3% desta população não foi alfabetizada, 26% não possui instrução e não completou o ensino fundamental e 14% não concluiu o ensino médio. Levando-se em conta o total de 4.178 matrículas da EJA do ensino fundamental presencial e semipresencial da rede municipal e comparando-o com o número de pessoas não alfabetizadas e que não possuem o ensino fundamental em Juiz de Fora, revela-se a abissal distância entre a demanda potencial e o quantitativo de adolescentes, jovens, adultos e idosos da classe trabalhadora que são atendidos na modalidade pela rede

municipal32.

31 A pesquisa foi conduzida pela Prof.ª. Analise da Silva e feita a partir da triangulação dos dados da PNAD 2014, do Censo/IBGE 2010 e do Banco Multidimensional de Estatísticas (DA SILVA, 2020). 32 Não foi possível somar à comparação o número de estudantes atendidos na EJA do ensino fundamental pela rede estadual, pois nos dados do Censo da Educação Básica encontrados, havia apenas o total de matrículas da EJA, sem especificar quantas eram do fundamental e do ensino médio. Mas sabendo-se que havia 3.326 matrículas na EJA da educação básica na rede estadual de Juiz de

Esse cenário nos dá a dimensão do quanto o Estado brasileiro está distante de reparar a dívida histórica e social que possui com a classe trabalhadora. Embora a CF/1988 e a LDB nº 9.394/1996 garantam a educação aos jovens e adultos, esse direito não tem sido assegurado na

prática. Apesar das metas e estratégias referentes à EJA no Plano Municipal de Educação33,

preverem, no prazo de dez anos, a realização de busca ativa dos jovens e adultos, a erradicação do analfabetismo absoluto, a superação da rotatividade de professores na EJA, a manutenção da qualidade do ensino através da seriação presencial, a inclusão do profissional de Educação Física na EJA, etc., observa-se que não houve avanço nesses aspectos.

Assim, essa breve andarilhagem pelos dados da EJA da Rede Municipal de Juiz de Fora e pelo complexo contexto social, político, econômico e educacional brasileiro apresentado anteriormente, testemunha os urgentes desafios que conclamam serem enfrentados para que se assegure uma educação emancipatória aos jovens e adultos da classe trabalhadora. O enfrentamento a esses desafios, dentre outros aspectos, envolve pensar no currículo que deverá ser proposto para a educação dos jovens e adultos.

Dessa maneira, na próxima andarilhagem me aproximei da Proposta Curricular Educação de Jovens e Adultos da Secretaria de Educação de Juiz de Fora (PCEJA) (JUIZ DE FORA, 2012) em busca da apreensão das concepções de EJA predominantemente evocadas no documento.